Combater a desinformação combatendo a proletarização no jornalismo

O combate à desinformação passa também, com igual importância àquela atribuída à literacia mediática, pela rejeição da proletarização e descompetencialização no jornalismo.

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Megafone P3: Combater as fake news combatendo a proletarização no jornalismo Matilde Fieschi
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O tema das fake news está, há largos anos, entre os fenómenos mais discutidos em vários campos disciplinares, como é o caso das ciências da comunicação e dos estudos de jornalismo.

Por terem implicações múltiplas, com impacto variável nas esferas política, social, económica e cultural dos países, foram até ao final da década passada um tema bastante atractivo, em particular para a academia.

Ao longo dos anos testemunhámos o surgimento de cadeias de montagem de conhecimento produzido sobre fake news, onde inclusivamente materiais com pouca ou nenhuma propriedade passaram a disputar a produção científica de qualidade, fazendo-nos revisitar a perspectiva mertoniana de conhecimento enquanto processo cumulativo que não o imuniza de anomalias no campo científico.

No entanto, nesta pletora de trabalhos sobre fake news, a perspectiva hegemónica do seu combate pela via da literacia mediática ganhou contornos de abordagem excessivamente monolítica.

Com efeito, tão importante como diligenciar literacia mediática (não se ficar pelo título, verificar os conteúdos, estudar a fonte da notícia e as imagens usadas, estratégia absolutamente dominante no debate), sensibilizando os consumidores de notícias para a ideia de que os media tradicionais são os veículos mais credíveis de informação e aqueles que devem ser privilegiados face aos canais alternativos das redes sociais que concretizam a desintermediação do jornalismo, muitas vezes para alimentar afinidades electivas a determinadas mundividências a gosto, é defender a substância normativa e o procedimento da profissão.

Depois, é preciso compreender que consultar apenas os media tradicionais não liberta totalmente os consumidores de notícias da existência de fake news, uma vez que um conjunto dessas fake news tem origem e disseminação no próprio jornalismo credenciado.

Não na forma de desinformação com o objectivo intencional de enganar, mas sim na forma mais benigna, se assim quisermos, de informação incorrecta transmitida sem dolo, e que no jornalismo está muito associada à proletarização e "descompetencialização" jornalísticas que se consolidam na emergência da redacção "produtivista".

Desta forma, um plano concomitante que não tem sido discutido nas respostas mais difundidas para combate às fake news, seria o de, a montante, dar a oportunidade ao jornalismo de recuperar a sua função positiva pela via da rejeição (por parte de todos os atores envolvidos, da regulação à gestão tecnocrática dos media) das estruturas de proletarização com influência nos fenómenos "descompetencializadores" da profissão.

Voltando ao início, e em resumo, tão importante como as literacias e tão importante como fazer com que as pessoas regressem ao jornalismo credenciado para que esse combate às fake news se efective, é garantir que esse jornalismo credenciado recupera a ideologia ocupacional que assume o compromisso da qualidade do trabalho jornalístico, rompendo-se dessa forma com os ímpetos de desabilitação de um saber-fazer que se torna cada vez mais precário na sua relação histórica com a qualidade da prática.

Uma fórmula que se subsume assim em três eixos: combater as fontes de disseminação (intencional) de fake news; dar ao jornalismo uma “segunda hipótese”; e reforçar o jornalismo de qualidade, proporcionando condições de trabalho aos seus profissionais.

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