Espanha Espanha muda método de financiamento apesar do frágil desmentido

BCE atrapalha-se ao negar que tenha recusado plano de recapitalização do Bankia

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Foto: Alex Grimm/ Reuters (arquivo)

O Banco Central Europeu (BCE) veio hoje dizer que não expressou posição sobre os planos espanhóis para a recapitalização do Bankia, mas num aparente acto falhado fez também saber num primeiro comunicado que os fundos de que a banca necessita não podem ser fornecidos pelos bancos centrais.

O BCE emitiu hoje de manhã um comunicado onde, num aparente desmentido à notícia do Financial Times de que este recusara o plano de recapitalização das autoridades espanholas para o Bankia, diz: “Contrariamente aos relatos dos media hoje publicados, o Banco Central Europeu (BCE) não foi consultado e não expressou uma posição sobre planos das autoridades espanholas para recapitalizar um dos principais bancos espanhóis.”

Mas acrescentava, logo de seguida, um curto parágrafo onde dizia também que “deve ser notado, no entanto, que os fundos necessários para assegurar o cumprimento pelos bancos dos requisitos de capital não podem ser fornecidos pelo Eurosistema” – o sistema europeu constituído pelo BCE e pelos bancos centrais que integram o euro, o que na prática significa dizer que o BCE não financiará a liquidez para este fim.

Cerca de 20 minutos depois, foi enviado um segundo comunicado, com a referência de “actualização”, onde este segundo parágrafo foi suprimido, acompanhado por uma mensagem onde se diz: “Devido a um erro técnico, recebeu uma versão errada da declaração acima mencionada. A versão final correcta está junto. Pedimos desculpa por qualquer inconveniente que isso possa ter causado.”

Entretanto, foi também noticiado pela Lusa que o Governo espanhol não fará a injecção de capital no Bankia através de títulos de dívida, mas sim com dinheiro obtido em leilões tradicionais do Tesouro. A agência de notícias portuguesa relata que confirmou esta informação com fontes do Ministério da Economia de Espanha.

O próprio ministro da Economia espanhol, Luis de Guindos, negou entretanto, perante os deputados do seu país, que o BCE tenha recusado o plano de recapitalização do Bankia com títulos de dívida pública. “O Governo espanhol não apresentou qualquer plano ao BCE e o BCE não recusou nada”, lançou perante os deputados, citado pela agência francesa AFP.

Na sexta-feira, o Conselho de Administração do Bankia anunciou que o banco necessitava de um resgate de 19 mil milhões de euros – a somar aos 4465 milhões já injectados pelo Governo, e foi depois noticiado que a intenção era fazê-lo entregando ao banco títulos de dívida espanhola, que este depois poderia utilizar como colateral para obter liquidez no BCE.

Ontem à noite, o diário britânico Financial Times noticiou no seu site que este plano foi “rotundamente rejeitado” pelo BCE, citando dois responsáveis não identificados e sem mencionar se ele foi formalmente submetido pelas autoridades espanholas para apreciação.

Segundo este relato, o BCE terá dito às autoridades espanholas que “era necessária uma injecção de capital adequada” no Bankia, e que os seus planos corriam o risco de violar uma proibição europeia ao “financiamento monetário”, isto é, a que o banco central financie os governos. Ora, o parágrafo que o BCE enviou por lapso no seu primeiro comunicado e que depois foi suprimido confirmava precisamente esta ideia – a de que o banco não aceita ceder liquidez ao Bankia contra o depósito de títulos de dívida soberana.

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