Formação e apoio às vítimas são essenciais no combate ao ciberbullying

Redes sociais, chat rooms, jogos online – meios de comunicação e entretenimento muitas vezes utilizados como veículo de agressão por parte de jovens contra jovens. Mas há formas de combater o ciberbullying e devem ser do conhecimento de todos.

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Jovens têm capacidades técnicas para saber explorar actividades online, diz estudo Fernando Veludo/NFactos

Existem directrizes e recomendações para ajudar vítimas de ciberbullying e apoiar pais e professores na resposta às agressões feitas principalmente nas redes sociais e em chat rooms, mas estas podem não ser eficazes. Esta quarta-feira foi apresentado um estudo internacional que analisou os pontos fortes e fracos das recomendações activas em 29 países, incluindo Portugal. A educação em matéria de cibersegurança, o apoio parental e escolar à vítima e uma actuação eficaz com a formação de pais e professores estão entre as principais recomendações dos 13 investigadores que elaboraram o relatório Orientações para prevenir o ciberbullying no ambiente escolar: uma revisão e recomendações .

Entre os investigadores, de 11 países, está Ana Tomás de Almeida, do Departamento de Psicologia da Educação e Educação Especial da Universidade do Minho. Das recomendações que actualmente são feitas no combate ao ciberbullying e que a equipa analisou, a investigadora destaca que, na sua maioria, “colocam pais e professores no papel de modelos de consciência e desenvolvimento de competências para a prevenção do ciberbullying”, ficando por aprofundar “as políticas e os regulamentos escolares”. Ana Tomás de Almeida acrescenta que “a omissão mais notada” é a do papel “pró-activo que os jovens podem assumir no combate ao ciberbullying” e do envolvimento que toda a comunidade pode ter no apoio às vítimas.

No estudo, que arrancou em Outubro de 2008 e se prolongou durante quatro anos, foram avaliadas as recomendações que existem para cada um dos actores escolares. Acima de tudo, os investigadores defendem “um esforço concertado da sociedade, escolas, professores, pais e jovens para trabalharem em conjunto e determinar as regras e as práticas” a ter para responder a estas agressões.

Pais atentos, pró-activos e dialogantes
Os pais são o primeiro grupo a quem o estudo se dirige. É recomendado aos progenitores que sejam pró-activos e que falem sobre o ciberbullying antes mesmo de os seus filhos serem vítimas. Desta forma, sustenta o relatório, “as crianças ficarão mais bem preparadas para enfrentar o ciberbullying” e provavelmente vão conseguir evitar comportamentos condenáveis ou apoiar outros menores em ataques a terceiros. Ao serem informados pelos filhos de que uma outra criança está a ser vítima, os pais devem reportar o caso às autoridades competentes.

Cabe ainda aos progenitores ou tutores informarem-se sobre as formas seguras de utilizar um telemóvel ou a Internet e ajudar a criança tecnicamente a evitar ser vítima de um intruso através de mensagens ou imagens abusivas. “Os pais muitas vezes não se apercebem de que, apesar das suas crianças serem aptas tecnicamente, podem não saber utilizar a tecnologia de forma segura”, sublinha o documento.

Uma das questões em que o estudo concentra as atenções é o apoio que deve ser dado a uma criança vítima de ciberbullying. Antes disso é necessário estar atento aos sinais do menor quando já está a ser agredido, como “alterações de comportamento, depressão ou agressividade” sempre que está ou esteve online. Os pais devem passar a mensagem aos filhos de que “não é uma vergonha” estar a ser vítima de ciberbullying e que o problema “está do lado do agressor”. As crianças devem, assim, ser “encorajadas a não hesitar em pedir ajuda aos pais, professores, jovens ou outros que as ajudam quando estas não têm capacidade de se ajudar a si próprias”.

Uma das principais recomendações, e que está na base de quase todas as outras, é a existência de diálogo constante entre pais e filhos. Mas este deve ser cuidado, sem “reacções exacerbadas”, e a solução de “negar o acesso à criança de um telemóvel ou Internet” não deve ser escolhida. Antes, defendem os autores do estudo, “devem falar sobre formas possíveis de lidar com os ciberataques”.

Etiqueta online essencial para os jovens
No caso dos jovens, a primeira das recomendações deixadas pelo estudo é que fique garantido que estes tenham uma participação activa na elaboração da política escolar de combate ao bullying, seja ele online ou nos corredores das escolas. Aos jovens é aconselhado, por sua vez, que façam uso das novas tecnologias com “responsabilidade para a sua própria segurança” e que reforcem a sua “cidadania digital” integrando programas de aconselhamento e tutoria dedicados a actividade online.

Os autores do estudo consideram importante que os jovens tenham capacidades técnicas para saber explorar as diferentes actividades online, como as redes sociais, chat rooms e jogos online, ou por telemóvel, mas sobretudo que tenham o que designam como “netiquette”, qualquer coisa como etiqueta online, quando “comunicam e socializam” na Internet, assegurando que os “valores comportamentais assumidos online sejam os mesmos que na vida real”.

Perceber o que é o ciberbullying, as suas causas, consequências, incluindo as legais, saber reagir em caso de agressão e as formas de combate devem também fazer parte das competências dos jovens.

Depois dos pais, é à escola e professores que é atribuída grande parte da responsabilidade de educar crianças e adolescentes para que saibam identificar casos de ciberbullying, reagir perante estes e procurar ajuda para terminar com estas agressões. É no recinto escolar que começam muitos dos casos de bullying e é aqui que o activismo contra estas agressões tem um papel importante. Apesar do estudo dividir as recomendações para a escola e para os professores, estas são semelhantes e, acima de tudo, complementares. “Os professores devem ser modelos a seguir e incentivar os alunos a apoiar aqueles que estão a ser vitimados e consequentemente criar um ambiente escolar que não tolere o ciberbullying”, recomenda o relatório. O apoio educativo dado pelos professores deverá ter, no entanto, algumas considerações, nomeadamente a idade e a compreensão do aluno sobre como devem ser utilizadas as novas tecnologias sem ser vítima ou agressor.

Cyberbullying é um problema comunitário
"Positividade" é um conselho sublinhado várias vezes no relatório, quando se refere à forma como professores e restante pessoal escolar devem falar e abordar a tecnologia e o uso que os mais novos lhe podem dar. A cooperação na comunidade escolar, que inclui ainda os encarregados de educação, é essencial numa situação confirmada de ciberbullying. “Todas as partes envolvidas devem estabelecer contacto entre si”, defende o estudo, acrescentando que “não deve ser uma questão de quando acaba a responsabilidade parental e começa a responsabilidade escolar, mas antes como tornamos o ciberbullying uma responsabilidade cada vez mais partilhada”.

Mais uma vez, a formação é destacada. “O pessoal escolar e os seus pares têm que desenvolver o conhecimento e aptidões para responder de forma eficiente e dar apoio àqueles que são vítimas de ciberbullying”. Para que haja formação profissional, é aconselhado às direcções das escolas que procurem apurar que competências o seu pessoal tem para reagir em casos de ciberbullying e “encorajar e permitir aos professores que implementem e avaliem consistentemente respostas eficientes a situações de ciberbullying”. “Por exemplo, os professores devem melhorar o conhecimento dos alunos sobre cibersegurança e regras de etiqueta online” e desenvolver laços com os pais “para estabelecer uma cooperação mais próxima, desenvolver estratégias para lidar com o ciberbullying, contactar os pais quando for considerado apropriado e aumentar a consciência parental e da comunidade" sobre o tema.

A professores e alunos é deixada uma última recomendação: “Os professores devem aproveitar a oportunidade para aprender sobre como os alunos usam a Internet, enquanto os estudantes têm que apreender formas para resolver problemas sociais e desenvolver aptidões sociais com os professores”.