Joana Maltez
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Mr. Dheo: "O artista tem de correr um caminho ilegal”

O P3 conversou com o "writer" português que já deixou a sua assinatura em países como Alemanha, Espanha, França, Grécia, Brasil e Colômbia. “No ano passado, se calhar, fiz 30 trabalhos lá fora e fiz quatro ou cinco no Porto"

É fim de tarde e no ar há um cheiro carregado a "spray". Estamos no interior do Rua, um restaurante/bar prestes a nascer na baixa portuense. Mr. Dheo faz uma pausa. Encosta-se à parede, de olhos postos num longo mural ainda no início. Sente-se a inquietação que o prende. Apesar das produções foto-realistas em que trabalha há anos, há pormenores que o preocupam. Confessa que aquele trabalho “em termos de complexidade é um dos maiores desafios da carreira” já com 13 anos. É o Porto que ali está. A Rua 31 de Janeiro, em tons quentes, olhada do seu topo, os edifícios históricos, o eléctrico que chega.

O Porto é uma cidade dura para quem é "writer" (aquele que faz graffiti) como ele. Queixa-se da falta de murais e de espaços dedicados ao graffiti, apesar das inúmeras conversas com o município. “É preciso um projecto inteligente, um projecto interessante e pensar na melhor forma de chegar às pessoas. Há fachadas que estão ao abandono e há artistas que se propuseram redecorá-las ou dar-lhes vida, sem qualquer compensação monetária, e nem isso foi acordado.”

Nota-se o tom de cansaço na ausência de uma justificação – “ou nos ignoram ou recebemos cartas para irmos ao centro de desemprego” –, as mãos com restos de tinta agitam-se nesse lamento de ver nascer projectos na capital, frente ao vazio do Porto. “No ano passado, se calhar, fiz 30 trabalhos lá fora e fiz quatro ou cinco no Porto. O que é estranho. Tenho a sorte de ser convidado num rol de 10 ou 20 artistas europeus para pintar um museu em São Paulo ou um estádio na Colômbia e chego ao Porto e se quero estar activo, basicamente, tenho de pintar ilegal. Não tenho outra alternativa.”

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O graffiti como voz

E a palavra como arma, em murais com imagens e rostos hiper-realistas, quase fotográficos, tornaram-se marca do conhecido homem sem rosto. Ainda faz sentido essa ausência de imagem Mr.Dheo? “Sim. Excluindo a imagem até que ponto consegues reconhecimento? Até que ponto consegues ser valorizado só pelo teu trabalho, sem teres de falar, sem teres de dar a cara, sem teres de justificar porque é que fazes aquilo? O meu trabalho tem de falar por ele próprio.”

E os murais falam. Agora sobretudo sobre o país. Sobre a crise. Suspira e em palavras que já parecem gastas desabafa: “Eu vou dizer uma coisa muito triste, mas é realmente aquilo que eu penso. Eu acho que enquanto fizermos manifestações pacíficas não vamos a lado nenhum. Porque ninguém tem medo de nós. Somos um povo que, por natureza, aceita as coisas, se conforma com as coisas. Não somos um povo com atitude”. E o que é que tem de ser feito? A resposta acaba por não surgir, deixando escapar um sorriso e uma resposta politicamente correcta: “Eu tenho consciência, pelo menos, que tenho parte activa, que sou parte activa ou que faço o meu melhor para a minha vida ser diferente da que grande parte das pessoas vive aqui”.

Varre-se a seriedade crítica e os olhos brilham quando se fala da rua. Esse brilho de paixão para quem não consegue “por natureza” fazer três trabalhos seguidos “sem ir para a rua”. Explica-nos. “Porque é na rua que eu sou realmente feliz. Preciso disso. Este lado crítico não pode surgir no trabalho.” Descansar o negócio para dar lugar ao prazer é um modelo que quer estender vida fora. “Imagino-me com 40, 50 anos a pintar na rua. Porque não?” Mas não se confunda rua com vandalismo, ainda que “a essência do graffiti é essa”, caminho obrigatório, já que “um artista para chegar a artista tem de correr um caminho ilegal”. “É isso que te vai dar o conhecimento que tu precisas para um dia poderes chegar ao nível que tu queres”.

O sonho americano

A expressão “lá fora” ouve-se a cada minuto. As comparações com outros países estão sempre presentes, quase inconscientemente, tanto que nos leva a questioná-lo porque se mantém ainda no país. A resposta é imediata: “Eu quero esgotar tudo para no dia em que sair, sair de vez e sair completamente de costas voltadas a Portugal. Já estou no meu limite”.

28 anos, autodidacta, a arte desde os três anos, “zero apoios institucionais”, participação em eventos internacionais e clientes de peso “conseguidos com trabalho” (Reebok, Red Bull, FC Porto, Arsenal FC, Sonae, Mario Balotelli, Hard Club, Super Bock...). Fez do graffiti negócio, mas frisa: “Eu não me deixo moldar nem dominar por marca rigorosamente nenhuma”. Já perdeu trabalhos “importantes”, mas Mr. Dheo só negoceia com quem lhe dá “quase total liberdade criativa para trabalhar”, porque, assegura, “existo para criar e não para executar”.

A assinatura já foi deixada pela Alemanha, Espanha, França, Grécia, Brasil, Colômbia e outros pontos do globo e, para muitos, carrega um título que ainda o deixa constrangido: “Melhor writer português”. “É um rótulo que eu não consigo aceitar. Agradeço, mas para mim é difícil lidar com isso.” O currículo é extenso e, contudo, não suficiente.

Ainda tem os olhos presos ao mural enquanto pensa na viagem que tem de fazer esta semana pela Europa. Mais um convite, esclarece. De si próprio destaca a aversão à estagnação e a “constante mutação”. Ser um dos melhores "writers" portugueses não basta. Falta-lhe que os portugueses se orgulhem dos portugueses que “conseguem mudar o nome de Portugal, mostrar a nossa cultura” no exterior; falta-lhe evoluir dentro do foto-realismo, mesmo não sabendo o que se seguirá esteticamente; e falta-lhe Nova Iorque e Los Angeles na lista de cidades.

“Eu chamo-lhes desafios, mas são quase objectivos que eu tenho”, afirma de sorriso na face e a crença de que o convite chegará um dia.