Granadeiro diz que “há pessoas e instituições que estão a desistir de Portugal”

CGD tinha “prazo bastante longo para sair da PT”, diz a propósito da venda da posição que o banco detinha na empresa que está em fusão com a Oi. Banco já veio dizer que não desistiu de Portugal.

O presidente do conselho de administração da PT, Henrique Granadeiro
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Continuidade de Henrique Granadeiro à frente da PT esteve em análise na reunião da administração Daniel Rocha

O presidente da PT disse nesta quinta-feira desconhecer os contornos da operação de venda das acções da CGD na empresa e, embora tenha recusado comentar o momento escolhido para a operação, notou que o banco público “tinha um prazo bastante longo” para vender os seus activos não estratégicos e cumprir as imposições comunitárias.

A saída da CGD do capital da PT apanhou a administração da operadora de telecomunicações desprevenida, confirmou nesta quinta-feira ao PÚBLICO o presidente da operadora, Henrique Granadeiro. Sem querer comentar se o momento escolhido é ou não inoportuno, por estar em curso o processo de fusão com a Oi, o gestor disse não querer “discutir a operação”, cujos pormenores garantiu não conhecer.

“Não posso fazer comentários sobre a gestão de uma empresa que ainda é minha accionista”, acrescentou o presidente da PT, admitindo porém que, ainda que a CGD estivesse obrigada pela DGCOM (entidade supervisora da Concorrência a nível comunitário) a vender os seus activos não estratégicos, “tinha um prazo bastante longo para o fazer”.

Questionado sobre se seria desejável que a administração da CGD tivesse comunicado com antecedência à PT a intenção de sair do capital da empresa, Henrique Granadeiro disse ao PÚBLICO que “há muitas maneiras de fazer uma operação destas. A Caixa escolheu assim”.

Henrique Granadeiro notou que a operação evidencia que “há pessoas e instituições que estão a desistir de Portugal e de manter uma posição portuguesa forte no mundo”, uma constatação que o deixa triste, mas sem vontade, por agora, de “desenvolver mais sobre esse sentimento”.

“Não [a Caixa não desistiu do país]. A Caixa aposta ainda mais no país, através da cobertura do core da Caixa e do core do país que são as PME”, afirmou Nuno Fernandes Thomaz, administrador da CGD quando questionado acerca do que disse Henrique Granadeiro. As declarações do responsável da CGD, citadas pelo Jornal de Negócios, foram proferidas durante a cerimónia de entrega do Prémio PME Portugal.

“A saída da CGD da Portugal Telecom acontece só após o anúncio público da sua fusão com a Oi e que, estamos certos, criará um grande operador de telecomunicações de língua portuguesa, continuando assim o seu caminho de criação de valor", disse, por outro lado, fonte oficial do banco público numa declaração enviada à Lusa.

Sobre se a saída da CGD do capital da PT enfraquece a posição da PT no processo de fusão com a brasileira Oi Granadeiro afirmou: “Isso não me parece.” Mas “é matemático” que a empresa vai perder um accionista de referência e que a presença portuguesa fica enfraquecida, reconheceu.


A venda em bolsa dos 6,11% que a CGD detém na PT, anunciada nesta quinta-feira pelo banco através da CMVM, não deverá motivar conversações entre a gestão da operadora e a equipa liderada por José de Matos. “Estamos perante um facto consumado, não vale a pena chover no molhado”, disse Henrique Granadeiro.

No último ano e meio, a CGD poderá ter encaixado cerca de 850 milhões de euros com a alienação de várias participações em empresas como a Cimpor, a Zon, a Galp, a Brisa, a HPP ou agora a PT. A imposição de venda das acções consta do memorando de entendimento assinado entre Portugal e a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), no quadro do programa de apoio financeiro a Portugal, que prevê ainda que a CGD deixe o sector segurador, com a alienação da Caixa Seguros (avaliado em mais de mil milhões de euros), uma operação que o Governo quer concluir até final do ano.

Em relação à PT, de acordo com os termos da oferta, que foram divulgados pela Bloomberg, a CGD irá vender a participação a um intervalo de preços entre 3,45 e 3,583 por acção (que corresponde ao valor de fecho dos títulos da PT em bolsa na sessão de quarta-feira). Tendo em conta este intervalo, a operação poderá render entre 189 e 196,2 milhões de euros.