França investiga suspeita de corrupção no grupo Altice

Investigadores franceses querem saber se houve crimes e tentativa de encobri-los.

Foto
Drahi começou por fundir a Numericable e SFR para construir um grupo de telecomunicações em França © Philippe Wojazer / Reuters
Ouça este artigo
00:00
03:29

A justiça francesa abriu uma investigação preliminar a possíveis casos de corrupção no grupo Altice depois das situações detectadas em Portugal. A investigação (conduzida pelo Parquet National Financier (PNF), procuradoria das finanças francesa, especializada em crime económico) está à procura de indícios de corrupção e branqueamento de capitais, bem como de possíveis tentativas de ocultação destes crimes, noticiou a Bloomberg esta sexta-feira, citando fontes próximas da investigação.

O inquérito francês, que se seguiu à detenção, em Julho do ano passado, em Portugal, do co-fundador da Altice Armando Pereira e do seu parceiro de negócio Hernâni Antunes, teve início em Setembro e abrange o universo Altice que tem activos como a operadora de telecomunicações SFR e a estação de televisão BFM.

Armando Pereira, que está indiciado em Portugal por seis crimes de corrupção activa, um crime de corrupção passiva e quatro de branqueamento de capitais, pagou uma caução de dez milhões de euros para deixar de estar em prisão domiciliária, mas continua a ser persona non grata na Altice. Apesar de, como escreve o jornal Le Monde, nunca ter sido alvo de uma queixa formal, nem em França, nem em Portugal, por parte da empresa liderada por Patrick Drahi.

Em declarações aos analistas depois de conhecida a investigação, o empresário franco-israelita disse sentir-se “enganado” e garantiu que a Altice foi uma vítima neste processo.

À Bloomberg, o advogado de Armando Pereira garantiu que o ex-número dois da Altice “só quer uma coisa”: “que a investigação avance o mais depressa possível e de forma eficaz”. O advogado, Jean Tamalet, acrescentou que Pereira espera ser ouvido “em breve, para que o seu nome seja limpo”. Pretende ainda que os contratos da Altice com fornecedores em França sejam auditados de modo a perceber se a Altice foi penalizada e, se assim foi, quem beneficiou com isso.

Uma das pessoas implicadas na investigação, e posteriormente afastada de funções, foi o genro de Armando Pereira, Yossi Benchetrit (casado com Gaëlle Pereira Benchetrit, filha de Armando Pereira), que era “chief procurement e programming officer” na Altice USA – algo como director de compras – e, por isso, era determinante na escolha dos fornecedores de equipamentos e serviços da empresa.

Os investigadores acreditam que Benchetrit abriu caminho a intermediárias como a Holbox e a Southport, sendo alegadamente remunerado por esta colaboração a partir das sociedades de Hernâni Antunes nos Emirados Árabes Unidos. O Ministério Público sustenta também que Armando Pereira pediu a David Benchetrit, pai de Yossef, que agisse como testa-de-ferro para ocultar a sua participação em várias empresas.

Segundo o Le Monde, na sequência da investigação portuguesa e posterior auditoria interna na SFR, cortaram-se os laços aos fornecedores com ligações a Armando Pereira – à semelhança do que aconteceu em Portugal.

O jornal francês dá o exemplo do fim dos contratos com a IT Center (serviços informáticos), a Tirion (responsável pela manutenção e arranjos das lojas da SFR e estúdios da BFM-TV), a JPN (responsável pela climatização dos escritórios), e a Aciernet e Edge Technologies (responsáveis pela aquisição de equipamentos de telecomunicações).

Drahi fundou a Altice em 2002 com Armando Pereira, expandindo-a através de operações de aquisição – na Europa e Estados Unidos da América (EUA) – financiadas com recurso a dívida, que hoje ronda os 55 mil milhões de euros.

Em França, depois de comprar a operadora de cabo Numericable, a Altice avançou para a compra da SFR e, quase em simultâneo, para a aquisição da antiga Portugal Telecom, hoje Altice Portugal. Nos Estados Unidos comprou a Suddenlink Communications e a Cablevision.

Hoje está em processo de venda de activos, uma lista em que se inclui a operação portuguesa.

Sugerir correcção
Ler 1 comentários