Expedição entre Janeiro e Fevereiro para estudar alterações climáticas

Portugal fez uma das perfurações mais profundas no solo da Antárctida

Uma rede de furos na Antárctida já permitiu identificar uma tendência para o aumento da temperatura
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Uma rede de furos na Antárctida já permitiu identificar uma tendência para o aumento da temperatura Bristish Antarctic Survey (arquivo)

Uma investigadora portuguesa esteve na Antárctida entre Janeiro e Fevereiro deste ano para perfurar o solo sempre gelado (permafrost) e conhecer os efeitos das alterações climáticas. Conseguiu fazer um dos raros furos com mais de 25 metros de profundidade na Antárctida. O projecto, integrado no recente Programa Polar Português, foi o primeiro no continente branco a contar com financiamento português.

Ontem ao final da tarde foram apresentados os resultados da viagem na Fundação Calouste Gulbenkian, entidade que financiou a expedição, integrada na campanha Antárctida espanhola, com 60 mil euros.

Enquanto os líderes mundiais se sentavam à mesa para negociar os termos do próximo tratado contra as alterações climáticas, sucessor do Protocolo de Quioto, Vanessa Batista (investigadora do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa) e a sua equipa – um espanhol e dois suíços – carregavam quatro toneladas de material pelas encostas da ilha de Livingstone, no arquipélago das ilhas Shetland do Sul, na Antárctida.

A expedição do projecto Permadrill – para estudar a evolução das temperaturas do permafrost daquela região – conseguiu fazer duas perfurações de 21 de Janeiro a 5 de Fevereiro, ambas no Monte Rainha Sofia, com uma altitude de 270 metros, na ilha de Livingstone.

Uma das dificuldades, contou Vanessa Batista, foi transportar as quatro toneladas de material utilizado para as perfurações. Para cima, foi de helicóptero. “Aproveitámos uma janela de tempo de apenas duas horas, entre as 02h00 e as 04h00, ou seja, a única altura em que era de noite na ilha, porque não havia vento”. Depois, era com os cientistas.

As perfurações começaram a 22 de Janeiro. Mas, devido à instabilidade do solo, este furo foi abandonado com apenas 1,70 metros. No dia seguinte e dois metros ao lado começou nova perfuração, utilizando outro sistema. A 31 de Janeiro, às 19h45, a equipa deu o trabalho por terminado. Tinha perfurado 25,5 metros, um dos cerca de cinco furos com esta profundidade existentes na Antárctida. Foi-lhe posto o nome de “Gulbenkian I”, o primeiro furo com nome português. Dentro do furo foi introduzido um sensor que vai medir a temperatura de cinco em cinco minutos. Dentro de um ano, a equipa poderá apresentar resultados mais definitivos. Mas ontem, já pôde dizer que o permafrost naquele local tem mais de 25,5 metros de profundidade. Aí, a temperatura é de dois graus negativos.

A segunda perfuração ficou a meio, com 15,7 metros de profundidade porque o navio que os traria de volta a casa já estava à sua espera. Ao furo deram um nome, fácil de adivinhar, “Gulbenkian II”.

Povoações em risco devido à deterioração do Permafrost em várias regiões do globo

Até ao momento está instalada na Antárctida uma rede de sensores de temperatura, colocados em furos com cerca de dois metros de profundidade. Estes permitem identificar uma tendência para o aumento da temperatura, resultado do sobre-aquecimento global do planeta. Mas para profundidades maiores ainda há pouca informação.

Mas não é só na Antárctida que o permafrost - solo congelado há mais de dois anos – está a ser vigiado de perto. No Árctico e mesmo nos Alpes, investigadores alertam que o solo sempre gelado começa agora a deteriorar-se devido ao aumento médio das temperaturas, colocando em perigo as cidades nele assentes, incluindo estâncias de ski e hotéis.

No Árctico, o degelo do permafrost coloca ainda outro problema que, explicou ontem Gonçalo Vieira, contacto nacional do Comité Português para o Ano Polar Internacional (2007/2009), ainda está pouco estudado. As árvores do Árctico libertam matéria orgânica, como folhas, que se vai acumulando em camadas no solo, gelando rapidamente antes de se decompor. Com o aumento das temperaturas, essas camadas começam a descongelar e a matéria orgânica a decompor-se, libertando dióxido de carbono e metano, poderosos gases com efeito de estufa. No entanto, estas emissões ainda não estão a ser integradas nos modelos que fazem as previsões climáticas.

Programa Polar Português já tem cinco projectos

Gonçalo Vieira salientou que o financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, através do seu programa Ambiente, “deu um impulso muito importante e pôs as equipas portuguesas no mapa internacional do estudo do permafrost”.

Além de fazer perfurações, Portugal tem na Antárctida investigadores a medir a temperatura do ar, a instalar postos de monitorização da temperatura no solo, da camada activa (aquela que, ao contrário do permafrost gela e descongela todos os anos) e está prevista a monitorização do processo de erosão da paisagem causado pelas alterações climáticas.

Portugal ainda não assinou o Tratado da Antárctida mas Gonçalo Vieira acredita que “está para breve”, uma vez que já foi aprovada em Assembleia da República em Fevereiro do ano passado.

Em Dezembro de 2007 foi aprovado o Programa Polar Português. Actualmente há cinco projectos com financiamento, prontos para arrancar. Vanessa Batista vai voltar à Antárctida ainda este ano.