Seis peças de obsidiana usadas por homens pré-históricos “viajaram” 1200 km há 6000 anos

Pedaços da rocha vulcânica, usada para fabricar ferramentas, foram transportadas, no Neolítico, da ilha da Sardenha até Barcelona.

As seis peças que foram agora analizadas para se determinar a sua origem geográfica
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As seis peças que foram agora analizadas para se determinar a sua origem geográfica CSIC

Resultados divulgados esta quarta-feira por uma equipa investigadores do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) espanhol revelam que seis peças de obsidiana – uma rocha vulcânica negra e vidrada – encontradas em antigos túmulos na zona de Barcelona provêm, na realidade, do maciço vulcânico de Monte Arci, na ilha de Sardenha.

“Trata-se da máxima distância documentada até à data no transporte desta matéria-prima, uma rocha usada para elaborar ferramentas no Mediterrâneo Ocidental, durante o Neolítico”, refere o CSIC em comunicado.

As seis peças analisadas -- cinco folhas e uma matriz, a massa de matéria da que se extraíram as folhas -- teriam, segundo os investigadores, mais relação com o prestígio social dos seus donos do que com o fim para o que foram elaboradas, já que foram depositadas em túmulos individuais.

“O estudo das impressões de desgaste dos restos demonstra a sua utilização em actividades quotidianas, de modo que não se trata de oferendas funerárias”, explicam ainda os investigadores. “No entanto, a rareza desta matéria-prima no contexto geográfico estudado e a provável inacessibilidade a estes produtos da maior parte da sociedade conferem-lhes uma exclusividade específica”, explica Xavier Terradas, um dos autores do estudo publicado no na revista Journal of Archaeological Science.

Os seis fragmentos analisados provêm de cinco túmulos localizados na província de Barcelona: Can Tiana (Ripollet), Bòbila Madurell (Sant Quirze do Vallès), Can Gambús (Sabadell), Minas de Gavà e La Serreta (Villafranca de Penedès).

Os investigadores utilizaram fluorescência de raios X e uma outra técnica, conhecida por A-ICP-MS (Laser Ablation Inductively Coupled Plasma Mass Spectrometry), que permite analisar a ‘impressão digital’ química da peça e compará-la com o seu local de origem. “Este tipo de vidro vulcânico negro foi profusamente explorado durante o Neolítico. Os restos que analisámos percorreram mais de 1200 quilómetros e foram transportados por terra para á dos Pirenéus, já que é improvável uma navegação em mar aberto”, explica o cientista.

Segundo o CSIC, estes grupos neolíticos chegaram a participar em verdadeiras redes de intercâmbio de materiais, produtos e ideias mediante a difusão de produtos locais, como os ornamentos corporais elaborados com variscita das minas de Gavà ou o sal de Cardona (Barcelona). Ao mesmo tempo, recebiam produtos de fora, como os elaborados com sílex de origem provençal, machados de procedência alpina, ou artefactos talhados de obsidiana.

“Todos estes restos são singulares pela rareza das matérias com as que foram elaborados, procedentes de locais situados a centenas de quilómetros de distância e que provavelmente não estavam ao alcance de toda a população”, diz aindaTerradas. “Fica claro que estamos perante uma série de produções artesanais especializadas, com um objectivo claramente dirigido para o intercâmbio, cujo alcance se manifesta ao longo de um vasto território europeu”, conclui.

Os restos analisados no estudo serão expostos a partir de 18 de novembro na Residência dos Investigadores, em Barcelona.