Berlim dá Urso de Ouro a Gianfranco Rosi e Melhor Curta a Leonor Teles

Portuguesa Leonor Teles ganha com Balada de um Batráquio. O documentário de Gianfranco Rosi, Fuocoammare, aborda a crise dos refugiados em Lampedusa.

“Este filme é o melhor exemplo do que a Berlinale significa, hoje, em Fevereiro de 2016.” Foi com estas palavras que Meryl Streep, presidente do júri, atribuiu o Urso de Ouro do 66º Festival de Berlim a Fuocoammare, o documentário de Gianfranco Rosi que aborda a crise dos refugiados em Lampedusa. Um filme “urgente, imaginativo e necessário” nas palavras da actriz, que “exige tomar lugar à nossa frente e instiga ao nosso envolvimento e à nossa acção”. 

Mas também um filme que se inscreve sem surpresas na linhagem “política”, interveniente, de um festival que viveu muitos anos à sombra do Muro. Ao receber o prémio, o realizador italiano (já vencedor do Leão de Ouro de Veneza por Sacro GRA, em 2013) dedicou o seu filme “àqueles cujas viagens de esperança nunca chegaram a Lampedusa” e aos habitantes da ilha que “há 23 anos abrem os seus corações àqueles que ali chegam.”

Era o Urso de Ouro que se anunciava desde que o filme foi mostrado logo no início do certame, face à presença constante da crise dos refugiados nas primeiras páginas dos jornais e à vocação activista de Berlim – o festival colocara inclusive este ano caixas em todos os recintos do festival, incentivando os espectadores a contribuir para ajudar aqueles que procuram refúgio na Europa. A cerimónia de entrega dos prémios, na noite de sábado, já dera sinais disso, com dois prémios na competição de curtas-metragens a irem para filmes sobre refugiados (Anchorage Prohibited, do taiwanês Chang Wei Yang, e A Man Returned, do libanês Mahdi Fleifel).

Logo a seguir, contudo, o Urso de Ouro das curtas vai para um dos dois filmes portugueses a concurso, Balada de um Batráquio de Leonor Teles, lúdica exploração em dez minutos das superstições, dos mal-entendidos e da xenofobia para com a etnia cigana, a propósito da superstição de colocar sapos de louça à porta das lojas para impedir a entrada de ciganos. Nas palavras genuinamente surpreendidas da jovem cineasta – nascida em 1992, é a mais jovem vencedora de sempre de um Urso de Ouro, de etnia cigana por parte do pai - “nunca pensei que um filme tão parvo pudesse ganhar um prémio como este”. Mesmo que de parvo o filme não tenha nada.

E, de repente, a dúvida: face à presença de Cartas da Guerra de Ivo Ferreira na competição principal, será que se vai repetir 2012? O ano em que João Salaviza venceu o Urso de Ouro das curtas por Rafa e Miguel Gomes o prémio Alfred H. Bauer para um filme que “abre novas perspectivas à arte cinematográfica” por Tabu? Afinal, não foi isso que aconteceu: o Alfred Bauer foi para as oito horas de A Lullaby to the Sorrowful Mystery de Lav Diaz (prémio que o realizador filipino dedicou a “todos aqueles que acreditam que o cinema pode mudar o mundo”) – e a segunda curta de Leonor Teles após Rhoma Acans (premiado no IndieLisboa e em Vila do Conde 2013) ficou como único filme português a sair de Berlim 2016 com prémio.

O júri do concurso principal - composto, para além de Meryl Streep, pela actriz Alba Rohrwacher, pela fotógrafa Brigitte Lacombe, pela realizadora Malgorzata Szumowska, pelos actores Clive Owen e Lars Eidinger e pelo crítico Nick James - soube “dividir o mal pelas aldeias” com alguma elegância, num ano em que a competição oficial não cumpriu muitas das suas promessas. O bósnio Danis Tanovic repetiu com Death in Sarajevo o Grande Prémio do Júri, três anos depois de An Episode in the Life of an Iron Picker; o novo filme adapta uma peça do pensador francês Bernard-Henri Lévy e questiona o futuro do projecto europeu a partir das feridas abertas nos Balcãs, aproveitando o centenário da I Guerra Mundial. A francesa Mia Hansen-Løve venceu o prémio de realização por L'Avenir, agradecendo a Isabelle Huppert no papel de uma professora que vê a sua vida desintegrar-se em câmara lenta.

A dinamarquesa Trine Dyrholm foi melhor actriz em The Commune de Thomas Vinterberg, sobre um casal que forma uma colectividade comunitária na Dinamarca dos anos 1970, e o tunisino Majd Mastoura melhor actor no papel-título de Hedi, de Mohamed Ben Attia, sobre um jovem tunisino espartilhado pela sua vida rotineira, filme que recebeu ainda o troféu de melhor primeira longa-metragem atribuído por um júri separado. 

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