Dylan entediado, Michael Jackson no auge: o filme sobre os bastidores de We are the world

A Grande Noite da Pop, de Boa Nguyen, mostra o lado humano das estrelas que fizeram uma música que marcou os anos 1980. Estreou-se dia 29 na Netflix.

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A Grande Noite da Pop Netflix
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Numa época em que documentário musical parece ser sinónimo de uma produção chapa branca, totalmente aprovada pelo artista e quase sempre registando uma digressão que já rendeu milhões e se tornou desinteressante, é reconfortante assistir a um filme como A Grande Noite da Pop.

Lançado agora na Netflix, o documentário mostra como foi a histórica gravação da canção We Are the World, criada no âmbito do projecto USA For Africa, que em 1985 arrecadou dinheiro para combater a fome no continente africano. Pela primeira vez, os maiores nomes da música pop americana estiveram juntos no mesmo estúdio.

Quando o agente Ken Kragen foi contactado por Harry Belafonte, actor, cantor e activista de direitos civis para montar este projecto, a ideia de angariar dinheiro para a causa já tinha sido usada numa iniciativa britânica, com Bob Geldof a criar o supergrupo Band-Aid, em que várias estrelas do rock inglês gravaram o single Do they know it’s Christmas?.

Kragen pensou em algo ainda maior, com as estrelas da América. Os primeiros nomes que trouxe para o projecto era superlativos: Quincy Jones, Stevie Wonder e Lionel Ritchie. O documentário mistura cenas da noite da gravação com entrevistas feitas no ano passado com alguns dos participantes. A melhor delas, sem dúvida, é com Lionel Ritchie, também produtor do filme. Para engrossar as fileiras, Ritchie pensou em grande. Pegou o telefone e chamou Michael Jackson, na época a maior estrela da música pop. Os dois ficaram encarregados de escrever a canção que seria gravada, enquanto Kragen tratava de contactar outras estrelas.

Um dos atractivos irresistíveis do documentário para fãs de música pop é o relato de Ritchie sobre o trabalho de composição com o seu parceiro. Michael não sabia sequer tocar um instrumento, portanto cantarolava suas ideias, de letras ou de melodias, e gravava-as em cassete. Em pouco tempo, Ritchie estava soterrado por cassetes com vários "lá-lá-lás" de Michael Jackson.

Kragen e sua equipa perceberam que seria impossível conciliar as agendas dos muitos artistas que já se tinham comprometido a participar. Mas gravar em lugares diferentes para editar posteriormente estava fora de questão. Ele sabia que a grande força do projecto seria um videoclip gigante, com todos os artistas em confraternização.

Veio então a ideia de fazer o registo a 24 de Janeiro de 1985. Era o dia da festa de entrega dos então muito prestigiados American Music Awards, em Los Angeles, e muitos dos artistas contactados para gravar já estariam na cidade. Mesmo assim, houve percalços e algumas desistências. Bruce Springsteen fez um concerto de quase quatro horas do outro lado do país na noite anterior, e mesmo assim aceitou cantar. Nas gravações, está visivelmente exausto.

O cansaço foi a tónica de todo o trabalho de produção, porque os músicos começaram a reunir-se depois das 22h, quando a cerimónia de entrega dos prémios fora dada por encerrada. Todos estavam avisados de que teriam de passar três a quatro horas no estúdio, mas o trabalho só terminou às 8h do dia seguinte.

Sem filtro

Por que é que A Grande Noite da Pop é tão incrível? Porque todas aquelas estrelas estavam numa situação inusitada no mesmo local. Como o projecto estava sob total sigilo, não foram autorizados a levar assessores para a gravação. Chegaram sozinhos, em táxis. Estavam sem as suas equipas, estavam por conta própria numa multidão que incluía alguns velhos amigos e muitos desconhecidos.

As reacções captadas pelas câmaras são preciosas. Bob Dylan, já na sua fase eremita, parecia o mais incomodado por estar ali. Além disso, sabia que cantava mal e escusou-se a cantar os coros. Stevie Wonder e Ray Charles eram reverenciados como deuses por artistas que vendiam muito mais discos do que eles. Novatos como Cyndi Lauper e Kim Carnes não conseguiam esconder o nervosismo diante dos ídolos.

Quincy Jones comandava tudo e às vezes tinha de berrar com os artistas, como um professor com seus alunos. Stevie Wonder fazia piadas sem parar, tentando descontrair o ambiente. Mas ninguém era mais surpreendente do que Michael Jackson. Tanto pelos registos vocais impecáveis que gravou no momento, alguns de arrepiar, mas também pelas soluções criativas que dava aos outros para melhorar as suas performances. O legítimo Rei da Pop.

Além de expor ao público toda esta intimidade inédita das maiores estrelas da pop, o documentário esboça uma aula sobre como acontece a magia num estúdio de gravação. Para um leigo, é surpreendente que as várias vozes gravados madrugada dentro, em coros, duetos ou performances individuais, fiquem tão harmoniosas na versão final do single.

Depois do documentário Get Back, dos Beatles, editado por Peter Jackson e lançado há dois anos, este filme, dirigido pelo cineasta vietnamita Boa Nguyen, é outro que oferece uma experiência ímpar aos fãs de música pop.

Exclusivo PÚBLICO/Folha de São Paulo

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