Sexo: prazer não é orgasmo e a idade é só um número, diz estudo preliminar

O sentimento de confiança e segurança são fundamentais para o prazer sexual, indiciam os dados preliminares de um estudo que procura entender o prazer sexual dos portugueses.

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A amostra analisada é constituída por pessoas que sentem muito prazer com a sua sexualidade Logan Bannatyne/LoLoStock via Getty

Um novo estudo, cuja primeira análise de dados permitiu elaborar um relatório preliminar, revelado nesta quarta-feira, caracteriza “o prazer sexual como uma experiência complexa que ultrapassa a vivência orgástica”.

O Estudo Prazer Sexual resulta de um trabalho desenvolvido pela investigadora Patrícia M. Pascoal, em colaboração com a sexóloga Marta Crawford, fundadora do Musex – Museu Pedagógico do Sexo, e de Tiago Sigorelho, presidente da Associação Gerador.

Para já, as primeiras conclusões reflectem as respostas de 1624 pessoas, entre os 18 e os 83 anos, que responderam ao inquérito até 23 de Fevereiro. No entanto, a participação esteve aberta até esta quarta-feira, existindo ainda respostas por estudar. Da amostra preliminar, a maioria identifica-se como mulher (63%) e como heterossexual (78%) e cerca de 63% estão em relações monogâmicas, apesar de haver quem assuma relações extraconjugais e relacionamentos não monogâmicos consensuais.

O relatório conclui que o prazer sexual “se caracteriza por ser uma experiência emocional, psicológica e relacional intensa, enquadrada em experiências prévias e pela forma como as características individuais se conseguem exprimir nos contextos actuais de vida”.

De acordo com os dados revelados, foi possível determinar que nem a idade nem a longevidade de uma relação são determinantes para se ter prazer sexual. No entanto, “a existência de problemas psicológicos e a ansiedade durante actividade sexual” prejudicam a experiência sexual, assim como “a insatisfação com a imagem corporal”. E as duas questões afectam de forma distinta diferentes faixas etárias. Enquanto a primeira é transversal, a segunda é mais sentida pelos mais jovens, que associam frequentemente “a falta de prazer sexual” à “insatisfação com a imagem corporal”.

Entre os motivos para a insatisfação corporal encontra-se o excesso de peso geral ou localizado, de pêlos e de flacidez, envelhecimento, estar fora de forma e alterações após a gravidez. Nos inquiridos com mais de 35 anos essa questão parece esbater-se.

“Estes resultados podem reflectir quer o efeito da idade, uma vez que em diferentes fases do percurso de vida e perante diferentes tarefas a imagem pode pesar menos na apreciação e estima globais, quer o efeito do contexto cultural, uma vez que as pessoas mais velhas estiveram menos expostas à divulgação e apreciação massiva e regular da sua imagem em diferentes plataformas”, analisa o documento (para ler na íntegra, está disponível o pdf).

Ainda assim, ressalva a investigadora principal, Patrícia M. Pascoal, “a amostra deste estudo é constituída por pessoas que sentem muito prazer com a sua sexualidade”, o que exige que os dados sejam interpretados tendo essa ideia presente.

Ao PÚBLICO, a também directora do mestrado Transdisciplinar de Sexologia da Universidade Lusófona, explica este facto indicando que a participação neste tipo de estudo é mais fácil para quem se sente confortável com o tema. “Pessoas que sentem níveis baixos de prazer sexual terão, compreensivelmente, mais dificuldade em participar num estudo deste tipo.”

No entanto, mesmo numa amostra com pessoas que sentem muito prazer, 17% referiram um problema sexual. E a maioria (56%) diz não ter acompanhamento clínico por, entre outros motivos, dificuldades financeiras ou falta de fé na eficácia das intervenções. No entanto, frisam que gostariam de obter ajuda médica.

Comunicação, pilar do prazer

No relatório preliminar também se apontam caminhos para melhorar o prazer sexual. Um deles passa pela “comunicação explícita acerca do que se gosta ou não sexualmente”. Mas não só: “O nível de proximidade, a iniciativa e a prática de sexo oral estão associados significativamente ao prazer sexual”, esclarecem. Já a duração do relacionamento não parece ter impacte no prazer sexual. Ou seja, não importa se a vida a dois é longa ou se ainda se está a viver os primeiros tempos de uma paixão.

Mas o prazer não está preso à necessidade de haver outra pessoa na equação. Enquanto menos de metade (48%) disse ter sexo pelo menos uma vez por semana, 65% dos inquiridos afirmaram masturbarem-se.

A masturbação foi considerada, porém, uma fonte de prazer menos intensa do que a actividade sexual com outros e encarada de formas muito diferentes. Enquanto para uns, funciona como “indutor de relaxamento”, para outros, é “um momento de frustração e tristeza”. As razões desses sentimentos negativos, explica-se, podem estar relacionadas com a “insatisfação na vida sexual” ou com a culpa associada à necessidade de “recorrer à imaginação ou à pornografia”.

Quanto aos comportamentos sexuais, cerca de 90% tentam novas posições sexuais com alguma regularidade e à volta de 80% disseram assistir a pornografia sozinhos. Cerca de 65% revelaram usar um brinquedo sexual e a mesma percentagem adiantou fazer sexting com consentimento. Uma em cada quatro pessoas disse ainda fazer sexo sado-maso ou fetichista com alguma regularidade e uma em cada cinco pratica cibersexo.

Nos comportamentos, Patrícia M. Pascoal adiantou ao PÚBLICO que “as análises preliminares mostram diferenças muito residuais, quase sem significado”, entre as pessoas que se identificam como homens e mulheres. A excepção é a masturbação, “mais frequente nos homens”. Da amostra, 63% dos participantes identificaram-se como mulheres e 34% como homens; duas pessoas identificaram-se como fluidas, uma como gay, uma como homem não binário, uma como homem trans e outra como trans não binária.

A investigação resulta de uma parceria do Musex com o mestrado Transdisciplinar de Sexologia da Universidade Lusófona, a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC) e a Associação Gerador.

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