Participação de Durão Barroso esteve sempre prevista


O primeiro-ministro português chega ao fim da manhã de hoje à base das Lajes para participar integralmente nos trabalhos da cimeira dos Açores, embora não esteja previsto que venha também a assinar a declaração final do encontro, reservada aos líderes dos três países do Conselho de Segurança que subscrevem o projecto de resolução apresentado no passado dia 24 de Fevereiro com um ultimato a Saddam Hussein.

A participação de Durão Barroso nos trabalhos da cimeira esteve sempre prevista. A diplomacia portuguesa estava ontem intensamente envolvida na preparação da cimeira. Lisboa não gostaria que dela saísse uma "declaração de guerra" ao Iraque mas admite que o tempo da diplomacia está a chegar ao fim e prevê uma declaração final suficientemente "robusta" para não deixar já grande margem para dúvidas sobre o eventual desfecho da crise.

Foi esta, aliás, a mensagem deixada ontem por Durão Barroso a poucas horas de partir para as Lajes, ao reconhecer (à agência Lusa) que "são poucas, ou ínfimas mesmo, as possibilidades de uma solução política". Embora considerando que se deve explorar até ao fim uma solução pacífica - "mesmo que seja apenas uma hipótese num milhão, temos a obrigação de tentar" -, o primeiro ministro não deixou de antecipar o clima de dramatização que se espera da cimeira das Lajes. A cimeira realiza-se "num momento de extrema gravidade na situação internacional", declarou, insistindo em que o que está em causa é "a segurança e a liberdade das nossas sociedades."

Durão Barroso chega hoje a uma ilha em estado de segurança máxima, mesmo que, até agora, razoavelmente discreta. Algumas centenas de agentes da segurança americana estão a passar a ilha a pente fino. Os controlos do aeroporto das Lajes foram drasticamente reforçados. O espaço aéreo vai ser encerrado a partir das 11 da manhã. As capacidade hoteleira encontra-se esgotada pelo batalhão de jornalistas (mais de 500) e de diplomatas que se encontram já na Terceira.

A escolha da ilha para a realização da cimeira resultou da conjugação de três factores: a localização geográfica, a meio caminho entre os EUA e a Europa; as condições de segurança, incluindo a possibilidade de evitar as inevitáveis manifestações pela paz (está prevista, ainda assim, uma concentração de protesto para as 12 horas de hoje "o mais próximo possível da base"). Finalmente, segundo a própria diplomacia portuguesa, as posições políticas assumidas por Lisboa ao longo da crise, que fazem de Durão Barroso um anfitrião politicamente conveniente.

Teresa de Sousa, PÚBLICO





Guerra considerada já como praticamente inevitável

Cimeira dos Açores vai avisar Saddam que o seu tempo está quase esgotado

Hoje, ao princípio da tarde, Bush, Aznar e Blair são recebidos por esta ordem pelo primeiro-ministro português
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Hoje, ao princípio da tarde, Bush, Aznar e Blair são recebidos por esta ordem pelo primeiro-ministro português Eduardo Costa/Lusa

Não haveria, porventura, cenário mais pacífico do que aquele em que hoje decorre uma cimeira de emergência entre o Presidente americano George W. Bush e os chefes dos governos de Londres e de Madrid, Tony Blair e José Maria Aznar, destinada a encenar o último gesto da diplomacia antes de uma guerra, considerada já como praticamente inevitável, contra o Iraque.

Numa paisagem deslumbrante de verde, nada, nem o porte majestoso dos doze aviões de reabastecimento CK-135 alinhados na pista da base das Lajes, na ilha Terceira dos Açores, parece condizer com o dramatismo e a tensão que envolve o encontro dos líderes dos três países do Conselho de Segurança da ONU subscritores de uma resolução destinada a dar luz verde a uma intervenção militar contra Bagdade que parece definitivamente condenada a nunca vir a ser aprovada.

Ontem, sublinhando a tranquilidade da paisagem, foi escasso o movimento militar na base. Em contrapartida, as "guardas avançadas" da diplomacia de Washington, Londres, Madrid e Lisboa estavam já na Terceira para ultimar as conversões entre os líderes e as traves-mestras do que poderá vir a ser o texto da declaração final do encontro.

Hoje, ao princípio da tarde, Bush, Aznar e Blair são recebidos por esta ordem pelo primeiro-ministro português, ao qual cabe o papel de anfitrião da cimeira, mas em cujos trabalhos vai participar integralmente. Durão Barroso descreveu a cimeira dos Açores como "a última tentativa diplomática para encontrar uma saída pacífica" para a crise. A imprensa internacional já a qualificou de "Conselho de Guerra".

A Casa Branca explicou-a como "a última etapa" do processo diplomático. Mas já restam poucas dúvidas de que esta cimeira é apenas o último gesto que George W. Bush estará disposto a fazer em auxílio dos seus dois principais aliados europeus, que enfrentam uma forte contestação interna à opção pela guerra.

Um acto quase desesperado

Principalmente para Londres, o encontro dos Lajes surge como um acto quase desesperado para evitar o pior dos cenários que Tony Blair pode enfrentar: participar ao lado da América numa guerra de cuja justeza não conseguiu convencer os britânicos sem, pelo menos, poder dizer que tem do seu lado uma "maioria moral" no Conselho de Segurança para contrapor à intransigência - e ao veto - da França.

Mas foi justamente da cada vez mais evidente impossibilidade de obter essa "maioria moral" que emergiu a ideia de realizar esta cimeira. Tony Blair obteve de Washington plena liberdade para negociar os termos do projecto de resolução subscrito pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido e pela Espanha para colocar Saddam Hussein perante um derradeiro ultimato cuja data expira já amanhã. Os esforços desenvolvidos pela diplomacia britânica para conquistar o apoio dos seis membros não permanentes do Conselho de Segurança que continuam "indecisos" (Chile, México, Paquistão, Camarões, Angola e Guiné) e para estender a mão a Paris apenas terão contribuído para aumentar ainda mais o caos em que mergulharam as negociações. Ontem, o chefe da diplomacia de Londres, Jack Straw, admitia em declarações à BBC que a guerra "é cada vez mais provável" e considerava haver na resolução 1441 aprovada por unanimidade pelo Conselho de Segurança em Novembro passado a "base legal" para uma eventual intervenção militar.

Tony Blair chega aos Açores numa situação extremamente difícil: encurralado entre a pressa de Bush em pôr fim a um jogo diplomático sem saída e a vontade evidente de uma maioria de membros do Conselho de Segurança de, pelo menos, dar mais algum tempo aos inspectores.

Nos Açores, resta aos três principais protagonistas da cimeira fazer o ponto da situação das negociações no Conselho de Segurança e decidir sobre o passo seguinte: forçar uma votação da segunda resolução, com o risco de se verem em minoria ou, pelo contrário, retirá-la, pôr fim aos esforços diplomáticos e passar à acção, considerando que a resolução 1441 é o suporte legal suficiente para uma intervenção militar.

A dúvida estar em saber até que ponto irá a declaração final da cimeira. Lisboa deseja que ela não vá ao ponto de ser lida como uma declaração de guerra. Mas já restam poucas dúvidas de que será uma declaração "musculada" da qual se pretende que saia um derradeiro e muito explícito aviso a Saddam Hussein de que o seu tempo está esgotado... ou praticamente esgotado.

Em abono dos esforços incansáveis do primeiro-ministro britânico, a Declaração dos Açores conterá também uma referência expressa ao "roteiro" para retomar as negociações de paz do conflito israelo-palestiniano, e mencionará ainda o valor da aliança transatlântica e a importância da sua preservação. Dois argumentos considerados importantes para não quebrar totalmente as pontes entre Washington e uma Europa profundamente dividida.