Conjuntura

Irlanda: um referendo a caminho com a economia ainda sem rumo certo

Este ano, o rendimento por habitante em Dublin estará ao mesmo nível de 2002
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Este ano, o rendimento por habitante em Dublin estará ao mesmo nível de 2002 Peter Muhly/AFP

Portugal quer parecer-se com a Irlanda e esta quer tudo menos parecer-se com a Grécia e com Portugal. O antigo "tigre celta", que vai submeter o novo tratado europeu a referendo, é mesmo um caso de sucesso?

Em quatro meses, a zona euro ouviu duas vezes a palavra referendo. Primeiro com a Grécia, em Novembro, quando o ex-primeiro-ministro, George Papandreou, quis saber o que a população pensava em relação ao novo pacote de ajuda ao país. O referendo, que seria um teste à permanência no euro, acabou por cair, mas não sem provocar novo frenesim nos mercados e complicar a resolução da crise da dívida europeia. Agora, é a vez da Irlanda. O Governo anunciou que quer referendar o novo tratado orçamental europeu.

Apesar das semelhanças, a Grécia e a Irlanda têm sido apresentadas como dois extremos opostos dos países que pediram ajuda externa: o "aluno mal-comportado" que arrisca sair do euro e o "aluno exemplar" que já conseguiu voltar ao crescimento. Mas o caso irlandês é, de facto, um sucesso garantido?

Pouco mais de um ano depois de ter recebido um resgate de 85 mil milhões de euros dos países europeus e do FMI, a Irlanda já está a crescer e tem conseguido implementar a sua dieta de austeridade - já vai no sexto pacote de ajustamento orçamental - sem gerar protestos ou greves como as que têm manchado a imagem da Grécia. A troika vê o país como um exemplo a seguir, nomeadamente por Portugal, e o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho tem dito que a situação nacional está muito mais próxima da irlandesa do que da grega. Mas nem todos pensam assim. Paul Krugman, que esteve na semana passada em Lisboa para receber um doutoramento honoris causa, deixou um conselho ao Governo português: "Não queiram ser a Irlanda". Para o prémio Nobel da Economia, a Irlanda não é um caso de sucesso, nem em termos de crescimento, nem nos mercados financeiros.

De acordo com a revista Economist, a economia - que já foi conhecida como o "tigre celta" - recuou, praticamente, ao ano de 2002, com base num conjunto de indicadores. Apesar de a Irlanda ser o único dos três países resgatados com crescimento em 2011 e 2012, o seu PIB per capita (que é um indicador muito usado para analisar a qualidade de vida de um país) foi o que mais recuou no tempo: este ano, o rendimento por habitante em Dublin estará ao mesmo nível de 2002.

Em declarações ao PÚBLICO, o economista irlandês Philip Lane, professor no Trinity College, em Dublin, defende que a Irlanda irá sofrer uma "década perdida" e só voltará a produzir o nível de riqueza gerado antes da crise daqui a seis ou sete anos. Até porque, antes disso, tem de resolver o grande calcanhar de Aquiles que também afecta a Grécia e a Irlanda: o desemprego. Em 2007, antes de ver rebentar a crise bancária que mergulhou o país na recessão, fez disparar o défice para 31,3% em 2009 e obrigou a um resgate externo, a Irlanda tinha uma taxa de desemprego de 4,6%, quase metade da média da zona euro de então. Este ano, o número de pessoas sem trabalho deverá atingir 14,5% da população activa, o mesmo que em Portugal, mas o cenário seria pior se não fossem os elevados níveis de emigração que o país tem registado.

No último relatório sobre a ajuda ao país, divulgado sexta-feira, o FMI avisa que o desemprego deverá permanecer em dois dígitos no médio prazo, o que aumenta o risco de subida do desemprego estrutural. Neste momento, mais de metade (56%) da população irlandesa está desempregada há mais de um ano. Contudo, no curto prazo, é o próprio crescimento - que já parecia assegurado - que pode dar mais dores de cabeça ao antigo "tigre celta".

O FMI reviu em baixa as previsões do Produto Interno Bruto (PIB) irlandês, prevendo que este cresça apenas 0,5% este ano, em vez dos 1,5% anteriores. O Rendimento Nacional Bruto (RNB) - um indicador mais apropriado para a Irlanda, visto que exclui o rendimento das multinacionais presentes no país - ainda deverá estar em recessão este ano, caindo 0,7%, nas previsões do banco central. A austeridade, o elevado nível de endividamento privado e o contínuo aumento do crédito malparado vão deprimir mais o consumo das famílias. E as exportações, que representam mais de 100% do PIB irlandês, vão ressentir-se com a recessão prevista para a zona euro e o fraco crescimento do Reino Unido.

Mercados: regresso incerto

Perante este contexto, o próprio FMI admite que a perspectiva do regresso do país ao mercado no final deste ano e, nomeadamente, em 2013, permanece "incerta". Nos últimos meses, a Irlanda beneficiou de uma melhoria da percepção dos investidores. Mas, as taxas de juro dos títulos a 10 anos no mercado secundário mantêm-se em níveis considerados insustentáveis (em torno dos 7%) e bem acima dos valores cobrados antes da crise. O FMI admite que, se houver um choque de crescimento (com um período prolongado de recessão nos parceiros comerciais da Irlanda), a dívida do país - que deverá atingir 118% do PIB este ano - poderá tornar-se insustentável.

Estes receios aumentam a probabilidade de a Irlanda vir a recorrer ao novo fundo de resgate do euro, o MEEF. E é aqui que o referendo entra em jogo, e com um efeito que pode revelar-se duplamente penalizador. Por um lado, a decisão do Governo irlandês de submeter o novo tratado europeu, que foi assinado na sexta-feira, pode agravar a desconfiança dos mercados face à capacidade de a Europa resolver a crise, o que teria implicações na economia da zona euro e, consequentemente, na economia irlandesa. Além disso, uma vitória do "não" no referendo impediria, pelo menos teoricamente, que a Irlanda acedesse ao MEEF, o que a obrigaria a enfrentar um regresso, porventura inviável, aos mercados.

Ganhos nos custos de trabalho ainda são limitados

Um dos principais factores que tem sido apresentado para justificar o sucesso irlandês é a melhoria da competitividade. "Desde 2008, os custos domésticos, sobretudo laborais, caíram significativamente quando comparados com as economias concorrentes", explica ao PÚBLICO John Fitzgerald, economista irlandês e professor no Instituto de Pesquisa Social e Económica de Dublin.

No entanto, para alguns economistas, como o prémio Nobel Paul Krugman, há uma boa dose de "ilusão estatística" quando se fala na redução dos custos unitários do trabalho, uma das principais medidas da competitividade. Segundo a Comissão Europeia (CE), os custos unitários de trabalho na Irlanda diminuíram 3,1% em 2011 - mais do que em qualquer outro país do euro - e vão cair mais 1,2% este ano - só superados pela Grécia (com uma queda de 2,8%). No entanto, o próprio FMI adverte que é preciso olhar para estes números com cuidado, já que reflectem uma mudança de sectores de baixa produtividade para sectores de alto valor acrescentado, como o farmacêutico, que estão em mãos estrangeiras, não vendem para o mercado interno e, portanto, aumentam o PIB mas não o RNB.