No Dia Mundial dos Refugiados, Guterres pede mais apoio e menos fronteiras fechadas

Secretário-geral da ONU destaca “perseverança” e “coragem” de quem foge a guerras e perseguições. Número de deslocados em todo o mundo ultrapassa 110 milhões.

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Dois irmãos sírios reencontram-se após o naufrágio da semana passada ao largo da Grécia Reuters/STELIOS MISINAS
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Uma semana depois de mais uma tragédia com migrantes no Mediterrâneo, e com a guarda costeira da Grécia a ser alvo de acusações de inacção num naufrágio que terá feito mais de 500 mortos, incluindo uma centena de crianças, assinala-se nesta terça-feira o Dia Mundial dos Refugiados — uma oportunidade, segundo as Nações Unidas, "para construir empatia e compreensão pela condição dos refugiados, e para reconhecer a resiliência na reconstrução das suas vidas".

A data é assinalada poucos dias depois de um relatório da ONU ter revelado que o número de pessoas deslocadas em todo o mundo, como resultado de guerras e de perseguição política, ultrapassou os 108 milhões em 2022.

Este número, que será ainda maior no final deste ano — mais de 110 milhões, segundo o alto comissário da ONU para os Refugiados —, inclui pessoas que foram obrigadas a abandonar as suas casas em direcção a outros países (refugiados, 35,3 milhões) ou que tiveram de se deslocar no interior do seu próprio país (62,5 milhões). Outros dez milhões estão em processo de requisição de asilo ou precisam de qualquer outra forma de protecção internacional.

A esmagadora maioria dos refugiados — 76% — encontra-se actualmente em países cujas economias estão entre as mais pobres do mundo, e 70% fugiram para países vizinhos.

"A retórica prevalecente ainda é a de que todos os refugiados vão para os países ricos. Isso não é verdade. O que acontece é precisamente o oposto", disse o alto comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, na apresentação do relatório, na semana passada.

"Na maioria dos casos, o aumento do número de deslocados é um resultado de violência brutal, como no Sudão, ou de um completo desrespeito pela lei internacional humanitária, como o que está a acontecer na Ucrânia, por exemplo", disse Grandi.

"Num ambiente hostil, especialmente em relação aos refugiados, temos visto cada vez mais devoluções forçadas, e regras de imigração e de asilo cada vez mais rígidas. Vemos em muitos países uma criminalização de imigrantes e refugiados, que são culpados por tudo de mal que acontece."

Guterres pede solidariedade

O Dia Mundial dos Refugiados, que se comemora a 20 de Junho desde 2001, foi assinalado nesta terça-feira pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, numa mensagem dirigida a países que defendem políticas de imigração muito restritivas.

"A perseverança dos refugiados em face da adversidade inspira-me a cada dia", disse Guterres, que foi o alto comissário da ONU para os Refugiados entre 2005 e 2015.

"Eles precisam de apoio e merecem a nossa solidariedade — e não merecem ter as fronteiras fechadas nem de devoluções forçadas. Neste Dia Mundial dos Refugiados, eu apelo ao mundo que retribua com oportunidades a coragem deles."

Segundo os números da ONU, há cinco países em todo o mundo de onde fugiram pelo menos cinco milhões de pessoas nos últimos anos, com a Síria e a Palestina a ultrapassarem os seis milhões. Seguem-se a Ucrânia (5,7 milhões), Afeganistão (5,6 milhões) e Venezuela (5,5 milhões).

No lado dos países de acolhimento, destacam-se a Turquia, o Irão e a Jordânia, cada um com mais de três milhões de refugiados nos seus territórios.

Na lista dos dez países com mais refugiados há um europeu — a Alemanha (dois milhões) —, e a Polónia registou um aumento significativo no último ano, com uma esmagadora maioria de refugiados proveniente da Ucrânia, na sequência da invasão russa.

Em relação às populações nacionais, a ilha de Aruba é o território que mais refugiados acolhe em todo o mundo — uma em cada seis pessoas é refugiada, ou precisa de protecção internacional. Seguem-se o Líbano (uma em sete); Curaçau (uma em 14); Jordânia (uma em 16); e Montenegro (uma em 19).

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