Jornal de Angola ataca Portugal, mas coloca esperanças num entendimento com Paulo Portas

Editorial do jornal oficial do regime angolano segue-se a notícia do Expresso deste sábado sobre alegada investigação do DCIAP a procurador-geral da República de Angola.

Paulo Portas com o ministro angolano dos Negócios Estrangeiros durante a sua visita a Portugal em 2011
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Paulo Portas com o ministro angolano dos Negócios Estrangeiros durante a sua visita a Portugal em 2011 Patrícia de Melo Moreira/AFP

Já vem sendo hábito: aconteceu em Novembro e voltou a acontecer este domingo nas páginas do Jornal de Angola, órgão oficial do regime de Luanda.

Sem nunca fazer referência à notícia deste sábado do semanário Expresso sobre uma investigação ao procurador-geral da República angolano João Maria de Sousa por fraude fiscal e branqueamento de capitais, o director do único diário angolano, José Ribeiro, critica as instituições portuguesas, como a Procuradoria-Geral da República (PGR), duvida da boa vontade de Portugal nas relações bilaterais com Angola, queixa-se de uma “perseguição aos interesses angolanos” e aponta o alvo ao ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, que esteve recentemente numa visita a Luanda, antes de deixar a porta aberta a um entendimento.

“Por continuar ainda hoje, décadas depois da independência, a perseguição aos interesses de Angola em Portugal, soa mal e gera muita desconfiança quando vem a Luanda um ministro do Governo de Lisboa afiançar que a amizade entre Portugal e Angola continua de pé e os investimentos angolanos são ‘bem-vindos’ em Portugal. Já começamos a acreditar que isso não é sincero”, escreve José Ribeiro no texto intitulado Portugal e Jonas Savimbi.

Mais: o editorialista acusa a imprensa e as instituições em Portugal de favorecerem a UNITA do defunto líder Jonas Savimbi e de prejudicarem os representantes do Governo de Angola. “Nunca a Procuradoria-Geral da República portuguesa ou os serviços de banditismo investigaram os traficantes e criminosos que circulavam livremente em Portugal”, escreve, depois de acusar os dirigentes da UNITA de andarem “décadas por Lisboa a traficar armas e diamantes”.

O PÚBLICO tentou sem êxito obter um comentário do ministro Paulo Portas este domingo. Num contacto no sábado, a assessora de imprensa da PGR não confirmou nem desmentiu qualquer investigação a João Maria de Sousa que, segundo a edição do Expresso, seria suspeito de transferir 93 mil dólares de uma empresa offshore para uma conta do Santander Totta em Portugal, através de uma conta do Banco Comercial Português das Ilhas Caimão. O semanário dizia ainda que o ministro Paulo Portas tem dado especial atenção a estas investigações, para impedir o reacender de um conflito diplomático entre Lisboa e Luanda.

Já em Novembro, o Expresso tinha avançado a notícia, confirmada ao PÚBLICO pelo Departamento de Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), da existência de uma investigação contra “altos dirigentes angolanos” por suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais, sem que no entanto tivessem sido ouvidos ou constituídos arguidos.

Seriam pelo menos três figuras do círculo mais próximo do Presidente José Eduardo dos Santos: Manuel Vicente, vice-presidente de Angola e ex-director-geral da empresa petrolífera nacional Sonangol, o general Hélder Vieira Dias "Kopelipa", ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República, e o general Leopoldino Nascimento "Dino", consultor do ministro de Estado e ex-chefe de Comunicações da Presidência da República.

Na altura, o Jornal de Angola denunciava, também em editorial, sob o título Jogos Perigosos, o que dizia ser uma “campanha contra Angola do poder ao mais alto nível” em Portugal, e previa que as relações entre Luanda e Lisboa fossem prejudicadas porque, referia, houve um acto de “deslealdade”.

No editorial deste domingo, contudo, não fecha totalmente a porta e coloca alguma esperança na figura de Paulo Portas, concluindo: “Hoje, Paulo Portas é um grande amigo de Angola e está a ser lançado para liderar a direita portuguesa em caso de as coisas correrem mal à actual coligação, o que mostra que é possível, afinal de contas, um entendimento com Portugal."