Bruce Beutler, Jules Hoffmann e Ralph Steinman distinguidos

Nobel da Medicina para duas descobertas fundamentais sobre a activação do sistema imunitário

Bruce Beutler, Jules Hoffmann e Ralph Steinman
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Bruce Beutler, Jules Hoffmann e Ralph Steinman PÚBLICO

O norte-americano Bruce Beutler, o francês Jules Hoffmann e o canadiano Ralph Steinman foram distinguidos com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina 2011, atribuído hoje em Estocolomo, pelos seus trabalhos fundamentais na área da imunologia.

Metade do montante do prémio vai conjuntamente para Beutler (do Scripps Research Institute na Califórnia) e Hoffmann, "pelas suas descobertas acerca da activação da imunidade inata", e metade para Steinman, da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, "pela sua descoberta das células dendríticas e do seu papel na imunidade adaptativa", anunciou em comunicado a Academia Nobel do Instituto Karolinska.

Bruce Beutler, 53 anos, nasceu em Chicago e é professor e director do Departamento de Genética no Scripps Research Institute, em La Jolla, Califórnia.

Jules Hoffmann, 70 anos, nasceu em Echternach, no Luxemburgo, mas é cidadão francês. Trabalha na Universidade de Estrasburgo, em França.

Ralph Steinman, 68 anos, nasceu em Montreal e é imunologista e biólogo na Universidade Rockefeller, em Nova Iorque.

O sistema imunitário (humano mas não só) possui duas linhas de defesa. A primeira é a imunidade inata, que ao activar-se em presença de um microorganismo potencialmente patogénico consegue destrui-lo rapidamente. Os seus principais protagonistas são células chamadas fagócitos, que literalmente “devoram” os intrusos.

A segunda linha de defesa, a da imunidade adaptativa, activa-se quando um vírus, bactéria, fungo ou parasita patogénico consegue ultrapassar a primeira barreira. Os seus actores principais são os linfócitos B e T, que respectivamente produzem anticorpos e causam a multiplicação de células “assassinas” para destruir as células infectadas. Para mais, este segundo tipo de imunidade possui uma "memória", que permitirá desenvolver mais rapidamente esta segunda fase da resposta imunitária da próxima vez que o mesmo agressor tentar penetrar no organismo. As vacinas exploram precisamente essa memória imunitária, mantendo-nos protegidos de uma série de doenças durante anos a fio.

À procura dos "gatilhos" da imunidade

Embora muitos dos componentes do sistema imunitário já tivessem sido determinados, seriam precisas as descobertas dos laureados do Nobel 2011 para se ficar a conhecer os processos de activação de cada uma das duas facetas da imunidade.


Foram os trabalhos de Hoffmann e Beutler que permitiram desvendar o "gatilho" da imunidade inata.
Em 1996, Hoffmann estava a tentar perceber, com a sua equipa, como faziam as moscas-do-vinagre para combater as infecções. Descobriu então que as moscas que tinham uma mutação ao nível de um gene chamado Toll morriam quando eram infectadas por bactérias ou fungos porque não conseguiam desenvolver uma reacção imunitária contra eles. Hoffman mostrou ainda que esse gene estava envolvido na detecção dos microorganismos patogénicos pelo sistema imunitário das moscas e que a sua activação era necessária para a imunidade inata funcionar correctamente.

Entretanto, Beutler e a sua equipa tentavam perceber como é que certos tipos de toxinas de origem bacteriana, os lipopolisacarídeos (LPS), conseguem produzir uma síndrome potencialmente letal para os doentes, chamada choque séptico. Para isso, procuravam os receptores dos LPS à superfície das células imunitárias do ratinho – verdadeiras “antenas moleculares” capazes de se ligarem aos LPS e de desencadearem uma resposta imunitária eventualmente excessiva e mortal. Foi assim que descobriram, em 1998, que os ratinhos resistentes aos LPS – ou seja, aqueles que não desenvolviam um choque tóxico – tinham uma mutação num gene, muito parecido com o gene Toll das moscas-do-vinagre.

O gene do ratinho comandava o fabrico de um receptor a que deram o nome de receptor Toll-like (TLR) e a seguir, mostraram que o facto de os LPS se ligarem a esse receptor provoca uma reacção inflamatória - o que, em caso de doses excessivas de LPS, causa a síndrome de choque tóxico.

Células dendríticas

Quanto ao trabalho de Steinman, diz respeito à segunda fase da reacção imunitária. Essencialmente, Steinman descobriu, em 1973, um novo tipo de células imunitárias de primeira linha: as células dendríticas. A seguir, decidiu ver se estas células (componentes da imunidade inata) eram capazes de activar os linfócitos T, componentes-chave da imunidade adaptativa (a segunda linha de defesa) e da memória imunitária contra inúmeras substâncias.


Quando demonstrou, in vitro, que a presença de células dendríticas aumentava fortemente a actividade dos linfócitos T contra essas substâncias, o seu resultado foi recebido com cepticismo. Mas Steinman provou a seguir que as células dendríticas são as únicas capazes de activar os linfócitos T.

O conjunto destes resultados tem potenciais aplicações médicas. Por um lado, pode permitir o desenvolvimento de vacinas mais eficazes contra as infecções e a descoberta de maneiras de estimular o sistema imunitário para o tornar capaz de atacar eficazmente os cancros. Por outro, perceber por que é que em certos casos, o sistema imunitário se vira contra o seu dono, para conseguir tratar as doenças inflamatórias auto-imunes.
O montante total do prémio atribuído em conjunto aos três cientistas é de um milhão de euros.

Amanhã será anunciado o Prémio Nobel da Física.

Notícia actualizada às 14h00