Eleições no domingo

Duelo na Venezuela: Capriles vs. Chávez

Venezuelanos vão às urnas no próximo domingo
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Venezuelanos vão às urnas no próximo domingo Foto: Tomas Bravo/Reuters

São duas faces de uma Venezuela profundamente desigual. Distinguem-se na origem e no que querem fazer do país. Henrique Capriles, o candidato da oposição, está a reduzir a distância nas intenções de voto em relação a Hugo Chávez. Perfis dos dois candidatos.

Capriles, o rosto da nova oposição

Os seus apoiantes chamam-lhe "El Flaco" ou "El Flaquito", que quer dizer o magro ou o magrinho. Hugo Chávez chama-lhe "o majunche", traduzível por "o perdedor". Ele apresenta-se como David em luta contra Golias. A imprensa anda com ele ao colo. Henrique Capriles Radonski é jovem, enérgico, nunca perdeu uma eleição. Vem da "outra" Venezuela, a que foi à universidade e faz férias no estrangeiro. A sua história de família também pode inspirar.

Foto: Leo Ramirez/AFP

Os bisavôs foram assassinados no campo de concentração de Treblinka, na Polónia. Durante 20 meses, a avó, Lili Bochenek, refugiou-se da fúria dos nazis num sótão do Gueto de Varsóvia. Os avós chegaram à Venezuela em 1947, de bolsos vazios. Vieram de barco, como tantos outros judeus, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, e, depois deles, tantos católicos oriundos de Portugal, Espanha e Itália. O avô abriu uma sala de cinema, no Leste do país. O negócio prosperou. Acabou por se tornar uma das principais cadeias de cinema do país.

Nem só por eles Capriles cresceu numa das mais abastadas famílias da Venezuela. O lado paterno sobressai no imobiliário e nos media. Entre os títulos da Cadena Capriles estão o Ultimas Noticias, um diário popular de circulacão nacional, e El Mundo, Economía y Negocios, uma plataforma informativa, que produz conteúdos em papel, Internet, rádio e televisão.

Teve uma educação católica, apesar da origem judia. Estudou Direito na Universidade Católica Andrés Bello. E foi lá que se especializou em direito económico.

A política cedo se tornou parte da sua vida. Aos 25 anos, foi eleito deputado pelo estado de Zúlia nas listas do COPEI. Embora muito jovem, escolheram-no para presidente da Câmara de Deputados e vice-presidente de todo o Parlamento. Saiu logo em 1999, por força da Constituinte, que extinguiu o Congresso e criou a Assembleia Nacional. Debateu-se então pelo município de Baruta, um dos redutos da classe média alta e alta de Caracas. Em 2000, foi eleito com 60% dos votos e em 2004 reeleito com quase 80%.

Muito marchou contra Hugo Chávez nas ruas da capital. No pico de crise de 2002 - o ano do golpe, do contra-golpe e da paralisação que se arrastou dois meses - esteve preso 119 dias, acusado de nada fazer quando radicais anti-Chávez invadiram a embaixada de Cuba, no seu município. Fortaleceu-se. Em 2008, na corrida ao estado de Miranda, derrotou Diosdado Cabello, actual presidente da Assembleia Nacional.

Houve quem visse naquele resultado um sinal de que seria capaz de derrotar o próprio Chávez. E quem anotasse outra prova de que nunca teve de se esforçar, já que, embora Cabello seja um homem forte do "oficialismo", padece de má imagem. O certo é que, nas inéditas primárias de Fevereiro, emergiu como candidato da Mesa da Unidade Democrática.
"Não reivindico o passado"

Retirou-se do governo regional em Junho para se dedicar à campanha. "Não reivindico o passado", afiançou, numa entrevista à revista Veja. "Chávez é a consequência de um sistema que implodiu, e se apresentou como um salvador. O problema é que não salvou o país." Mantém distância dos partidos tradicionais. Co-fundou em 2000 o Primeiro Justiça, que se define como um partido centrista, de "humanismo integral". Prefere a companhia de outros líderes da nova geração, como Leopoldo López.

Apesar do berço, tenta livrar-se do que lhe poderá conferir uma imagem elitista. Está quase sempre de sapatilhas, calças de ganga, boné de beisebol. Gosta que o vejam a fazer coisas. Aprecia o contacto directo com os eleitores. Enquanto alcaide, andava sempre com um gravador para registar o que ia encontrando. Mesmo governador, metia-se nas favelas que sobem as serras para ver o andamento dos seus projectos.

O programa de governo parte do que une os partidos da coligação, que vêm da direita, do centro e da esquerda: "Garantir a autonomia das instituições do Estado, descentralizar o poder, impulsionar a segurança pública, defender a propriedade privada e as liberdades económicas, lutar contra a pobreza através da criação de emprego e da redistribuição dos ganhos do petróleo, promover a educação, desenvolver uma política exterior baseada na solidariedade." É a esperança renovada de toda uma oposição que se estraçalhara em dez anos de luta contra Chávez.

Mas quem é, afinal, este advogado, de 40 anos? Um homem de direita com uma agenda neoliberal escondida, como diz o seu adversário, ou um homem de centro que encontra no ex-Presidente do Brasil Lula da Silva uma inspiração para governar, como tem afirmado tantas vezes?

Chávez, o vingador

Foto: Juan Barreto/AFP

"Um governo de ricos, isso sim é mau, mau, mau, terrível; porque, ao governar, os ricos esquecem-se dos pobres, do povo." Sentados em frente a Hugo Chávez, dentro de fardas muito limpas, 30 miúdos da pré e da primária, alegres por começarem o ano lectivo numa escola novinha em folha. O discurso proferido na Escola Bolivariana Claudio Feliciano, em Caracas, tinha uma audiência bem mais vasta. Era transmitido em directo por todos os canais de rádio e televisão que emitem em sinal aberto. "A nós dói-nos o povo."

Não é o mesmo homem que em 1998 percorreu a Venezuela numa carrinha Toyota Samurai, a fumar como um desalmado, a comer em tascas de beira de estrada, a falar com quem o quisesse ouvir, invocando Simón Bolívar e prometendo acabar com a corrupção, democratizar o petróleo, exterminar a pobreza. As aparições públicas são decididas no dia, conforme o seu estado de saúde. Não se alonga, como antes. Ainda há pouco passou por Cátia, um dos seus bastiões, em cima do camião adaptado para a campanha, e nem subiu ao palco.

Conhece bem o meio televisivo. Está habituado a usá-lo. Segundo a organização não governamental Espacio Público, desde Fevereiro de 1999 a Junho de 2012, entrou em antena obrigatória 2334 vezes, num total de 97.561 horas. Quer isso dizer que o Presidente tem entrado em casa de cada um, em média, dia sim, dia não, 42 minutos.

Apareceu pela primeira vez no pequeno ecrã a 4 de Fevereiro de 1992, como líder do golpe de Estado contra Carlos Andrés Pérez. Aquele primeiro discurso, improvisado, transmitido sem edição, despertou esperança num país agastado pela crise económica e pelos atropelos do "pacto fixo", que reduzira a governação à alternância entre dois partidos: o Comité de Organização Política Eleitoral Independente (COPEI), democrata-cristão, e a Acção Democrática (AD), social-democrata, membro da Internacional Socialista.

Ao sair da cadeia, em Março de 1994, o tenente-coronel ainda planeava alcançar o poder pela força. Reorientou-o Luís Miquilena, há muito retirado da política. Convenceu então os outros membros do Movimento Bolivariano Revolucionário 200, que fundara em 1982, a tentar a via eleitoral. "Percebemos que boa parte do nosso povo não queria movimentos violentos", recorda, no livro Un Hombre, Un Pueblo, de Marta Harnecker.

Contava apenas com o apoio do partido que fundara, o Movimento V República, e de outros pequenos partidos de esquerda. Em Janeiro de 1998, as sondagens atribuíam-lhe 9% das intenções de voto; em Outubro, 48%. Em Dezembro, venceu com 56%. Tinha 44 anos. Nunca fora conselheiro, alcaide, deputado, ministro.

"Não sou socialista"

Hugo Chávez Frias nascera em Sabaneta, no estado de Barinas, na Venezuela profunda. Filho de um professor primário, fora criado pela avó, Rosa Inês, numa casa de palma. Ela fazia doces de papaia e ele vendia-os pelas ruas. Morara com ela até ir para a Academia Militar, aos 16 anos. Adán, o irmão mais velho, é que o levara para o Partido da Revolução Venezuelana, onde conhecera Douglas Bravo, o rebelde venezuelano que o inspirara.

O mau desempenho dos antecessores era consensual, como recordam Javier Corrales e Michael Penfold no livro Un dragón en el trópico. A pobreza afectava 57% da população. O PIB retomara os valores dos anos 50. O barril de petróleo estava quase nos oito dólares, o preço mais baixo em décadas. O clima favorecia o candidato que mais prometia castigar os partidos tradicionais. Esse candidato era Hugo Chávez.

"Não sou socialista", disse, ainda candidato, numa entrevista ao jornalista Jaime Bayle. Inclinava-se para a terceira via, de Tony Blair. Já em 2005 proclamou-se mentor do "socialismo do século XXI". E foi nessa qualidade que foi reeleito, com 63% dos votos, em Dezembro de 2006. Deveria despedir-se em janeiro da presidência. Mas convenceu-se de que a sua recandidatura seria necessária ao "processo revolucionário". A Constituição emendou-se, através de referendo. E ei-lo, de novo candidato, agora pelo Partido Socialista Unido da Venezuela, que fundou em 2007.

Enumera cinco objectivos estratégicos - consolidar a independência nacional; construir uma "pátria socialista, alternativa ao sistema capitalista"; converter a Venezuela numa potência social, económica e política; desenvolver uma geopolítica internacional que defenda uma visão pluripolar do mundo; preservar a vida no planeta e salvar a espécie humana.

Mas quem é, afinal, este militar, de 58 anos? "É um verdadeiro revolucionário ou um neopopulista pragmático?", perguntam Alberto Barrera Tyszka e Cristina Marcano, no livro Chávez sin uniforme.