Cientista morreu ontem

Ordem dos Médicos decreta cinco dias de luto pela morte de Corino de Andrade

O funeral do investigador tem lugar amanhã, saindo às 11h30 do ICBAS para o Cemitério do Prado do Repouso, onde será cremado
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O funeral do investigador tem lugar amanhã, saindo às 11h30 do ICBAS para o Cemitério do Prado do Repouso, onde será cremado Fernando Veludo/PÚBLICO (arquivo)

A secção regional do Norte da Ordem dos Médicos decretou hoje cinco dias de luto pela morte de Mário Corino de Andrade, o médico e investigador que descobriu a paramiloidose, mais conhecida como "doença dos pezinhos". O cientista morreu ontem, no Porto, aos 99 anos de idade. O funeral realiza-se amanhã de manhã.

O ministro da Saúde, Correia de Campos, visitou hoje o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (a segunda faculdade de Medicina da Universidade do Porto), onde o corpo de Corino de Andrade se encontra em câmara ardente, no salão nobre.

"Venho em representação do Governo, em sinal de agradecimento de Portugal para com o professor Corino de Andrade pela sua obra como médico e investigador multifacetado, com uma notável cultura geral, capaz de abarcar conhecimentos das mais diversas áreas", afirmou o ministro.

O professor universitário, um dos mais destacados neurologistas nacionais, foi responsável pela identificação e descrição da "doença dos pezinhos" e um dos principais impulsionadores da criação do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto.

Natural do Alentejo, Mário Corino da Costa Andrade licenciou-se em Medicina e Cirurgia em Lisboa, de onde partiu em 1931 para trabalhar no Laboratório de Neuropatologia da Faculdade de Medicina de Estrasburgo, onde recebeu o Prémio Déjerine, até então atribuído apenas a investigadores franceses.

Quando, em 1938, regressou a Portugal, instalou-se na cidade do Porto, onde, contratado como neurologista pelo Hospital Santo António, criou e dirigiu o respectivo Serviço de Neurologia a partir do início dos anos 40.

Foi com base no trabalho de investigação realizado naquele hospital que Corino de Andrade se notabilizou mundialmente quando, em 1952, foi o primeiro a identificar e tipificar cientificamente a paramiloidose, vulgarmente designada por "doença dos pezinhos" ou mesmo "doença de Andrade".

A paramiloidose é uma doença que se manifesta normalmente entre os 25 e os 35 anos e que é transmitida por via genética. Os primeiros sintomas são constantes formigueiros nos pés e uma perda de sensibilidade ao frio e ao calor.

Em 1976, após uma viagem de investigação aos Açores, Corino de Andrade identificou uma outra doença neurológica, a de Machado-Joseph.

Corino de Andrade destacou-se também como opositor ao Estado Novo, fazendo parte do núcleo de personalidades de ciência do Porto que se opôs ao regime e que teve em Abel Salazar a sua figura cimeira.

Foi, juntamente com Nuno Grande, um dos principais impulsionadores da criação do ICBAS, logo após a queda do regime, fazendo parte da sua comissão instaladora entre 1974 e 1980. A morte do investigador levou a Universidade do Porto a colocar as bandeiras a meia haste.

Também a Direcção da Organização Regional do Porto do PCP emitiu um comunicado em que manifesta "pesar perante o falecimento do prestigiado médico, investigador e cidadão interveniente", no qual salienta o seu papel na "resistência ao fascismo, ao lado se intelectuais como Abel Salazar, Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital e Armando Castro, entre outros".

O funeral do investigador tem lugar amanhã, saindo às 11h30 do ICBAS para o Cemitério do Prado do Repouso, onde será cremado.