Ensino Particular

Reacções ao estudo: Directores preocupados

O director do Colégio São João de Brito, em Lisboa, mostrou-se hoje incomodado com a proposta de extinção do financiamento público a esta escola, sublinhando o “trabalho de qualidade” que tem sido feito com cidadãos carenciados. Também o responsável do Externato Júlio César, na Pontinha (Odivelas), afirmou-se preocupado e apreensivo.

Um estudo encomendado pelo Ministério da Educação propõe a extinção do contrato de associação com o Colégio São João de Brito. Nesta escola, o financiamento público abrange apenas o ensino recorrente.

“Gostava de saber quais os critérios em que o estudo assenta para sugerir a extinção deste financiamento público. Porque me incomoda, sabendo o que se faz na casa e a nossa intervenção, que se corte o financiamento de algo que tem qualidade”, comentou à agência Lusa António Valente, diretor da instituição.

O responsável destacou que a oferta do Ensino Recorrente só se encontra aberto porque “há procura”.

“Não forçamos os alunos a virem fazer a sua segunda oportunidade de educação. Temos um serviço aos mais carenciados. São pessoas que têm efectivamente necessidade e que nos procuram”, explicou o director de S. João de Brito.

Neste momento estão abrangidos pelo financiamento público 256 alunos neste colégio.

São adultos que frequentam o ensino nocturno e cursos de educação e formação enquadrados nas Novas Oportunidades.

António Valente frisa que o colégio adequa a oferta de ensino à necessidade dos alunos e que esta é uma das razões da procura deste tipo de ensino.

“Damos alguma diferenciação nestes cursos. Está prescrito no curso técnico de agências de viagens um número de horas de inglês. Mas os nossos alunos precisam de mais. Tentamos ir mais além do que está prescrito e damos mais horas”, exemplificou o director.

António Valente admite ainda que o conceito da população carenciada servida pelo São João de Brito mudou ao longo dos anos, mas salienta que a instituição continua a apoiar quem precisa.

“O colégio oferecia este serviço num conjunto de bairros que era muito carenciado. Este conceito de carência veio evoluindo, mas não deixamos de servir um conjunto de cidadãos que têm carência”, comentou.

António Valente lamenta ainda não conhecer o estudo em detalhe, criticando o seu processo de divulgação: “Não acho de bom-tom lançarem-se notícias destas sem falar com quem de direito. É um processo pouco transparente e nada correcto”.

O estudo propõe também a extinção do contrato de associação com o Externato Júlio César, na Pontinha. “Tenho enorme preocupação e apreensão. Mas as negociações com o Ministério da Educação ainda estão a decorrer e é extemporâneo estar a alongar-me em comentários”, afirmou o proprietário do Externato, Nuno Faria, em declarações à agência Lusa.

Por seu lado, a directora do Colégio Rainha Santa Isabel, em Coimbra, contestou hoje as alterações ao financiamento público das escolas particulares, acusando o Ministério da Educação de “laborar no escuro e na mentira”.

“O Ministério está a laborar no escuro, na mentira, no turvo, não é um Ministério que sirva a boa-fé. Estamos aqui a ver uma falta de transparência que não é digna daqueles que se elegeram”, declarou Maria da Glória à agência Lusa.

O estudo sobre aponta a área urbana de Coimbra como o caso “mais paradigmático” de sobreposição da oferta pública e privada e sugere o fim de vários contratos.

A directora do Colégio Rainha Santa salientou que a instituição não tem capacidade de resposta para a elevada procura por parte de pais e encarregados da educação da cidade.

“Nós não podemos receber nem metade daqueles que nos procuram. Não impedimos os alunos de ir para a escola estatal”, acrescentou.

Na sua opinião, “o Governo tem que se questionar” sobre estes aspectos “e não estar a travar o processo de escolas que até trabalham com qualidade”.

“Por que motivo é que temos tanta procura, havendo lugares na escola estatal?”, perguntou. Para Maria da Glória, “o Estado só tem que pegar nos impostos dos cidadãos e pô-los ao serviço dos mesmos cidadãos”.“Esta é a nossa óptica e por isto nos bateremos até ao fim, que fique muito claro”, advertiu.

Quanto à diminuição do número de turmas, o estudo aponta para que a maior redução de turmas ocorra na região Centro, que passaria a ter 579 turmas no próximo ano lectivo, contra as actuais 650.

“É provável que alguns professores tenham mesmo de deixar de trabalhar aqui”, mas “não estou muito segura disso”, disse a responsável do Colégio Rainha Santa.

Para já, o director pedagógico do Instituto de Almalaguês, Linhares de Castro, sabe que o estudo “deixa antever que o ensino secundário irá ser paulatinamente restringido” neste estabelecimento dos arredores de Coimbra.

O Ministério da Educação “prevê uma diminuição dos alunos que o frequentam. Nós não temos essa ideia, nem mesmo que haja diminuição da população” da freguesia de Almalaguês, referiu.

“Também não sabemos qual a fiabilidade e a credibilidade do estudo. Não sabemos os dados em que se baseou”, disse ainda Linhares de Castro.

Notícia actualizada às 15h50
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