As dimensões do caso Marega

O futebol, tantas vezes justamente criticado por funcionar como uma espécie de refúgio da mediocridade, tem aqui a oportunidade de dar o pontapé de saída num desafio essencial para a democracia: a luta contra o racismo.

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Marega LUSA/HUGO DELGADO

Não vale a pena fazermos exercícios de contorcionismo que procurem justificar o injustificável. Não faz sentido andarmos à procura de nuances cuja única função é relativizar o problema e esconder a realidade. Não há volta a dar, o que aconteceu com Moussa Marega, jogador maliano do FC Porto, que, imagine-se, também já passou pelo Vitória SC, é evidentemente um caso de racismo. O facto de para alguns isto não ser assim tão cristalino só demonstra o quão banalizados e enraizados estão os comportamentos racistas em Portugal, uma prática que agora surge “legitimada” pelo aparecimento de um partido abertamente racista e xenófobo. Mas a este ponto voltaremos mais adiante.

Tratando-se de um dos momentos mais lamentáveis da história do desporto português, os comunicados e as reacções condenatórias têm-se multiplicado. A Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal, o Governo, os principais clubes nacionais e a própria comunicação social manifestaram pronta e firmemente a sua indignação e repúdio perante o sucedido. Há quem desvalorize este tipo de unanimidades, seja porque servem (também) para ficar bem na fotografia, seja porque não resolvem nenhum problema de fundo. Se é certo que a indignação em uníssono não resolve os problemas nem muda as mentalidades, ela não deixa de ser um primeiro passo importante para defrontar o problema do racismo em Portugal.

Mas, para lá da resposta imediata expressa na indignação, é importante que este caso funcione como dissuasor e resulte na punição exemplar dos adeptos racistas e do seu clube. Para que tal aconteça é necessário que as instâncias da justiça desportiva deixem de se comportar como polícias de trânsito para quem tudo se resolve com uma multa, e apliquem sanções que incomodem verdadeiramente, como a interdição dos estádios, a perda de pontos, ou, inclusivamente, a exclusão temporária das competições. O futebol, tantas vezes justamente criticado por funcionar como uma espécie de refúgio da mediocridade, tem aqui a oportunidade de dar o pontapé de saída num desafio essencial para a democracia: a luta contra o racismo.

Para lá da confirmação do racismo como um problema estrutural da sociedade portuguesa, o caso Marega serviu também para desfazer alguns equívocos no plano político. Primeiro, no que à política dos clubes diz respeito, veio reforçar (como se fosse necessário) o papel das claques enquanto entidades obscuras que incitam ao ódio e promovem a violência, e que não têm qualquer interferência positiva no desporto. Exemplo disso mesmo é o inenarrável comunicado da claque do Vitória SC, os White Angels, que parece ter sido escrito por alguém a atravessar uma fase complicada. Para quando a abolição destes epicentros de delinquência, é o que se pergunta.

Também no plano da política partidária o caso Marega é esclarecedor. Se dúvidas restavam sobre a natureza racista e xenófoba do Chega, André Ventura tratou de as dissipar. Mesmo tendo em conta todos os seus desvarios populistas desde que foi eleito deputado, havia um lado algo patusco na personagem vinda das zaragatas televisivas que nos poderia tranquilizar um pouco. Pois bem, depois de uma intervenção grotesca onde apelida de hipócrita quem defende a atitude do jogador, essa pretensa tranquilidade desapareceu. Foi ultrapassado um limite que nenhum democrata pode ultrapassar: o respeito pela dignidade humana.

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