Biologia cognitiva

Koshik, o elefante que imita a fala humana (com vídeo)

A cientista Angela Stoeger a gravar as vocalizações do elefante
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A cientista Angela Stoeger a gravar as vocalizações do elefante Current Biology, Stoeger et al.

Quem não se lembra de ir ao jardim zoológico de Lisboa e dar uma moeda ao elefante para ele tocar o sino? O zoo de Everland, num parque temático na cidade de Yongin, na Coreia do Sul, pode agora passar a ter uma atracção parecida, mas sem o badalar do som da sineta. Koshik, o elefante asiático que vive nesse jardim zoológico, não toca o sino, mas “fala” coreano, por isso podia perfeitamente passar a receber uma moeda para dizer, em troca, uma das cinco palavras que sabe imitar.

Koshik nasceu em cativeiro em 1990 e, três anos depois, chegou ao jardim zoológico sul-coreano, onde teve a companhia de duas elefantas até fazer cinco anos de idade. Mas, de 1995 a 2002, Koshik passou a ser o único elefante do jardim e as vozes humanas passaram a fazer parte, mais intensamente, do seu dia-a-dia. Tratadores, veterinários, guias e turistas, todos contribuíram para que o elefante ouvisse e aprendesse a dizer palavras coreanas.

A primeira vez que os tratadores perceberam que Koshik “falava” tinha 14 anos e a descoberta dessa habilidade coincidiu com a altura em que atingiu a maturidade sexual. Estes sons podiam ser apenas mais uns dos que os machos produzem na altura da reprodução, não se desse o caso dos tratadores perceberem o que dizia e de Koshik “falar” durante todo o ano.

O grupo de cientistas que analisou agora os sons produzidos pelo elefante, e que publicou os resultados na revista Current Biology, pensa que a capacidade de imitar vozes se deve ao facto de, durante um período importante do seu crescimento e desenvolvimento, as vozes humanas terem sido o seu único contacto social. “Pensamos que o Koshik começou a adaptar as suas vocalizações aos seus companheiros humanos para fortalecer a ligação social, algo que também é visto noutras espécies”, diz a líder da equipa Angela Stoeger, do Departamento de Biologia Cognitiva da Universidade de Viena, citada num comunicado do grupo editorial da revista.


As cinco palavras
Para comprovar que o elefante imitava a língua coreana, tal como afirmavam que lidava com ele, foram feitas 47 gravações dos seus sons e os cientistas pediram a 16 pessoas de origem coreana para as traduzirem. À medida que iam ouvindo as gravações, iam escrevendo, em coreano, o que ouviam. Nenhuma das pessoas sabia que os sons pertenciam a um elefante, mas maioria identificou as palavras, confirmando assim o que os tratadores afirmam: há um elefante que fala mesmo coreano.

“Olá”, “senta-te”, “deita-te” “não” e “bom” são as únicas palavras do seu ainda reduzido vocabulário, mas a descoberta deste elefante palrador espantou os cientistas, porque não são conhecidos muitos casos de imitações de vozes humanas em mamíferos. Até agora, apenas se conhece o caso de uma foca que dizia algumas frases em inglês e de um golfinho chamado Lagosi que era capaz de imitar o seu próprio nome. Quanto a elefantes faladores, há apenas a história, mas nunca confirmada, do elefante de um jardim zoológico no Cazaquistão, que, segundo consta, dizia frases completas em russo e em cazaque.

Para os investigadores que estudaram o elefante da Coreia do Sul, esta descoberta pode fornecer informações sobre a biologia e a evolução da aprendizagem vocal complexa, uma característica essencial na fala humana. “A fala humana tem basicamente dois aspectos importantes, a frequência e o timbre”, explica Angela Stoeger. “Curiosamente, Koshik é capaz de combinar os dois padrões de frequência e timbre. Imita com precisão a voz dos seus treinadores.”

Conseguir imitar vozes humanas não deve ser fácil para o elefante, que tem uma tromba em vez de um lábio e um trato vocal consideravelmente maior do que o dos seres humanos. Talvez por isso, para imitar as vozes humanas ele introduza a tromba na boca de forma a modular o trato vocal e adaptar os sons que produz aos sons dos humanos. “Embora a sua laringe possa produzir sons muito graves, ele não monstra apenas semelhanças com as vozes humanas, mas também claras diferenças em relação aos chamamentos habituais dos elefantes”, diz Stoeger.

Dar uma moeda ao Koshik para ele dizer palavras é, assim, uma possibilidade no jardim zoológico de Everland. O único problema é que a “conversa” com o elefante pode ser um pouco estranha e sem sentido: para além de não saber muitas palavras, tanto quanto os cientistas pensam, Koshik não entende o que diz.


Pode ver um vídeo do tratador a falar com o Koshik e das vocalizações do elefante aqui.
 

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