Audição na comissão de inquérito à nacionalização do banco

Administrador culpa auditores e ROC na fraude do BPN

Rui Pedras afirmou ontem, no Parlamento, que "o BPN é um caso de polícia"
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Rui Pedras afirmou ontem, no Parlamento, que "o BPN é um caso de polícia" Pedro Cunha (arquivo)
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O administrador do BPN Rui Pedras, que transitou da administração de Miguel Cadilhe para a actual administração de Francisco Bandeira, disse ontem na comissão de inquérito à nacionalização do banco que várias entidades, entre elas auditores e revisores oficiais de contas (ROC), falharam na detecção da "megafraude" do BPN.

Pedras defendeu que "o sistema de supervisão não é só o Banco de Portugal (BdP)" e apontou o dedo aos accionistas e aos membros dos órgãos sociais do BPN e SLN. "Há aqui um conjunto de entidades que não viram esta megafraude, penso que não devemos deixar passar isto em claro, principalmente ao nível dos ROC e auditores", disse.

Afirmando que "o BPN é um caso de polícia", Rui Pedras referiu que ao assumir funções no banco verificou existir "um ambiente propício" à prática de ilegalidades e deu como exemplo o "clima de confiança" entre auditores e ROC na informação prestada pela administração do banco. "Estas entidades existem não para confiar, mas para desconfiar dos órgãos de gestão", sustentou.

Questionado sobre a actuação do BdP, Rui Pedras disse que "hoje é fácil dizer" que o supervisor deveria ter intervindo mais cedo. Mas admitiu que o facto de o BdP não ter agido em Junho de 2008, quando o ex-presidente do banco Abdool Vakil confessou a relação entre o BPN e o Insular, lhe suscita "dúvidas". "Não é razoável uma administração confessar uma coisa daquelas e ficar tudo na mesma", afirmou, para dizer que "a única explicação" que encontra é a de que o BdP confiou que a administração de Cadilhe (que estava para iniciar funções) seria capaz de resolver o problema sem "alarme público".

Sobre o plano de recuperação de Cadilhe, Pedras afirmou que, com a informação hoje existente, "seria uma tarefa difícil, quase impossível", que o banco "gerasse resultados capazes de absorver perdas de quase um por cento do PIB [até ao momento foram detectadas imparidades de 1,8 mil milhões de euros]". Mas lembrou que as perdas identificadas na ocasião eram de 700 milhões e que, apesar de a equipa de Cadilhe ter noção dos "riscos que tinha pela frente", estava disposta a assumi-los. Até porque entre Junho e Setembro, quando faliu o Lehman Brothers, "as questões de liquidez pareciam estar a resolver-se".

Rui Pedras esclareceu que o número de pessoas que faziam operações no Insular contava-se "pelos dedos de duas mãos". O antigo assessor de Oliveira e Costa, António José Duarte, garantiu na semana passada aos deputados que a existência do banco cabo-verdiano "era do conhecimento soberano e não restrito", mas Rui Pedras defendeu ontem que a capacidade de realizar operações entre o BPN e o Insular "não era tão generalizada assim".

Os deputados também ouviram ontem um ex-técnico de sistemas informáticos do BPN que ajudou a criar a base de dados do Insular e que garantiu que todos os movimentos realizados desde 2002 estão disponíveis para consulta interna e externa.

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