Oposição venezuelana impedida de apresentar candidatas às eleições

Nem a principal líder da oposição ao chavismo nem a candidata alternativa puderam formalizar as suas candidaturas às eleições presidenciais. EUA e Brasil manifestam preocupação.

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María Corina Machado foi eleita como candidata da oposição, mas está impedida de concorrer a cargos públicos EPA/Miguel Gutierrez
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A oposição venezuelana viu-se sem poder apresentar candidatos às eleições presidenciais de 28 de Julho e acusou o regime de Nicolás Maduro de bloquear qualquer alternativa ao chavismo.

A Plataforma de Unidade Democrática (PUD), a coligação que congrega os principais partidos opositores ao chavismo, revelou que a tentativa de registo da sua candidata, a historiadora Corina Yoris, não foi bem-sucedida por uma alegada falha informática. O período de apresentação das candidaturas terminou na segunda-feira.

Yoris, uma académica de 80 anos que nunca desempenhou um cargo público, foi escolhida como alternativa a María Corina Machado, a principal líder da oposição que foi eleita nas primárias de Outubro passado com mais de dois milhões de votos. Corina Machado está impedida por uma decisão judicial de se candidatar a cargos públicos, num caso que diz ser politicamente motivado, e anunciou que Yoris seria a candidata da PUD.

No entanto, a candidatura não pôde ser registada até à meia-noite de segunda-feira nem foi permitido que os membros da equipa de Yoris pudessem fazer o registo directamente na sede do Conselho Nacional de Eleições (CNE), em Caracas, por razões de segurança. No mesmo dia, Maduro e vários elementos da elite governamental chavista foram pessoalmente à sede do organismo eleitoral, controlado pelo regime, para formalizar a candidatura e não foram autorizadas entradas por se temer um ataque contra o Presidente, segundo o El País.

Ao apresentar a sua própria candidatura, Maduro dirigiu palavras duras à oposição que acusou de ser manobrada por “marionetistas”. “Eles são arrastados pelo imperialismo, são o anti-projecto, têm ambições pessoais, o seu objectivo é entregar o país às garras do império norte-americano, são a desesperança, o nada, o passado falhado”, afirmou.

Sem poder apresentar um candidato competitivo, restam poucas opções à coligação oposicionista que tinha a esperança de poder vir a contar com eleições justas e livres depois de se ter sentado à mesa durante vários meses com o Governo de Maduro. Contra o actual Presidente concorrem apenas candidatos vistos como pouco ameaçadores e, em alguns casos, até próximos do chavismo.

As únicas possíveis excepções são as candidaturas de Manuel Rosales, um dos poucos opositores do regime que venceu eleições nos últimos anos quando conseguiu ser eleito governador do estado de Zulia, e de Enrique Márquez, um político muito pouco conhecido.

Esta terça-feira, Corina Machado denunciou os expedientes do CNE para impedir a candidatura de Yoris. “Assim vai este regime que se nega a competir com uma mulher académica de 80 anos”, afirmou a líder opositora. “O regime escolheu os seus candidatos”, lamentou Machado, garantindo que Yoris irá continuar a ser a candidata da PUD.

Com a perspectiva de uma possível divisão de votos entre os eleitores que querem o fim do chavismo, Maduro parece ter um caminho relativamente facilitado para se manter no poder. A pressão sobre a oposição tem sido cada vez mais elevada e nas últimas semanas vários membros da equipa de campanha de Machado tinham sido detidos.

Os EUA voltaram a impor algumas das sanções que tinham sido levantadas durante o processo de negociações entre o Governo e a oposição, e mostraram-se preocupados com a exclusão dos candidatos da PUD. “É crucial que o regime de Maduro reconheça e respeite o direito de todos os candidatos poderem concorrer. Apelamos a Maduro que o faça”, afirmou o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca através de um comunicado.

Também o Governo brasileiro, que até agora tinha ensaiado uma reaproximação com Caracas, manifestou “preocupação” com o processo eleitoral venezuelano.

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