Entrevista

A cientista que tem um BabyLab, um laboratório cheio de pais e bebés

A cientista procura perceber como os bebés apreendem os conceitos de número e de espaço e até as interacções sociais.
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A cientista procura perceber como os bebés apreendem os conceitos de número e de espaço e até as interacções sociais. Daniel Rocha

Vimos ao mundo já equipados com uma série de sistemas cognitivos de base. Elizabeth Spelke estuda há quatro décadas esses tijolos de construção da mente humana.

Voz suave e expressão doce, cabelos lisos partidos ao meio e roupa descontraída que fazem lembrar a revolução hippie, Elizabeth Spelke, hoje com 63 anos, é mundialmente conhecida pelos seus trabalhos em psicologia cognitiva. Começou na década de 1970 a tentar perceber como é que as crianças pequenas dão sentido ao mundo que as rodeia - e a procurar identificar os nossos "sistemas cognitivos nucleares" inatos. No seu BabyLab da Universidade Harvard, mais parecido "com a sala de uma casa" do que com um laboratório convencional, a sua equipa acolhe dezenas de pais e filhos para tentar avaliar a compreensão que, aos poucos meses de idade, os bebés humanos têm dos conceitos de número ou de espaço geométrico, do comportamento dos objectos e até das interacções sociais. Após a conferência que deu na semana passada no simpósio internacional de neurociências que decorreu na Fundação Champalimaud, em Lisboa, Elizabeth Spelke conversou com o PÚBLICO.

O que faz no seu BabyLab?
Interessa-me a mente humana e o que nos torna capazes de desenvolver conhecimentos tão ricos e sistemáticos acerca do mundo. A minha maneira de abordar estas questões é voltando aos estádios mais precoces do desenvolvimento. Estudo crianças e pergunto-me como é que elas conseguem dar sentido ao mundo, o que compreendem, como os seus conhecimentos crescem e mudam ao longo da infância antes de começarem a escola. Trabalho sobretudo com crianças a partir dos três, quatro meses de idade.

Como se faz esse trabalho?
Temos equipamentos para observar os bebés, registar as suas acções e apresentar-lhes coisas que controlamos com grande precisão. Mas ao mesmo tempo, os pais e as crianças que nos visitam poderiam pensar que estão na sala da uma casa. Volta e meia, retiramos os elementos de distracção para mostrar uma coisa a uma criança e ver a sua reacção. Mas mesmo assim, o BabyLab não parece um laboratório. Não há batas brancas e não treinamos os bebés. Observamos o seu comportamento, as suas capacidades naturais.

Quantas crianças passam pelo laboratório?
Pode haver entre 10 e 15 crianças no laboratório ao mesmo tempo, em diversas experiências. Numa semana carregada, podemos ter 30 ou mais crianças, que ficam lá 30 a 45 minutos de cada vez e participam em vários estudos.

Que capacidades estuda?
As minhas primeiras pesquisas foram sobre a compreensão dos objectos pelas crianças - a capacidade de ver os objectos, de os seguir ao longo do tempo, de pensar neles quando não estão visíveis e de prever o seu comportamento futuro. Prever, por exemplo, que quando um objecto colide com outro, o movimento de ambos vai mudar. Também fizemos estudos de cognição espacial, ou seja de navegação num dado espaço.

Como é que medem o que as crianças percebem?
No caso da navegação espacial, pedimos aos pais para trazerem um brinquedo e pomo-lo numa caixa. Não é preciso ensinar um bebé de 18 meses que tem de ir buscar o seu brinquedo - e nós aproveitamos esse comportamento espontâneo para tentar perceber como é que o bebé apreendeo sítio onde está. Também introduzimos perturbações espaciais, por exemplo fazendo rodopiar as crianças para as desorientar ou alterando aspectos da sala para avaliar as alterações de comportamento.

Qual é o denominador comum do seu trabalho?
Quase toda a minha investigação tem consistido em tentar isolar as capacidades cognitivas que se desenvolvem cedo e das quais precisamos para, mais tarde, raciocinar correctamente na matemática e nas ciências. A minha visão de conjunto é que existe uma série de sistemas cognitivos "nucleares", com que nascemos já equipados, e que foram apurados ao longo da evolução para desempenhar tarefas, tais como saber onde estamos ou identificar e categorizar os objectos.
Mas nós, humanos, somos a única espécie que consegue combinar essas capacidades de base de formas inéditas para criar novos sistemas de conhecimento e resolver novos problemas com novos conceitos. A minha hipótese é que essa produtividade provém do que é talvez a única capacidade exclusivamente humana: a de utilizar símbolos externos - e sobretudo a linguagem - para representar a informação. A linguagem não serve só para comunicarmos informação aos outros, serve também para formularmos novos conceitos na nossa própria mente, reunindo informação vinda de sistemas cognitivos à partida distintos. Assim, quando os sistemas cognitivos nucleares que partilhamos com outros animais se combinam, gera-se um conjunto de capacidades que são só nossas. Somos os únicos a fazer matemática, ciência, a desenvolver sistemas inteiros de novos conceitos.

O que está a estudar agora?
O que me interessa neste momento é a cognição social: como é que os bebés reagem a pessoas que interagem socialmente umas com outras. E os nossos resultados sugerem que, muito cedo no desenvolvimento, por volta dos quatro meses de vida, já existe uma sensibilidade dos bebés à conformidade - ou seja, ao facto de as pessoas interagirem fazendo gestos semelhantes. Estamos a começar a ver se os bebés usam essa informação para compreender quem gosta de quem, quem está ligado a quem.