“O Quarto Mandamento” (“The Magnificent Ambersons”), de Orson Welles (1942)

Podemos apreciar a poesia da narração feita pelo próprio Welles e a pontuação da acção pelos comentários de alguns cidadãos em primeiro plano, como um coro do teatro grego antigo

Poster do filme “O Quarto Mandamento”, de Orson Welles (1942) DR
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Orson Welles. Em 1937 o Mercury Theatre, em 1938 a adaptação radiofónica de “A Guerra dos Mundos”, em 1941 a apresentação pública de “O Mundo a Seus Pés”. Tal como Michael Curtiz com “Casablanca”, “Citizen Kane” tornou-se o símbolo de Orson Welles, ultrapassando a aparente mácula de fracasso comercial na estreia com o superlativo doméstico que foi adquirindo ao longo do tempo de “o melhor filme de todos os tempos”.

Justa ou exagerada, uma tal classificação – ainda para mais dada a uma primeira obra – é um termo de comparação com as obras seguintes que tende a apoucá-las, perseguindo o seu autor com a implausibilidade de replicação do que é, por definição, excepcional.

“O Quarto Mandamento” aparece como essa dupla tentativa: por parte do estúdio, a RKO, de promover a continuação da fórmula inventada pelo jovem criador; por parte de Welles, de superação do padrão fixado por “O Mundo a Seus Pés”, ou seja, de auto-superação.

Mas o maior problema de “The Magnificent Ambersons” veio a ser a reacção fortemente negativa do público que assistiu à antestreia de teste, que, em cartões distribuídos para o feito, se queixou do carácter deprimente da história, numa época em que a população norte-americana, tendo acabado de experimentar o choque do ataque japonês a Pearl Harbor, pedia gargalhadas.

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Com Orson Welles ausente do país, preparando um novo projecto cinematográfico no Brasil, o presidente da RKO, George J. Schaefer, mandou cortar cerca de 50 minutos ao filme, destruir as cenas cortadas para que fosse impossível reconstituir a versão do realizador, e acrescentar um “final feliz” feito com cenas rodadas sob a direcção de Fred Fleck e Robert Wise. Foi essa a versão a que os espectadores tiveram acesso desde então.

E o que sobrou da severidade desses cortes que seja digno de admiração? Pelo menos, a sensação da importância de se chamar Amberson. Depois, a arrogância de se chamar George Amberson e, mais tarde, a tragédia de se ser George Amberson e de arrastar a família para o abismo. Entre esses momentos, podemos apreciar a magnificência da casa dos magníficos Ambersons como espaço cénico, as filmagens em claro-escuro, a direcção de actores como Joseph Cotten, que já vimos em “O Retrato de Jennie”, e Agnes Moorhead, que não se celebrizou pelas suas quatro nomeações para o Óscar de melhor actriz secundária, mas por ter sido na televisão a mãe de Samantha na série “Casei com Uma Feiticeira”.

Podemos apreciar, enfim, a poesia da narração feita pelo próprio Welles e a pontuação da acção pelos comentários de alguns cidadãos em primeiro plano, como um coro do teatro grego antigo. E podemos entrever a ideia de que este poderia ter sido melhor ainda do que “o melhor filme de todos os tempos”, se é que tal filme existe.

Mas os tais 50 minutos perdidos, a montagem do realizador e a música de Bernard Herrmann que desapareceu com a mutilação operada (Bernard Herrmann impediu que o seu nome figurasse no genérico) dariam jeito para que “The Magnificent Ambersons” participasse nesse concurso. Mesmo, assim, é qualquer coisa de notável.

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