Em Washington

Portugal é um exemplo do que deve ser evitado, diz ministro das Finanças

Vítor Gaspar durante a sua apresentação na sede do FMI
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Vítor Gaspar durante a sua apresentação na sede do FMI Foto: Yuri Gripas/Reuters

O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, disse na sede do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, que Portugal oferece “uma lição de moral” a todos aqueles que defendem o aumento da despesa pública para estimular a economia. Foram as “políticas fiscais expansionistas” do anterior governo socialista de José Sócrates que conduziram o país a um défice orçamental “insustentável” que desencadeou uma crise e o pedido de ajuda financeira a entidades internacionais, disse Gaspar num debate no âmbito dos encontros bianuais do FMI e Banco Mundial.

Num momento de incerteza e discussão sobre que modelo de política económica deverão os governos nacionais adoptar para lidar com a recessão e influenciar o crescimento da economia – austeridade ou aumento da despesa pública –, o ministro português definiu claramente o seu campo: Portugal é a prova de que “as políticas expansionistas não são uma condição favorável ao crescimento” e o programa de austeridade acordado com o FMI e a Comissão Europeia contém “todos os ingredientes necessários para lidar com os problemas fundamentais da economia portuguesa”.

O cepticismo dos observadores em relação ao sucesso das medidas de austeridade em Portugal está a crescer. Mesmo especialistas que não duvidam da seriedade das reformas estruturais em Portugal dizem-se preocupados em relação às perspectivas de crescimento da economia do país e antecipam que será necessário um segundo resgate financeiro. O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho assinou um artigo no Financial Times intitulado “Portugal vai mostrar que os cépticos estão errados” (no site daquele jornal britânico, o título do artigo foi entretanto alterado para o mais cauteloso “Portugal optimista mantém pragmatismo das reformas”).

“Ninguém pode oferecer garantias absolutas”, disse Vítor Gaspar no FMI, quando a moderadora do debate, Gillian Tett – directora executiva do Financial Times nos Estados Unidos –, mencionou o artigo de Passos Coelho. “Num momento de crise, todas as decisões políticas equivalem a gestão de risco.”

O ministro português afirmou que as medidas de austeridade não afectam os grupos mais vulneráveis da população. “No meu país, as pessoas estão completamente dispostas a sacrificar-se e a trabalhar mais para que o programa de ajustamento seja um sucesso desde que esse esforço seja repartido de forma justa”, disse. “Temos tido o cuidado de proteger os menos favorecidos e os mais vulneráveis ao definir os cortes na Segurança Social e no sistema de saúde quando aumentámos os impostos. Esse é um elemento-chave do sucesso do programa.”

Vítor Gaspar espera que a economia portuguesa cresça graças às exportações, “o sector mais dinâmico neste momento”. O ministro ofereceu a sua versão de como é que o Estado pode estimular o crescimento quando o país atingir a estabilidade fiscal: através do “financiamento regular” de pequenas e médias empresas, “em particular as que estão activas no sector das exportações”.

Vítor Gaspar já participara num debate nos anteriores encontros do FMI e Banco Mundial, no Outono de 2011. Ele também esteve em Washington há um mês para explicar “o caso português” a analistas económicos.