Alentejo: Cabeça Gorda, com “afecto e memória”. Uma viagem pela lembrança

O leitor Diogo Palma explica por que é que esta aldeia do Baixo Alentejo é a sua fuga perfeita. Ali, “um simples passeio de bicicleta” contenta.

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Pela Cabeça Gorda Diogo Palma
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Pela Cabeça Gorda Diogo Palma

Cabeça Gorda — é este o nome do meu local de fuga. Aldeia do Baixo Alentejo, que dizem nascida em 1901, está, tal como as demais por estas bandas, deveras envelhecida e habitada por poucos, sendo as suas principais actividades a agricultura e a pecuária, sustento das famílias que ali residem. Não seria de esperar que eu, enquanto lisboeta, fosse escolher esta freguesia mas, seja por admiração do lugar, seja pelas relações familiares a que ele me conduz, é mesmo o que mais aprecio.

Ao entrarmos em Cabeça Gorda deparamo-nos com a simplicidade e ligação à natureza que a localidade apresenta. As próprias estradas que a servem são rodeadas por árvores e vastos campos agrícolas e, já na aldeia em si, percebemos que este sentimento não é vão. Ali observamos a forma como aquela mini-sociedade se revela: as casas características de famílias dadas à actividade agrícola com largas quintas e casarões, onde a maquinaria do trabalho é guardada, as casas modestas no centro da aldeia (não que as outras não o sejam igualmente), os vários campos agrícolas em torno, os longos caminhos de terra batida que a eles nos levam e, acima de tudo, as pessoas, que, com o seu jeito calmo e simples, levam a vida num modo que qualquer “rato de cidade” estranharia.

Não fosse o meu conhecimento já do local, também me surpreenderia a familiaridade dos residentes, os cumprimentos entre duas pessoas que até podem nem se conhecer ou até a forma de comunicarem. Saliento também a atmosfera deste sítio que, inteiramente diferente daquela a que estou habituado, se nos revela reconfortante logo após os primeiros minutos da chegada.

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Não faria jus a Cabeça Gorda e à relação que tenho com este espaço se não referisse a minha família. Afinal, se não fosse por ela, nunca teria conhecido esta minha fuga. Diria que representam os habitantes característicos da aldeia no seu modo feliz e tranquilo. Muito provavelmente, esse modo de vida, tão contrastante com o da capital, foi o que me agradou desde pequeno e uma das principais causas para o meu retorno repetido. O próprio jeito como convivem no dia-a-dia, mesmo vivendo cada um o seu trabalho árduo, é o que me marca. Claro que não existem só momentos de felicidade mas, ali, junto deles, todos nós reunidos naquele lugar, um simples passeio de bicicleta me contenta.

Acabei por não descrever Cabeça Gorda numa perspectiva de crónica de viagens, talvez mais na de afecto e memória. Será suficiente para mostrar a fantástica fuga que esta aldeia proporciona a qualquer um que por ela queira passar. No fim de contas, não é qualquer lugar que nos desprende do pensamento só pela sua lembrança.

Diogo Palma

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