A maior fábrica de chocolates do mundo tem um doce segredo: bombas de calor

A maior fábrica de chocolate do mundo, a Mars Inc., reduziu a conta de energia em 6% com o uso de bombas de calor. Essa alternativa aos combustíveis fósseis contribui para descarbonização na Europa.

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Esqueçam os Oompa Loompas. Os verdadeiros heróis da maior fábrica de barras de chocolate do mundo são as bombas de calor.

Um sistema de bombas de calor na fábrica da Mars Inc., na cidade de Veghel, nos Países Baixos, recolhe o calor irradiado pelos seus frigoríficos para produzir água quente. Dessa forma, por meio de uma rede de tubos da fábrica, é possível usar essa energia que seria desperdiçada para manter o xarope quente e o chocolate derretido.

Durante anos, as bombas de calor têm sido utilizadas como uma alternativa energeticamente eficiente aos fornos alimentados por combustíveis fósseis para aquecer e arrefecer as casas, especialmente numa Europa preocupada com o ambiente.

Agora, com a pressão crescente para abandonar os combustíveis fósseis, as fábricas de todo o mundo recorrem a esta tecnologia para produzir alimentos, secar papel e realizar outras tarefas industriais que, de outra forma, exigiriam a queima de combustíveis fósseis para obtenção de energia. A restrição do fornecimento de gás natural pela Rússia após a invasão da Ucrânia serviu de alerta para a Europa — uma vez que muitos países dependem de combustíveis importados para o funcionamento das suas indústrias.

“A indústria está agora consciente das possibilidades que pode alcançar com as bombas de calor”, afirma Veronika Wilk, engenheira sénior de investigação no Instituto Austríaco de Tecnologia, que estuda as bombas de calor industriais. “Isso representa definitivamente uma mudança em relação a cinco ou sete anos atrás.”

Bombas de calor no chão

A nível mundial, estima-se que o mercado de bombas de calor industriais duplique na próxima década à medida que a procura de energia com baixo teor de carbono aumenta e os países esforçam-se para cumprir os objectivos de redução das emissões. Esse fenómeno deve ser visto sobretudo na Europa visando reduzir a dependência de gás russo, segundo a empresa de investigação Global Market Insights.

“Esta questão está a despertar cada vez mais interesse quando falamos de segurança do abastecimento”, afirmou Wilk.

Nas habitações, as bombas de calor geralmente retiram o calor do subsolo, ou do ar exterior, para manter o interior das casas aquecido e agradável durante o inverno.

A versão industrial é muito maior, reciclando com frequência a energia de um processo industrial e utilizando-a noutro. Pense na indústria de alimentos, que precisa tanto cozinhar quanto refrigerar os seus produtos. Ao redireccionar o calor dos seus frigoríficos para manter o chocolate quente, a fábrica de chocolate holandesa da Mars reduziu a conta de energia em 6%, relatou o porta-voz da empresa, Roel Govers. Até o momento, a fábrica instalou duas bombas de calor — a primeira em 2015 e a segunda em 2021.

As bombas de calor também revelam-se úteis para o fabrico de papel e de produtos químicos, para além da indústria alimentar. De acordo com a Agência Internacional da Energia (AIE), cerca de 30% das necessidades de aquecimento desses três sectores em nível global podem ser supridas com bombas de calor.

O desafio da descarbonização das fábricas

Esta tendência é mais evidente na Europa, onde fabricantes e municípios estão preocupados com a possibilidade de ficarem privados do fornecimento de gás russo. Em países como Alemanha e Finlândia, o aumento dos preços do gás nos últimos anos reforçou o argumento económico para as bombas de calor.

As bombas de calor industriais também podem ser encontradas fora das fábricas, para manter bairros e cidades inteiras aquecidas. Uma empresa de serviços públicos dinamarquesa pretende implementar grandes bombas para extrair calor da água do mar para aquecer a cidade de Esbjerg, e as autoridades de Viena desejam aproveitar a energia das águas residuais para aquecer as casas durante o inverno austríaco.

Os Estados Unidos estão atrasados em relação à Europa no que se relaciona à instalação de bombas de calor, tanto grandes como pequenas. Somente recentemente as vendas de bombas de calor ultrapassaram as de fornos a gás em todo o país. “A procura começou a aumentar também na indústria”, disse Lacey Tan, gestora do programa de edifícios livres de carbono do Instituto Rocky Mountain.

“A indústria é provavelmente a mais desafiadora”, acrescento Tan, referindo as altas temperaturas e pressões a que têm de funcionar nas fábricas.

As máquinas, no entanto, têm limitações. Muitos materiais, incluindo o cimento, o aço, o vidro, os tijolos e os azulejos, são fabricados a temperaturas muito elevadas. Qualquer coisa que exija um forno acima de aproximadamente 204 graus Celsius é mais difícil de descarbonizar via bombas de calor, de acordo com Wilk.

Mas, para alcançar os objectivos do acordo climático de Paris, as fábricas precisam implementar bombas de calor rapidamente. Para ter a possibilidade de atingir emissões líquidas nulas até meados do século, a indústria necessita instalar cerca de 500 megawatts de bombas de calor todos os meses durante os próximos 30 anos, de acordo com a AIE.