Trocar carro por transporte público? Lisboetas aceitam, se incentivo for suficiente

Estudo mostra que a maioria dos que conduzem na região de Lisboa estaria disponível a mudar para transportes, dependendo da percentagem de desconto e do tempo da viagem.

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Lisboetas aceitam trocar o carro por transportes públicos mas só se forem mais rápidos que os automóvis e subsidiados Matilde Fieschi
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Mesmo que a viagem seja mais longa de transportes públicos, a maioria dos condutores da área metropolitana de Lisboa estaria disponível a trocar o carro por transportes públicos. Mas o desconto teria de ser significativo (de 89%) caso a viagem demorasse mais 10 minutos em transportes que de veículo privado, mostra um estudo realizado para a Área Metropolitana de Lisboa pela consultora espanhola Factual.

À medida que o tempo de viagem diminui, o desconto necessário para que o condutor aceite trocar de modo de deslocação também. Por exemplo, se a viagem for 20 minutos mais rápida de transporte público que de carro, a maioria das 450 pessoas que responderam ao inquérito que serve de base ao estudo, só precisaria de um desconto de 55% para mudar.

Os dados foram apresentados durante a conferência Tomorrow Mobility World Congress, co-organizada pela EIT Urban Mobility (uma iniciativa do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia) que decorre em Barcelona, entre os dias 7 e 9 de Novembro, pelo responsável da consultora, Miquel Nadal.

Juntamente com Lisboa, a consultora realizou o mesmo número de inquéritos em Barcelona, Madrid, Berlim e Oslo, sendo os condutores da capital portuguesa aqueles que dizem precisar de descontos maiores para deixar o carro em casa e apanhar transportes públicos. Se a viagem for 20 minutos mais rápida em transportes colectivos, a maioria das pessoas que responderam aos inquéritos em Madrid e Berlim precisam apenas de descontos de 7% e 9% respectivamente para fazer a troca.

Os dados, que são ainda preliminares e que serão apresentados em maior detalhe nas próximas semanas, foram divulgadosnum painel em que Miquel Nadal falava sobre o conceito de micro-subsídios. Ou seja, novas formas de financiar o transporte público e de incentivar os utilizadores a afastarem-se do veículo privado.

“Não são pequenos subsídios”, explicou, “mas apoios mais direccionados e flexíveis”, de forma a aumentar a eficiência do dinheiro aplicado. “Muitas das viagens são igualmente subsidiadas”, disse, o que significa que as empresas públicas de transportes estão “a tentar matar moscas com um canhão”, “a gastar imensos recursos para atingir resultados muitos limitados”.

Os micro-subsídios podem ser direccionados consoante grupos de indivíduos que mais dele necessitem, distância, modo de transporte, percurso (para ajudar a resolver rotas congestionadas, por exemplo), eventos de massas ou episódios de poluição, referiu.

Mas também horas ou dias específicos. Por exemplo, reduzindo tarifas fora da hora de ponta para incentivar as pessoas que possam fazer a viagem noutro momento. Parte do inquérito também passou por aí: os lisboetas precisariam de um desconto de 76% no preço do viagem para a antecipar ou atrasar 10 minutos, de uma baixa de 81% numa alteração de 30 minutos e de uma redução de 89% para apanhar o transporte uma hora antes ou depois.

Mas nesta equação entram outros factores, como frequência e conforto dos transportes, pelo que o responsável avisa que estes resultados devem ser lidos como um exercício teórico, uma declaração de disponibilidade de quem respondeu ao inquérito. No entanto, só se perceberá o impacto das medidas se forem experimentadas.

O consultor em mobilidade da Factual Pietro Podestá explica ao PÚBLICO que, com este levantamento, quiseram também fazer uma análise de áreas que não são servidas directamente por sistemas de metro. Refere que, além das hipóteses apresentadas no painel, foi estudado um cenário específico para estas áreas, explorando outras soluções, como trotinetas e outros ciclomotores, que poderão ajudar a encurtar distâncias e servir de solução para pequenas ligações. “Muitas das empresas de mobilidade partilhada não operam nestas zonas, que não são financeiramente sustentáveis. Então, se as queremos ter ali, temos de as subsidiar”, aponta. O relatório será publicado na íntegra nas próximas semanas, disse.

O PÚBLICO viajou a convite do EIT Urban Mobility

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