Comissão Eleitoral confirma vitória do candidato islamista

O Presidente do Egipto é Mohamed Morsi

Morsi 51,73% dos votos
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Morsi 51,73% dos votos AFP

O candidato apoiado pela Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi, foi declarado vencedor das eleições presidenciais do Egipto pela Comissão Eleitoral.

Ao fim de quase uma hora de considerações prévias, o presidente da Comissão Eleitoral, Farouq Sultan, anunciou a vitória de Mohamed Morsi, que obteve 51,73% dos votos, contra 48,27% do seu adversário, Ahmed Shafiq, um ex-general e antigo primeiro-ministro do regime de Hosni Mubarak.

A multidão concentrada em protesto na Praça Tahrir do Cairo, desde sexta-feira, rebentou em celebração da vitória do candidato islamista. "Deus é grande", explodiram os apoiantes de Morsi concentrados naquela praça simbólica da capital egípcia, epicentro da revolta que derrubou Mubarak em 2011, descreve a AFP.

As ruas da capital egípcia encheram-se de polícia com ordens de “responder firmemente” a qualquer tentativa de violação da lei após a divulgação dos resultados eleitorais.

O conselho militar que governa o país desde o afastamento de Mubarak diminuiu muito os poders da presidência na semana passada.

Justificando a demora na ratificação dos resultados - que deviam ter sido anunciados na quinta-feira -, Farouq Sultan explicou que a Comissão Eleitoral analisou um total de 452 reclamações por alegadas irregularidades apresentadas pelas duas candidaturas. O dirigente disse que mais de 37 mil votos foram invalidados.

Mohamed Morsi fez campanha oferecendo aos egípcios um "projecto de renascimento" elaborado a partir do islão para devolver o Egipto à sua grandeza. Foi o candidato "suplente" da Irmandade Muçulmana (a Comissão Eleitoral excluiu a primeira escolha da confraria, o popular empresário Khairat El-Shater). Muitos analistas (e as poucas sondagens existentes) anteciparam que talvez não passasse sequer à segunda volta – havia candidatos muito fortes, como Aboul Fotouh, ex-Irmandade (ficou em quarto), que atraiu o apoio de muitos jovens liberais e dos salafistas, e Hamdeen Sahaby, nacionalista de esquerda que se apresentou como "Presidente dos pobres" e prometia "levar a revolução ao poder (ficou em terceiro). Mas a Irmandade entrou, como previsto, em modo “mobilização total” nos dias de votação.

Visto como um homem do aparelho da Irmandade, um burocrata sem chama, nalguns comícios justificou a candidatura com o medo do Dia do Juízo Final. "Preocupa-me que Deus me pergunte: 'O que é que fizeste quando viste que a nação precisava de sacrifício?'"

O partido insistiu em apresentá-lo como "único candidato islamista" da corrida e não houve comícios sem referências ao Corão ou pausas para as orações. Isso não transforma Morsi nem o Justiça e Liberdade em defensores de um islão radical. O problema é que, como outros candidatos islamistas, na primeira volta, Morsi se viu obrigado a cortejar o eleitorado dos extremistas do Partido Nour, que surpreendeu com os 29% nas legislativas. Em algumas acções de campanha contou até com presença do líder religioso Safwat el-Hagazi, que subiu ao palco para apelar à criação de um super-Estado muçulmano com Jerusalém como capital.

Nascido numa aldeia do Delta do Nilo, Morsi, de 60 anos, é filho de agricultores, mas estudou Engenharia na Universidade do Cairo e mudou-se a seguir para a Califórnia, onde completou os estudos.Na segunda volta, e face a Ahmed Shafiq, o general que foi o último primeiro-ministro de Hosni Mubarak, Morsi fez declarações apaziguadoras: "Eu adoro as Forças Armadas".