Em educação, menos pode ser mais

Já conheci pais que andam a visitar colégios munidos de parâmetros elencados numa folha de Excel, através dos quais procuram estabelecer uma comparação entre estabelecimentos de ensino.

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"O envolvimento precoce com demasiados professores pode afetar a vinculação profunda a um adulto de referência" Adriano Miranda (arquivo)
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Existem escolas privadas que procuram acompanhar a intensidade parental vigente nos nossos dias com uma oferta pedagógica igualmente intensiva, destinada a cativar potenciais clientes com poder de escolha. A lógica que preside a este tipo de opção é de caráter aditivo, baseada no pressuposto do quanto mais melhor, que conota a quantidade de atividades disponibilizadas pela escola com a qualidade do seu projeto educativo.

Esta lógica assenta numa ideia mercantilista da educação que visa a maximização da oferta, estabelecida enquanto forma de competição entre escolas. Já conheci pais que andam a visitar colégios munidos de parâmetros elencados numa folha de Excel, através dos quais procuram estabelecer uma comparação entre estabelecimentos de ensino, como se de um ranking se tratasse, com o objetivo de escolher a proposta mais vantajosa para os seus filhos.

Este tipo de opções educativas de alta intensidade costuma concretizar-se através de horários extremamente densos, colados nas portas dos frigoríficos das famílias, para que os pais consigam acompanhar tamanha diversidade de oferta, que não raras vezes contempla duas ou mais atividades em cada dia da semana. Quando vejo este tipo de horários, não consigo deixar de me surpreender. E, depois, de me indignar. Para, a seguir, me inquietar. Porque, quando vejo esses horários, há uma pergunta que se torna emergente: em que momento se está a perder a infância daquela criança?

A valorização deste tipo de critérios para a comparação entre escolas parece-me, antes de tudo o mais, simplista. A visão que tenho da educação leva-me a acreditar precisamente no contrário. Confio no princípio de que, no início da educação pré-escolar, menos pode ser mais. E esse menos pode ser mais na medida em que corresponde àquilo de que as crianças mais necessitam neste momento do seu desenvolvimento. E aquilo de que mais necessitam é a vinculação emocional profunda ao seu adulto de referência, com o qual precisam de estabelecer uma relação de confiança, que lhes dê segurança para avançarem nas suas conquistas.

Esta opção não corresponde, de modo algum, a um empobrecimento curricular, tanto mais que os educadores de infância têm formação adequada para desenvolver todas as áreas elencadas nas orientações curriculares destinadas à educação pré-escolar. Mas esta posição também não é contrária ao reforço das equipas pedagógicas com professores especialistas, com uma formação direcionada para as áreas que lecionam. O cerne da questão prende-se com o timing do alargamento do número de professores que interagem com as crianças e da introdução de novas atividades no horário semanal.

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O processo educativo deve ser suficientemente sensível para abrir intervalos de tempo Getty Images

Se realizado demasiado cedo, o envolvimento precoce com demasiados professores pode afetar a vinculação profunda a um adulto de referência, introduzindo um deslassamento dos afetos e conduzindo a relações emocionais mais frágeis, que não são propícias a criar a segurança de que as crianças necessitam, nem a desenvolver o seu sentido de pertença. Contrariando este modelo, a introdução de novos docentes pode fazer-se ao longo da educação pré-escolar, alargando gradualmente o número de professores e diversificando o leque de experiências dos mais novos.

A introdução de um número excessivo de atividades na educação pré-escolar pode estar assente em dois equívocos. O primeiro consiste na crença de que as atividades orientadas por adultos são mais úteis para o desenvolvimento infantil do que as não orientadas, consideradas de certa forma como inúteis ou, pelo menos, como menos úteis. Na verdade, estes dois tipos de atividades — as orientadas e as não orientadas — devem ter lugar na vida das crianças, ao longo do seu crescimento. Mas há aprendizagens que as crianças só têm oportunidade de realizar em interação com os seus pares, desfrutando das brincadeiras que espontaneamente acontecem e procurando resolver os atritos que naturalmente surgem na relação com os outros.

O segundo equívoco prende-se com a ideia de que a quantidade é sinónimo de qualidade, sem ponderar que o excesso de atividades induz uma aceleração generalizada da perceção do tempo, que gera intranquilidade, desassossego, dispersão e volatilidade de atenção. Se pensarmos que são precisamente estas as dificuldades que muitas crianças dos nossos dias enfrentam perante a aprendizagem, é caso para nos questionarmos: será que, de tanto lhes queremos dar, não estaremos, pelo contrário, a tirar-lhes?

Esta visão da educação assente na hipervalorização do tempo destinado à ação, em detrimento do tempo investido no desenvolvimento do ser, não deixa de ser redutora. É que o ser humano não se esgota naquilo que faz; o ser humano alimenta-se daquilo que é. E se a ação pode ser importante para sabermos quem somos, é aquilo que somos que deverá estar na base daquilo que fazemos. O processo educativo deve ser suficientemente sensível para abrir intervalos de tempo durante os quais o ser da criança tenha a possibilidade de se expandir.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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