Formalista, precisa-se!, para seguir pela estrada do apocalipse

"The Road", de John Hillcoat, e "Cell 211", de Daniel Monzon, puseram-nos a delirar: e se John Carpenter tivesse realizado estes filmes?

Formalista, precisa-se!, foi o que pensámos durante o huis clos presidiário chamado "Cell 211". Alguém como John Carpenter, por exemplo, seria mais do que esforçado - no fundo, a maior qualidade do espanhol Daniel Monzon - no "filme de género". Teria esse género, o "filme de prisão", no sangue. Mas ainda assim, "Cell 211" (secção Giornate degli Autori) é uma razoável surpresa.

O argumento podia dar um filme de estoiro (por exemplo para Don Siegel, lembramo-nos agora de outro cineasta que faria maravilhas aqui).

Um novo guarda prisional apresenta-se orgulhosamente a serviço. A sua primeira vez. Quando estão a ser feitas as apresentações, rebenta uma rebelião na prisão e o novo funcionário, no meio da confusão, da violência e de um acidente que lhe fere a cabeça, é deixado numa cela, a tal 211, na secção dos presidiários mais perigosos, daqueles que não tem nada a perder.

Prisão fechada, prisioneiros amotinados, forças especiais cá fora a preparar uma invasão, e lá dentro, no meio do apocalipse, um guarda que para sobreviver tem que se fazer passar por prisioneiro.

As alianças que vão ser estabelecidas entre Juan, o guarda (Alberto Ammani), e o líder da revolta, Malamadre (Luis Tosar), fazem a sedução e o suspense de "Cell 211". E trocam as voltas ao figurino das personagens: afinal, o maior impostor é o "bom", o mais leal (na verdade, é mesmo o traidor) acaba por ser o perigoso Malamadre. E é de tal forma assim que por este encontro trágico, Juan, o profissional do lado da lei, acaba por se passar para o outro lado.

Jogos, ambiguidade moral, aproximação sensual dos contrários... mas é verdade que o argumento vai sempre à frente da mise-en-scène: a preocupação com a solidez da história e das personagens (e das interpretações dos actores), encontrar verosimilhança para elas, fazer de um género tão americano uma história espanhola. Falta a "Cell 211", para o filme estoirar, o puro deleite com as formas. Falta sentir que um realizador, mais do que se aplicar esforçadamente, se está a recriar fantasticamente.

Isso é um dos problemas do problemático "The Road", de australiano John Hillcoat (competição), que tentou visualizar a deambulação pós-apocalíptica escrita por Cormac McCarthy. O problema é se ele não se intimidou (é caso para isso) com a narrativa de McCarthy, em que um pai (interpretado por Viggo Mortensen) e um filho percorrem um território, a América, que restou de uma catástrofe nuclear, morrendo aos poucos, porque se morre quando se testemunham os sinais de perda de humanidade - embora em The Road a questão também seja o que se ganha na catástrofe.

A sensação que fica é que Hillcoat passa o filme a tentar forçar pontes de reconhecimento com o espectador, para não o deixar a sós, ou seja, sem "narrativa", com um homem, um filho e a desolação e o canibalismo. Por exemplo: a forma como intercala flashbacks, os sonhos de Mortensen, em que aparece a mãe que abandonou esta família. Interpretada por Charlize Theron, esta mãe parece mesmo vir de um filme à parte: é uma reserva de melodrama familiar a dar-se a ver para permitir referências, mas essa interferência causa ruído desnecessário.

Depois, outra forma de "encher", outra forma de preencher o medo do vazio: a música, que é minimal e repetitiva e quase sempre excessiva a decorar (pena ser assim a música assinada por Nick Cave e Warren Ellis).

E sobra pouco para Hillcoat trabalhar o espaço e dar consistência autónoma a uma visão de uma paisagem pós-apocalíptica - autónoma, isto é, que não pareça já mil vezes vista, visualizada e recriada (mas isto pode ser um problema, um ruído, também, para o leitor de McCarthy: ser invadido por imagens que o cinema tornou prontas a consumir).

Quando foi anunciado o nome de John Hillcoat para concretizar "The Road" houve quem pensasse no seu western The Proposition e ficasse à espera, então, de algo mais próximo de um "filme de género" - um western pós-apocalíptico, porque não? -, algo que esticasse ao limite a "paisagem" delineada por McCarthy, sem medos, correndo o risco de lhe ser infiel mas se calhar sendo-lhe fiel de outra maneira. Alguém a quem o cinema estivesse no sangue e não só na cabeça. Pensamos, aqui também, em John Carpenter...

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