Torne-se perito

O "eureka" de Quentin Tarantino

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Christian Hartmann/REUTERS

"Sacanas sem Lei" era o filme que Tarantino nunca ia fazer, e afinal fez. Estava previsto que tivesse o tamanho de uma homenagem a um subgénero do cinema de acção mas acabou por ter o tamanho de uma declaração de inabalável fé no cinema como instrumento de transformação do mundo.

Era uma vez na França ocupada por Hitler...
Aldo Raine, "hillbilly" das montanhas do Tennesse, é um americano com uma missão: caçar nazis. Também conhecido como "O Apache", a alcunha indica-nos algo da sua especialidade: mais do que o taco de basebol que estoira as cabeças, é o escalpe (coisa que também não faz bem à cabeça). E uma tatuagem traçada a faca na testa dos nazis caçados: uma cruz suástica para que eles, se sobreviverem, não possam esconder a vergonha.

Aldo não está sozinho nisto: comanda um grupo de abnegados vingadores, americanos de origem judaica, e o seu plano cruza-se com o de ingleses, alemães arrependidos e alemães que estão contra Hitler. E vai chegar a altura em que Aldo concretiza a sua "obra-prima". É ele que o diz: "Acho que esta é a minha obra-prima", depois de uma cruz suástica ser rasgada na testa de um "caçador de judeus" por uma faca que parece cortar queijo.
"Acho que esta é a minha obra-prima"... Notamos em Aldo Raine uma teatralidade e uma bazófia que reconhecemos em Quentin Tarantino, o homem que criou Aldo (interpretado por Brad Pitt) e todas as personagens de "Sacanas sem Lei". Por isso é natural querer saber do sacana-mor se com esse pedaço de diálogo no seu filme ele quer afirmar que escreveu e realizou, também, a sua obra-prima.
"Adoro a competição", diz aos jornalistas num encontro com a imprensa internacional em Londres - mas isso é novidade para alguém?
"Na verdade, só posso pensar que tenho de competir comigo próprio. Não consigo ainda classificar 'Sacanas sem Lei'. Preciso de uns três anos antes de dizer em que lugar é que fica na minha lista. Adoro todos os meus filmes" - e isso, também é novidade para alguém?
"Se as pessoas perguntam qual é o meu favorito, eu deveria dizer: 'Cães Danados' [1992]. Pareceria sacrilégio não o fazer, foi o filme que mudou a minha vida e a incrível excitação que tive ao fazê-lo não pode ser igualada. Mas, por estranho que isso possa parecer, agora o meu filme favorito é 'Kill Bill I e II' [2004]. Revi-o noutro dia, e fiquei espantado: deve ser o meu melhor filme!".

Ninguém escapa à sua própria natureza. Quentin é o mais feroz competidor de Tarantino, por isso há mais recordes para bater... "Acho que o I Capítulo de 'Sacanas sem Lei' fica já como uma das melhores coisas que escrevi... só é ultrapassada pela sequência siciliana em 'Amor à Queima-Roupa', o meu primeiro argumento [1993]. Acho que finalmente a igualei, ou mesmo ultrapassei, com esta sequência...".

Perdidos (e achados) na tradução

Descansemos um pouco nesta subida alpinista de Quentin e paremos para olhar para a "sequência siciliana" de "Amor à Queima-Roupa", filme de Tony Scott. Encontramos Christopher Walken, em mafioso siciliano, a interrogar Dennis Hopper, polícia reformado e pai de um Christian Slater que acabou, inadvertidamente, por dar um golpe nos negócios de Walken. Este quer que Hopper lhe diga onde pára Slater. A conversa começa envolta em elegâncias de seda: as personagens de Tarantino gostam de falar, gostam sobretudo de se ouvir falar. E quanto mais suave é a seda, mais brutal vai ser o momento da explosão.
É assim também a sequência de abertura de "Sacanas sem Lei": paisagem que podia ser o Oeste dos filmes de Michael Cimino - "As Portas do Céu" - mas já tintado a "spaghetti", só que é a França ocupada. Era uma vez uma cabana, um camponês francês e as suas filhas e um carro alemão que se aproxima.

Vamos conhecer uma figura inesquecível, o coronel Hans Landa, um caçador de judeus - não é insulto, ele tem orgulho no que faz e, para cumprir as suas tarefas, até é "capaz de pensar como um judeu". Landa quer descobrir os únicos judeus da aldeia que faltam deportar. Hans é poliglota e gosta de se ouvir falar. É personagem tarantóide por excelência, com aquele lado infantil e razoavelmente regressivo do universo Tarantino, embora o facto de ser europeu dê uma componente aristocrática, culta e decadente a essa narcisista compulsão para lançar o fogo de artifício e apanhar as canas com as suas próprias tiradas. Bebe leite, este nazi. E, cortês como é, começa por fazer as despesas da conversa em francês com o camponês que - o nazi suspeita - esconde a família judaica.

Às tantas, Landa (o austríaco, e poliglota, Christoph Waltz, prémio de interpretação em Cannes - ver texto nestas páginas) propõe que a conversa passe para inglês. À primeira vê-se nisso uma manobra do argumentista Quentin para introduzir a convenção. Do género: vamos deixar-nos de fitas e pôr esta gente a falar em inglês, se não vai ser uma confusão com as legendas, até porque o público americano não está habituado a legendas. Um pouco mais à frente, a concluir este duelo de sedução, aproximação e ataque em cenário de pastoral, percebemos porque é que Landa (outra figura do teatro, da manipulação, do logro, como Aldo Raine - como, arriscamos, Tarantino...) mudou a conversa para inglês. Vai ser brutal e ainda estamos no Capítulo I (o filme há-de chegar ao V).

Vamos perceber que Tarantino não tem medo nenhum de legendas, antes pelo contrário: "Sacanas sem Lei" está cheio delas porque as várias línguas, inglês, alemão, francês, italiano, são, neste falso filme de acção, uma série de máscaras com que as personagens conquistam poder e uma série de máscaras que, ao caírem, fazem as personagens perderem o poder e perderem-se - só se conversa em "Sacanas sem Lei", eis a versão de Quentin de um filme de porrada.
E vamos perceber, finalmente, como é que o argumentista e o cineasta estão em sintonia para cada um transcender o outro. Vamos perceber, e garantimos que existirá euforia nessa descoberta, o que é "mise-en-scène" e como é isso que "escreve" um filme: quando a câmara finalmente se move, nessa cabana francesa do I Capítulo, iluminando a razão da passagem do francês para inglês, e desenha um movimento descendente, é brutal...

Teremos depois de concordar que este virtuosismo é o menos narcisista do cinema de Tarantino. Porque o malabarismo com as palavras é a própria matéria de um filme onde só se salva quem é suficientemente teatral e suficientemente poliglota - se ao menos os judeus escondidos naquela quinta francesa, nesse I Capítulo, soubessem falar inglês...
"Foi por causa dessa sequência que percebi que não podia deixar cair este argumento. Podia até chegar à conclusão que era coisa do passado, que se calhar já não tinha a mesma pica de quando comecei a escrever a história, há dez anos. Mas estava convencido que eram boas personagens. Eu tinha investido nelas, não queria deixá-las cair. Percebi também que não podia avançar se não tirasse este argumento da cabeça. Mesmo que escrevesse e não gostasse, era uma montanha que tinha de escalar antes de poder ver o horizonte e as outras montanhas à minha frente. Tinha que escrever para tirar isso do meu corpo."

Operação cinema

"Sacanas sem Lei" faz figura de mito na "vida e obra" de Quentin. Era o argumento que ele nunca conseguiria acabar de escrever, jurava-se. "Foi em 1998 que tive a ideia para 'Sacanas sem Lei', e é preciso lembrar que teria sido o meu primeiro argumento original depois de 'Pulp Fiction' [1994]. Estava, compreensivelmente, sob pressão: tinha sido atacado pelo oposto do 'bloqueio do escritor', não conseguia conter as minhas ideias, escrevia, escrevia, escrevia... O resultado podia dar uma mini-série de sete ou 12 horas, nunca um filme".

A história original tornou-se "grande de mais". Podia ser o romance que Tarantino ainda não escreveu. Mas se as situações e personagens principais se mantiveram, o regresso ao argumento em 2008 originou uma história "completamente diferente". Apareceram, por exemplo, outras personagens.
Já havia na versão original o grupo dos "basterds", com o álibi de uma homenagem a um subgénero do cinema de acção, o de "homens em missão" - o mais referenciado era "Quel Maledetto Treno Blindato" (1978), de Enzo Castellari, de que Tarantino era suposto fazer o "remake". "Já tinha planeado que os 'basterds' seriam a resistência apache aos nazis".
Já havia até uma personagem feminina, judia, Shoshana (Melanie Laurent), que escapa a um massacre, num plano que parece vir de "A Desaparecida", de Ford, e se torna proprietária de um cinema em Paris.
Mas não só os "sacanas" acabaram por ser personagens... secundárias, como o "remake" do filme de Castellari se tornou definitivamente outra coisa. Em "The Inglorious Bastards", título americano de "Quel Maledetto Treno Blindato", Quentin introduziu gralhas - "Inglourious Basterds" - para deixar claro que a coisa era dele. Sem deixar, ao mesmo tempo, de prestar afectuosa homenagem a Enzo, filmando-o como figurante numa cena: a sequência na sala de cinema.
A propósito... mais importante do que tudo é que, entre a versão do argumento de há dez anos e a versão actual, irrompeu entretanto o cinema.
E se...? E se os "basterds" (entre os quais estão Eli Roth e Til Schweiger), mais o inglês Archibald Hicox (Michael Fassbender), que antes de ser tenente era crítico de cinema (com monografia sobre Pabst e tudo), mais uma diva do cinema alemão, Bridget von Hammersmark (Diane Kruger, mais Hildegard Kneff que Marlene Dietrich), e ainda a proprietária de uma sala de cinema (Shoshana, anjo vingador) juntassem esforços para encurralar Hitler, Goebbels e os outros numa sala de cinema?

E se essa sala, em Paris, onde a propaganda do regime vai coroar uma nova estrela, Frederick Zoller (Daniel Bruhl), exibindo o seu novo filme em estreia de gala, "O Orgulho de uma Nação", fosse o cenário para uma suprema vingança, a Operação Kino (em português, Operação Cinema), tornando-se a pira funerária do Nacional Socialismo?
"Comecei a escrever e de repente estava perante a cena entre Zoeller [o actor do regime] e Shoshana, e eles estão a falar sobre Max Linder, Chaplin e Pabst... e de repente, bum!, um filme sobre a II Guerra Mundial transforma-se numa carta de amor ao cinema. Uma das coisas que é sempre fabulosa nos filmes, quando podemos fazê-lo, é fazer duas coisas ao mesmo tempo. Sobre essa coisa de o cinema salvar o mundo, as pessoas podem dizer: 'ah, que bela metáfora'. Mas não é metáfora nenhuma: é uma coisa prática. É a película, o nitrato, que destrói o III Reich. Devo dizer que em toda a minha carreira de argumentista houve um ou dois momentos 'eureka!' em que encontrei uma coisa que parece ter sido escrita ou dada por Deus. Quando cheguei a esta ideia de usar a película em nitrato como explosivo pensei: 'Oh meu Deus, como é que nunca ninguém pensou nisso!!!! Oh meu Deus, isto vai resultar!!!! Oh meu Deus!!!!' Foi um desses momentos 'eureka'!".
O cinema é o instrumento da vingança, e assim termina o III Reich: à paulada, à facada e numa fornalha.

Vingança judaica

A questão da vingança judaica é delicada. Não é uma proposta politicamente correcta. Quentin diz que, enfim, podia argumentar que em todo o cinema de acção há vingança, etc e tal, mas não vai evitar a questão...
"Sim, um dos elementos mais intrigantes que me fez querer escrever esta história foi a ideia de 'vingança judaica'. Não sei que reacções o filme vai desencadear por causa disso. Um dos aspectos sobre as personagens judias, os 'sacanas', é que eles são judeus americanos. Há uma mitologia nisso. Aldo Raine não é judeu, mas podemos imaginá-lo a falar com os sacanas: 'a coisa é assim, meus, os nazis vieram bater nos vossos antepassados europeus, tios, tias e avós, e não havia nada que eles pudessem fazer a não ser aguentar. Mas vocês são os filhos americanos deles, têm o mais forte exército do mundo a apoiar-vos...'. E também há uma filosofia por trás da razão por que Aldo está a usar soldados judeus: o facto de os soldados gentios americanos terem o privilégio de ser soldados. Normalmente, os judeus têm o dever de ser soldados por estarem a lutar uma guerra santa, sob pena de serem apagados da face da terra. Sei que pelo menos os machos judeus-americanos das últimas gerações vão adorar isso. Não sou perito no que toca a gerações mais velhas, mas sei que os americanos judeus da minha geração, ou mesmo os mais novos, estão fartos das outras histórias sobre o Holocausto, querem outra coisa".

Não sabemos se isso enforma propriamente uma mundivisão - o que quer que seja, é algo criado algures em Los Angeles, Manhattan Beach, a ver muitos filmes. Mas Eli Roth, que interpreta um dos "basterds" e que é, ele próprio, realizador (foi ele que filmou "O Orgulho de uma Nação", o filme dentro do filme, regurgitação a partir do cinema de Samuel Fuller), sintetizou em Cannes: "Sacanas sem Lei" é "kosher-porn". Roth saberá do que fala, porque realiza filmes de "horror porn".
Não é por variações de subgéneros Z, no entanto, que anda a cinefilia de "Sacanas sem Lei". Nem por aí, nem pelo "exploitation", nem pelas artes marciais. É pela vertente mais europeia do ecléctico gosto de Tarantino. É coisa mais canónica. Ouvimos muito falar em Pabst, sentimos muito a "presença" de cineastas europeus que filmaram na América, como Lubitsch e o seu jogo de máscaras chamado "Ser ou não Ser", ou Fritz Lang. E por isso "Sacanas sem Lei" vibra com as texturas das várias línguas europeias. Até uma actriz alemã, Diane Kruger, que passou os últimos anos da sua vida a tentar livrar-se do sotaque alemão para ter carreira na América, teve de convencer Tarantino que... era alemã. A ironia não escapou a Kruger. Que, aqui, sim, parece actriz. E que figura numa das sequências "tour de force" do filme e que pertencerá a uma antologia do cinema do realizador: o jogo no "bistrot", uma daquelas sequências para as quais Tarantino instalou uma câmara, apenas uma, e filmou "takes" de 10 a 12 minutos, 15 páginas de diálogo, com os actores a terem de estar todos "em cena" como no teatro.

"Para mim, e quando falamos da carreira de um realizador", conclui o sacana-mor com a sua máscara de teoria de autor à europeia, "a filmografia é tudo. O nosso trabalho cresce, muda de direcção, mas é algo de reconhecível. Há qualidades que quero que os meus filmes tenham. Há um adjectivo: exuberância. Quero que os meus filmes tenham exuberância de narrativa, exuberância cinematográfica. Quando isso começar a desaparecer, eu desapareço também. Não quero fazer filmes de velho. Esses filmes poderiam ser uma reflexão interessante sobre quem eu seria aos 66 anos, mas não quero isso. Nessa altura, paro de escrever filmes, e escrevo romances, críticas, ensaios. Nessa altura quero tornar-me um homem de letras. Adoraria escrever um romance agora, mas não posso, tenho de dar tudo ao cinema. E depois vai acabar. E vou dar tudo à literatura". Não ouvem Aldo Raine, faca na mão, serviço acabado, "Acho que esta é a minha obra-prima"?

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