São os heróis que nos ajudam a cumprir os sonhos

Construir um propósito e significado de vida envolve a construção de narrativas. Usamos histórias para organizar ideias, construir identidades e darmos sentido aos problemas que enfrentamos.

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O antigo presidente sul-africano Nelson Mandela conversa com o então presidente em exercício Frederik Willem de Klerk em Pretória, África do Sul, 4 de Fevereiro de 2010 EPA/STR
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Tive oportunidade de o ver e ouvir num congresso, há mais de 15 anos. Visto de perfil é uma silhueta peculiar, confundindo-se com um dos seus temas de estudo. Philip Zimbardo é psicólogo e autor do livro The Lucifer effect: Understanding how good people turn evil”. A prisão de Stanford, como ficou conhecida, é uma das mais famosas experiências da psicologia social, na qual 24 estudantes foram divididos num grupo de guardas e noutro de prisioneiros. A experiência destinada a simular o ambiente de uma prisão na vida real e que deveria ter durado duas semanas, foi interrompida após seis dias, quando uma colega investigadora alertou para os abusos que estavam a ocorrer. Os guardas tinham-se tornado violentos, tirânicos e sádicos, mas Zimbardo, qual Hades de Standford, estava de tal forma imerso no mal, que não se apercebeu de ter ultrapassado o limite.

“Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele”, já diz o ditado popular. Anos mais tarde, Zimbardo viria a mudar o tema de estudo, preferindo dedicar-se aos heróis. Não de capa e superpoderes, mas de todos os dias, que em dado momento e circunstância pode ser qualquer um de nós. Uma das heroínas que dá como exemplo inspirador é a mulher, a psicóloga Christina Maslach, que foi também a colega que o persuadiu a abandonar a experiência da prisão de Stanford e cuja lucidez, segundo o próprio, o salvou. Começou, então, a procurar ensinar na sociedade a “lição do herói”: aprender a resistir, a ajudar o próximo, a falar e a agir contra a injustiça, a promover os direitos humanos, a defender um bem maior.

Construir um propósito e significado de vida envolve a construção de narrativas. Usamos histórias para organizar ideias, construir identidades e darmos sentido aos problemas que enfrentamos. Já pensou quem são os seus heróis? São pessoas reais que conhece pessoalmente? O que têm de especial? De forma fascinantemente simples, o psicólogo Mark Savickas utiliza este tema para ajudar pessoas na construção de carreiras. Um dos temas de vida que propõe é pensar sobre quem são os nossos heróis. Partilho um dos meus.

466/64 foi, durante 27 anos, o número atribuído. Quantifica-se para desumanizar. Sentenciado a prisão perpétua, Nelson Mandela converteu-se num símbolo da resistência ao regime segregacionista do apartheid e uma inspiração para os defensores dos direitos humanos em todo o mundo. Foi o primeiro presidente negro em África do Sul e ajudou a unir uma nação, que haveria de conquistar no ano seguinte o campeonato mundial de rugby, retratado no filme Invictus, título derivado do poema do escritor William Ernest Henley. O espírito não quebrou, mas o sofrimento por que passou pô-lo à prova. Também se é o que se faz longe do barulho das luzes mediáticas. Entrou na prisão zangado, revoltado e defendendo a violência contra o opressor. Saiu magnânimo e apaziguado, conseguindo estar ao lado de pacifistas como Desmond Tutu, Nobel da Paz antes dele.

As maiores lutas que travamos na vida são as que ocorrem dentro de nós. Que lobo vamos deixar ganhar? O da raiva, ganância, ciúme, vingança, mentira, inveja, arrogância, cinismo, ego e ressentimento? Ou o da paz, esperança, amor, generosidade, empatia, gentileza, humildade, bondade, verdade e vida? Segundo o sábio provérbio indígena ganhará o lobo que alimentarmos. Como alguém diria, o preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que trocamos por ela. Por isso, quando a morte chegar, espero que me encontre viva.

Num tempo que também é de guerras grotescas comoveu-me ouvir o testemunho de um Palestiniano que acredita que “existir é resistir” dizer: “Eu não tenho uma arma, mas ao respirar aqui resisto.” Nenhum tiro ganhou ética e moralidade com os séculos. Os exércitos mais não fazem do que aperfeiçoar o ódio, num movimento primata que se repete, impondo-se pela força. Como diria Mahatma Gandhi, “um homem armado até aos dentes é um cobarde”.

Somos todos peças fundamentais de um engenho maior, onde a posição de cada um na sociedade deve ter em conta o potencial de maior impacto positivo e de menor dano. Porque “o importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, mora a casa”, parafraseando Mia Couto. É olhar, atentamente, para os princípios e as causas que movem cada qual. Os princípios são verticais. Não se dobram, nem se partidarizam, seja para que lado for, porque estão do lado de dentro! Podemos comprar quase tudo, mas não se compra ética e espírito de missão, centrados verdadeiramente no bem comum e não no proveito próprio.

Porquê falar sobre heróis? Porque nos dão esperança, o único sentimento que segundo Júlio Cortázar não é nosso, porque pertence à vida. E podemos ver heroísmo em todo o lado, em especial nas pequenas grandes coisas do dia-a-dia. Nos que passam e agem porque “isto não me diz diretamente respeito, mas não consigo calar-me”. Nos que resistem e não desistem de cuidar dos outros, mostrando toda a beleza e força que existe na vulnerabilidade, mesmo quando a vida passa tipo míssil. Nos que lucidamente se encontram no lado de dentro, a costurar os vínculos da união entre os povos. Nos que ajudam a acalmar a montanha russa de emoções dos que, pelas circunstâncias de vida, se encontram particularmente vulneráveis. Nos objetores de consciência à ultrapassagem de linhas vermelhas, que empatizam com a dor alheia. Nos que, timidamente, começam a desvendar a alma, aproximando-se do sentido do belo.

É o sonho que comanda a vida e pelo sonho é que vamos, como diriam os poetas António Gedeão e Sebastião da Gama. E são os heróis que nos ajudam a cumpri-los. Porque é bom viver pelo sonho, mas melhor ainda é partilhá-lo. De preferência na “terra dos sonhos” de Jorge Palma, onde não haja pó nas entrelinhas e ninguém se possa enganar. O verdadeiro milagre acontece quando o silêncio de alguns dá lugar à voz do que de um sonho ressoa na alma e coração de outros. Afinal, há sempre alguém que sonha. Em toda a parte!

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