Uma colecção para explicar os santos que dão nome a fortes, estações, castelos e elevadores

Do latim para o português, foram traduzidos textos sobre os santos antes da nacionalidade. Até 2015 vão ser publicados 12 volumes da colecção Santos e Milagres da Idade Média.

Manuscrito do século X sobre S. Vicente, um dos exemplos traduzidos do latim para português.
Foto
Manuscrito do século X sobre S. Vicente, um dos exemplos traduzidos do latim para português DR

O Elevador de Santa Justa, o Forte de São Julião, a freguesia de São Sebastião, o Castelo de São Jorge, e tantos outros. Quem são estes santos que dão nome a marcos da capital?

Pela primeira vez traduzidos do latim para o português, são apresentados textos acerca de santos cujo culto é anterior ao nascimento da nacionalidade portuguesa. Muitos estão ligados à capital, e todos estão presentes numa colecção com 12 volumes. Naquele que a Igreja Católica designa como o Ano da Fé, a colecção Santos e Milagres na Idade Média em Portugal, da Traduvárius Editores, é apresentada, nesta sexta-feira, no Porto, e na próxima segunda-feira, em Lisboa.

A obra, que tem como coordenador Paulo Farmhouse Alberto, agrega textos antigos sobre mártires e santos com culto na Antiguidade Tardia e Alta Idade Média no território que viria a ser Portugal, mas que na altura ainda fazia parte da Hispânia. Tentaram fazer coincidir com os santos e mártires padroeiros das mais antigas freguesias de Lisboa, antes do final do séc. XII, ou que fossem símbolos da geografia quotidiana portuguesa.

O coordenador diz que o público-alvo do livro é “um público interessado, não-académico, que todos os dias passa por marcos da geografia cultural das nossas cidades geralmente sem se aperceber do seu significado original”, como é o caso do Castelo de São Jorge, o Forte de São Julião, a freguesia de São Sebastião da Pedreira e o Elevador de Santa Justa. “Estes volumes respondem às perguntas: 'Quem foram? Que nomes são estes?' A colecção vai dar um rosto diferente, e o original, a estes marcos da nossa paisagem”, diz.

Entre prosa e poesia, esta obra da autoria de vários investigadores do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CEC/FLUL) pode ser lida como um romance, continua Paulo Farmhouse Alberto. “São textos literários, não são missas, mas sim pequenos contos”, onde se fica a saber curiosidades sobre cada santo. Por exemplo, S. Vicente tinha corvos a proteger o seu cadáver e o seu corpo foi lançado à água na esperança de que se afundasse, mas o mar devolveu-o à praia. Isso pode explicar algo que já era familiar a muitos: o emblema de Lisboa. “A maior parte das pessoas sabe que estão corvos nas armas da cidade de Lisboa, mas não sabem o que lá estão a fazer, nem sabem o porquê daquela barca”, comenta Cristina Pimentel, directora do CEC/FLUL, que promove a obra.

A colecção estará à venda em livrarias, mas pode chegar às paróquias que quiserem. Os volumes serão publicados até 2015, na ordem de três volumes por ano e apresentam também uma secção em inglês, já a contar com os turistas interessados no tema.

Um dos objectivos do CEC/FLUL com este projecto é a “contribuição para o desenvolvimento da investigação científica no campo da filologia e da cultura”, como se pode ler no texto de apresentação do projecto. “É uma colecção com textos traduzidos, que quase ninguém conhece, e muito belos. Culturalmente, são inestimáveis, sobretudo para quem vive em Lisboa e não sabe nada dos nossos santos”, diz Cristina Pimentel.

No Porto, a obra vai ser apresentada nesta sexta-feira pelo bispo D. Manuel Clemente; e na segunda-feira, em Lisboa, a apresentação está a cargo do padre e poeta José Tolentino de Mendonça.

São Vicente, Santa Eulália e Santa Engrácia e São Félix são os primeiros volumes a ser conhecidos. São Sebastião, Santa Justa e São Cucufate, São Julião e São Lourenço serão publicados em 2013. E Santo Estêvão, Santo Adrião e São Manços, São Mamede e São Jorge, São Veríssimo, Máximo e Júlia e São Cristóvão, São Nicolau e Santiago periodicamente até 2015. Depois deste projecto, quem sabe, a colecção possa continuar com os Santos do Norte de Portugal. Pelo menos, este é o desejo de Paulo Farmhouse Alberto.