Entrevista com Jens Weidmann

"Não nos podemos deixar chantagear por um país por medo do contágio"

Weidmann: será muito difícil para um país insolvente que perde o apoio financeiro permanecer na zona euro
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Weidmann: será muito difícil para um país insolvente que perde o apoio financeiro permanecer na zona euro Foto: Eric Piermont/AFP

Não há resgate sem austeridade, não há eurobonds sem controlo orçamental e o crescimento tem de vir das reformas estruturais. Para o presidente do Bundesbank, os países do Sul não devem desviar-se da rota. Ou arriscam-se a uma saída do euro.

À frente do banco central mais ortodoxo da zona euro, Jens Weidmann aceitou ser entrevistado por quatro países periféricos - Portugal (PÚBLICO), Itália (Corriere della Sera), Espanha (El País) e Grécia (Kathimerini). O objectivo? Desmistificar a imagem do Bundesbank. Para o ex-conselheiro económico de Merkel e membro do Banco Central Europeu (BCE), é injusto dizer que a Alemanha está sempre a dizer não a tudo. Entre críticas aos eurobonds, à França e aos EUA, aproveita para acenar à Grécia com a saída do euro e louvar Portugal pelo "bom caminho".

PÚBLICO: Espanha acaba de pedir um resgate para a banca, de 100 mil milhões de euros. Este valor é suficiente, com o país em recessão e as fortes ligações entre os bancos e o Estado?

Jens Weidmann: Não especulo sobre números. No que toca à avaliação das necessidades de financiamento, tenho de confiar no FMI e nos auditores externos. Pelo que sei, o montante discutido parece conter a necessária margem de segurança. A decisão do Governo espanhol é importante porque reduz a incerteza sobre a solvência dos bancos espanhóis, contribuindo para a estabilização dos mercados financeiros. Também saúdo o facto de o Governo já não estar a contar com um apoio financeiro sem imposição de condições. A condicionalidade deve ser um elemento central de qualquer ajuda financeira.


Mas o Governo espanhol tem dito precisamente o contrário: que só haverá condicionalidade para os bancos...

Penso que a condicionalidade deve ser mais ampla devido à inter-relação de diferentes áreas da política económica. A sensação de que isto é um resgate sem condicionalidade fora do sistema financeiro já está a enfraquecer os compromissos dos programas de resgate já existentes.


Há o risco de outros países, como Irlanda e Portugal, pedirem o mesmo tipo de condições ou ajustamentos por causa de Espanha?

Esse é precisamente o grande problema. Na Irlanda e em Portugal já se discute a possibilidade de relaxar a condicionalidade e, na Grécia, o debate ganhou nova força. Mas arrastar a resposta aos problemas estruturais só irá perpetuar esta crise, e a reacção do mercado reflecte essa preocupação.


Por que não mudar as regras e ajustar de forma mais suave?

Mais uma vez, a ajuda financeira apenas pode comprar tempo, mas não resolve as causas na raiz da crise. É como um analgésico. Se não se assegura a cura da doença, ficar-se-á pior depois do efeito calmante passar. Além disso, duvido que o apoio público às reformas aumente se estas forem estendidas durante mais tempo, isto sem falar do apoio público nos países que estão a garantir os mecanismos de resgate.


Se o novo Governo grego quiser renegociar o programa da troika, qual será a resposta?

Quem quer que seja eleito na Grécia, é uma decisão democrática que teremos de aceitar. Mas o novo Governo grego está sujeito aos acordos existentes. Se optar unilateralmente por rejeitar o programa, isto significaria que a base para mais ajuda financeira deixaria de existir. A Grécia teria tomado a sua decisão, mas teria também de arcar com as consequências. Todos seremos afectados, mas, do meu ponto de vista, a Grécia irá sofrer mais do que qualquer outro país.


Terá de sair do euro?

Só a Grécia pode decidir deixar o euro, apesar de isto não estar previsto no tratado da União Europeia (UE). Mas será muito difícil para um país insolvente que perde o apoio financeiro permanecer na zona euro.


Se isso acontecer, a UE tem um "muro de protecção" suficientemente forte para evitar o contágio?

Não especulo sobre uma saída da Grécia. Os mecanismos que construímos e fortalecemos são para prevenir efeitos de contágio. E não irei fazer parte do debate interminável sobre a sua dimensão. De qualquer modo, não nos podemos deixar chantagear por um país por medo do contágio.


Portugal parece ter a imagem oposta, a do "bom aluno" dos programas de ajuda, mas, em última instância, depende do que acontece na Grécia e em Espanha. Como vê a situação?

A mensagem-chave que vem de Portugal e da Irlanda é que os programas de ajustamento funcionam. As reformas implementadas contribuíram para reduzir os custos unitários do trabalho e travaram a queda da competitividade. Já se vêem sinais positivos no défice externo. Segundo as nossas previsões, o crescimento vai voltar nestes países. Nenhuma projecção séria aponta para uma espiral recessiva que não se sabe onde termina.


Mas já se fala de um segundo resgate a Portugal, se não voltar aos mercados em 2013...

Estamos a lidar com uma crise de confiança e a confiança perdida não pode ser recuperada da noite para o dia. Mas o importante é que Portugal está no caminho certo.


Leia a entrevista na íntegra no PÚBLICO desta sexta-feira ou na edição online exclusiva para assinantes