Alunos que não conseguiram fazer exame protestam em escolas de todo o país

Em Braga e Aveiro estudantes tentaram invadir salas onde as provas se realizavam. Em Lousada, os alunos invadiram e fotografaram.

Em Aveiro os alunos protestaram por não fazerem exame
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Em Aveiro os alunos protestaram por não fazerem exame Adriano Miranda

Muitos dos alunos que devido à greve convocada pelos sindicados de professores não conseguiram fazer, nesta segunda-feira, os exames nacionais de Português e de Português Língua Não Materna manifestaram-se frente às suas escolas. Vários dizem que compreendem os motivos dos docentes e que estão solidários. Mas tanto para os que fizeram como para os que não fizeram o exame há um sentimento de se ter criado uma situação de injustiça entre estudantes.

Em Braga, os estudantes que não puderam fazer o exame foram encaminhados pela PSP para fora da secundária Sá de Miranda, mas mantiveram-se à porta a entoar o Grândola, vila morena e outras palavras de ordem como "Estudantes unidos jamais serão vencidos". Os alunos exigem que o exame seja anulado devido às consequências da greve dos professores. "Não é justo que alguns alunos façam o exame e outros não. As provas têm de ser anuladas", defende a presidente da associação de estudantes da Sá de Miranda, Sara Fernandes.

Alguns alunos entraram de novo na escola saltando um muro do estabelecimento de ensino.

Entretanto, a mensagem de que os alunos tentaram boicotar as provas que estão a decorrer alastrou-se às restantes escolas de Braga. Na secundária Carlos Amarante, os professores impediram a invasão da escola pelos estudantes que não fazem exame. Os estudantes deste estabelecimento de ensino dirigiram-se à vizinha escola D. Maria, onde convenceram os colegas a tentar entrar na escola. A PSP também foi chamada ao local e encaminhou pacificamente os estudantes para fora do recinto escolar.

Em Viseu, a confusão instalou-se a meio da manhã na secundária Alves Martins quando 220 alunos foram confrontados com a impossibilidade de realizar o exame de Português. Os estudantes foram avisados para saírem da escola, mas já no exterior juntaram-se e revoltaram-se, protestando contra o que consideram ser "uma injustiça". Os ânimos exaltaram-se quando alguns tentaram voltar a entrar na escola e impedir que os colegas efectuassem a prova para "todos ficarem em igualdade". A PSP compareceu no local para assegurar que os restantes alunos fizessem o exame sem interrupções.

À porta da secundária Mário Sacramento, em Aveiro, o protesto também foi ruidoso. Dezenas de estudantes permaneceram junto ao edifício, com tambores, buzinas e a cantar "Aveiro é nosso". "Grândola, vila morena" foi outra das canções que já se ouviu por aqui. Os manifestantes chegaram a ocupar a estrada que passa em frente à escola, mas acabaram por responder aos apelos dos agentes da PSP que para ali foram mobilizados.

Um grupo de alunos invadiu esta manhã a Escola Secundária de Lousada onde o exame de Português se fez em apenas nove das 21 salas previstas. “Foram repelidos uma primeira vez, mas depois voltaram à carga e ocuparam os corredores. Entraram nas salas onde decorriam os exames, fotografaram quem, ao contrário deles, pôde fazer o exame e, claro, os colegas ficaram bastante nervosos. Alguns choraram”, contou ao PÚBLICO Paulo Costa, professor de Inglês naquela escola.

Segundo o docente, os exames que se fizeram – 15 professores foram trabalhar, num universo de perto de 200 – ficaram assim marcados por diversas irregularidades. “Alguém accionou o alarme de incêndio, e mesmo assim, não houve nenhuma evacuação do edifício, apesar de ser obrigatória. A direcção da escola ligou ao Júri Nacional de Exames e as indicações que recebeu foi que era prosseguir com os exames, prolongando-lhes o tempo. Ao mesmo tempo, os exames acabaram por ser feitos com as portas da sala de aula fechadas, o que também contraria o que diz a legislação”, acrescentou o docente.

Em Coimbra, mesmo entre quem conseguiu fazer o exame há alguma revolta. André Patrício, da secundária Quinta das Flores, Coimbra, sente que está em vantagem em relação aos colegas, porque começará já a estudar para o exame de História e eles ainda têm dois exames para fazer. Acha bem que a prova não tenha sido adiada e defende que os sindicatos, não podendo chegar a consenso, deviam ter mudado a data da greve. Como a chamada para os exames é por ordem alfabética, os alunos para o fim da lista tiveram menores probabilidades de conseguir uma cadeira para a prova.

Carlos Caldeira, presidente da associação de estudantes da secundária Quinta das Flores, já não entrou, devido ao critério da ordem alfabética. Segundo diz, está solidário com os professores e apoia a greve. Porém, foi surpreendido no domingo com a notícia do ministério de que alguns fariam exame. Pensa que “a partir de agora não é possível repor a justiça”. “Ou faziam todos ou não fazia nenhum, não percebo por que e que isto é difícil de entender”, diz. Luís Videira, da mesma escola, que não conseguiu fazer exame também está indignado mas não com os professores: “Compreendo a greve, não compreendo o Governo que estava farto de saber que isto ia acontecer e devia ter adiado o exame. Se é exame nacional, tem de ser para todos, igual e ao mesmo tempo, senão é injusto”, protesta. “A prova será sempre mais fácil ou mais difícil”, diz.

À porta da secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa, ficaram poucos alunos mas contestaram o facto de parte dos colegas poderem fazer a prova e outros não. "Acho que não devia haver exame para ninguém", exclama Daniela, 18 anos. Já na secundária Camões, também em Lisboa, a maioria dos alunos manifestam apoio aos professores. Contudo, esperavam que pelo menos tivessem garantido que nenhuma sala funcionasse. "É isso que me revolta, que uns estejam a fazer exame e outros não", desabafa Cláudia, 20 anos. José Saraiva, 17 anos, diz-se chocado: "Isto custa-me imenso. Matei-me a estudar e agora não posso fazer exame. Não estava à espera de uma adesão assim. Isto vai afectar-me a planificação do estudo e a preparação para o exame de Matemática."