NOC, a baleia branca que tinha uma voz quase humana

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Uma baleia branca num aquário nos EUA Greg Hume, Wikimedia Commons

Tudo começou em 1984, quando, ao pé do tanque das baleias e dos golfinhos da Fundação Nacional dos Mamíferos Marinhos (NMMF, entidade norte-americana dedicada à protecção e ao estudo destes animais), vários especialistas tiveram a impressão de ouvir conversas entre duas pessoas, mas sem chegar a ver ninguém por perto. Não percebiam as palavras, porque o som parecia vir de longe, mas ficaram intrigados pelo inédito fenómeno.

Algum tempo depois, um mergulhador emergiu do mesmo tanque e deixou os seus colegas ainda atónitos ao perguntar: “Quem é que me disse para sair da água?” É que nenhum deles lhe tinha dado qualquer instrução nesse sentido. Rapidamente, conseguiram então identificar o “falador” inveterado. Era uma baleia branca, uma beluga chamada NOC, que vivia lá e estava habituada a contactos frequentes com pessoas.

Sam Ridgway e a sua equipa da NMMF, que já tinham ouvido falar de episódios semelhantes, decidiram então estudar de mais perto as características acústicas das produções sonoras de NOC. “As vocalizações eram semelhantes à voz humana e diferentes dos sons habitualmente emitidos pelas baleias”, diz Ridway, citado por um comunicado da revista Current Biology, onde o surpreendente achado foi publicado esta terça-feira.

“Não só o ritmo era semelhante ao da fala humana, como as frequências sonoras situavam-se várias oitavas abaixo das típicas vocalizações das baleias e muito mais perto do espectro acústico da voz humana.”

Para os investigadores, o facto de uma baleia conseguir imitar uma voz humana é tanto mais surpreendente quanto o aparelho vocal destes animais é muito diferente do nosso – e que não lhe terá sido nada fácil imitar-nos. “As nossas observações sugerem que a baleia teve de alterar a sua mecânica vocal para emitir sons semelhantes à fala”, explica ainda Ridgway. “Ora, esforços tão claros e desta magnitude sugerem uma motivação para o contacto [com os humanos]."

NOC morreu há cinco anos e a sua voz calou-se para sempre. Mas se quiser, pode ouvi-la aqui.