Portugal acompanhou manifestações em todo o mundo

Marchas contra a guerra no Iraque: 80 mil pessoas em Lisboa e 5 mil no Porto

A multidão que se manifestou em Lisboa concentrou-se durante duas horas na Praça do Rossio
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A multidão que se manifestou em Lisboa concentrou-se durante duas horas na Praça do Rossio Tiago Petinga/Lusa

A marcha contra a guerra no Iraque que hoje decorreu em Lisboa já terminou e juntou 80 mil pessoas, segundo a organização. No Porto, mais de cinco mil pessoas responderam à chamada.

A multidão que aderiu ao apelo do Partido Comunista Português (PCP) e do Bloco de Esquerda (BE) concentrou-se durante duas horas na Praça do Rossio, depois de ter partido do Largo do Chiado e de ter passado pelo Cais do Sodré e pelo Terreiro do Paço.

Gritando palavras de ordem como "Paz sim, guerra não" ou "Nem Bush nem Durão, não à ocupação", os manifestantes da capital contaram com o apoio de figuras de peso, como Mários Soares e Maria de Lourdes Pintasilgo, e com todas as expressões da esquerda portuguesa, desde bloquistas a comunistas, passando por renovadores e por socialistas como Manuel Alegre ou Helena Roseta.

Mário Soares fez um discurso duro contra a Administração Bush, acusando-a de orientar a sua política internacional por interesses económicos.

Na sua intervenção, o ex-Presidente lembrou que "em democracia é o povo quem mais ordena". O actual eurodeputado foi o último orador a subir ao palco montado na Praça do Rossio, em Lisboa, onde terminou a manifestação a favor da paz.

Mário Soares insinuou que uma eventual guerra lançada pelos EUA contra o Iraque "cheira a petróleo" e disse não admitir que o Presidente norte-americano, George W. Bush, "venha com lições sobre direitos humanos" quando não respeita os direitos dos presos detidos na base militar de Guantanamo, em Cuba — essencialmente ex-taliban e alegados apoiantes da rede terrorista Al-Qaeda.

Mário Soares acusou ainda Bush de, "contra tudo e contra todos", não ter aceitado o Tribunal Penal Internacional, precisamente para não ver as tropas americanas serem responsabilizadas por eventuais ataques unilaterais a países soberanos.

Para o ex-chefe de Estado, o recurso à guerra preventiva só se justifica quando se demonstra haver "perigo iminente e imediato" de um país ser atacado.

No Porto, cinco mil pessoas participaram na manifestação convocada por um conjunto alargado de associações cívicas, partidos políticos e sindicatos. Esta terá sido a maior concentração realizada na segunda maior cidade do país desde Junho de 2000, aquando de uma grande demonstração convocada por sindicatos europeus.

Na manifestação de hoje estiveram sobretudo pessoas ligadas ao PCP e BE, cujas bandeiras dominavam a concentração, mas também figuras do Partido Socialista e do Partido Popular, que resolveram não apoiar às manifestações.

José António Gomes, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e principal organizador da manifestação, apelou aos líderes mundiais para darem "prioridade absoluta à paz" e criticou "a máquina de guerra norte-americana presente no Médio Oriente".

Por sua vez, Soares da Luz, da organização ecologista Olho Vivo, afirmou-se muito satisfeito com a dimensão da manifestação e considerou que este tipo de protestos contribuirão para formar "uma bola de neve que vai engrossar cada vez mais, conforme o movimento pela paz se desenvolva".

Na manifestação estava também o militante popular Delfim Sousa, membro do Conselho Nacional do CDS-PP, que justificou a sua presença citando o Papa João Paulo II, que afirmou que "a guerra não é uma fatalidade e que pode perfeitamente ser evitada". "Portugal não é um estado dos Estados Unidos, nem uma região autónoma da Espanha", denunciou Delfim Sousa, que reconheceu que gostaria que Portugal tivesse afirmado uma posição "mais independente" relativamente à questão iraquiana.