Chega não é o primeiro partido a “vencer mesmo” as legislativas na emigração

Ventura disse que o Chega foi o primeiro partido a passar os 50 mil votos nos círculos eleitorais do estrangeiro e a “vencer mesmo” na emigração. Resultados de há dois anos contrariam-no.

Foto
André Ventura deu entrevista à RTP3 horas antes de Montenegro ter sido indigitado Reuters/Pedro Nunes
Ouça este artigo
00:00
03:31

A afirmação

"Acho que é possível haver consensos entre os três maiores partidos agora, uma vez que o bipartidarismo acabou em Portugal e hoje, com a emigração, acho que isso ficou claro. Pela primeira vez um partido vence mesmo na emigração. É a primeira vez que acontece. É a primeira vez que um partido passa os 50 mil votos na emigração. Era importante que os portugueses soubessem isto" — André Ventura em entrevista à RTP3

O contexto

O presidente do Chega, a terceira maior força política em Portugal, deu uma entrevista à RTP3, no programa Grande Entrevista, poucas horas antes de Luís Montenegro ter sido indigitado primeiro-ministro e numa altura em que ficou conhecido o resultado eleitoral dos emigrantes.

Preponderantes para definir os resultados das últimas eleições legislativas, que se realizaram no dia 10 de Março, os emigrantes deram a vitória ao Chega, que conquistou assim mais dois deputados. A Aliança Democrática (AD), liderada pelo líder social-democrata e vencedor final das eleições, conquistou um mandato. O Partido Socialista (PS), que ficou em terceiro nos círculos eleitorais estrangeiros, também elegeu mais um deputado na Assembleia da República.

Em entrevista ao jornalista Vítor Gonçalves, André Ventura disse acreditar que seria possível haver um consenso entre os três maiores partidos em temas fulcrais como a justiça, a saúde ou a educação porque "o bipartidarismo acabou em Portugal". Prova disso, aponta, são os resultados agora conhecidos no estrangeiro — e contextualiza com duas informações a vitória que elas representam para o Chega: alegou que é a "a primeira vez que um partido vence mesmo na emigração" e também a "primeira vez que um partido passa os 50 mil votos na emigração".​

Os factos

Acontece que nenhuma dessas informações é verdadeira — e basta recuar até às eleições legislativas de 2022 para encontrar os dados que contrariam as palavras do presidente do Chega. Nas legislativas de há dois anos, o PS venceu com 31,79 % dos votos, mais de 55 mil boletins a seu favor e três mandatos conquistados.

Portanto, não é a primeira vez que um partido "vence mesmo" na emigração, nem que passa os 50 mil votos: ainda há dois anos, os socialistas conseguiram vencer nos círculos eleitorais no estrangeiro com mais mandatos do que o Chega agora (três deputados); e arrecadaram 55.250 votos.

Aliás, só nas eleições legislativas deste ano, tanto o segundo como o terceiro partidos mais votados conseguiram mais de 50 mil votos entre os emigrantes: a AD, com 16,79%, teve 55.986 votos; e o PS, com 15,73 %, contabilizou 52.471. O Chega conquistou 61.039 votos — e isso sim representa um recorde do número absoluto de votos entre os estrangeiros em eleições legislativas. Mas esse dado não se traduziu nem na maior conquista de mandatos de sempre, nem na maior percentagem de votos de que há registo.

O veredicto

As afirmações que André Ventura proferiu na entrevista de quarta-feira à noite na RTP3 são falsas. O resultado eleitoral conquistado pelo Chega nos círculos estrangeiros, com o maior número absoluto de votos num partido em legislativas entre os emigrantes, não se traduz na primeira vitória de um partido.

O Chega não foi o partido que mais mandatos conquistou entre os emigrantes na história das legislativas, nem o que registou maior percentagem em toda a história democrática portuguesa no estrangeiro. De resto, até mesmo os segundo e terceiro lugares nas últimas eleições conquistaram mandatos e tiveram ambos mais do que 50 mil votos.

Sugerir correcção
Ler 22 comentários