No Alentejo há sempre uma estação para ir

Continua a merecer toda a nossa reflexão a ambição do século XIX português, onde a fome de progresso fez rasgar obras de engenharia por este país fora.

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Megafone P3: No Alentejo há sempre uma estação para ir Rui Gaudencio
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Há um ano e pouco, deixamos o registo de passagem por estações da Linha do Sul, tendo chegado à Funcheira. Quisemos deixar a Linha do Sul e aventurar-nos pelo traçado, encerrado em 2012, da Linha do Alentejo.

Voltas e voltas, estradas de terra batida e conseguimos chegar à zona da Ponte da Quinta Nova, sobre o Rio Sado. Uma segunda versão da mesma, já que ainda são visíveis os pilares da estrutura primitiva. Continua a merecer toda a nossa reflexão a ambição do século XIX português, onde a fome de progresso fez rasgar obras de engenharia por este país fora. A altitude desta ponte quase se pode comparar ao tamanho das ambições de quem mandava na época.

Acabar com as fronteiras internas e tornar Portugal um reino europeu eram vontades de gigante. E a obra aconteceu. Hoje só passam ali comboios de mercadorias. Os passageiros terão de enfrentar um calvário de, pelo menos, quatro horas para fazer o trajecto Faro-Beja. O isolamento do local faz-nos saltitar entre a admiração das vistas e a sensação de nos ouvirmos a respirar.

Mudamos de local, fazendo o percurso do comboio que pararia na curva de Panóias. Aqui, aprendemos a decifrar a imensidão da paisagem. A estação está rodeada por campos que protegem aquele esqueleto de definhar totalmente, guardando os azulejos com o nome da gare de se perderem no meio de escombros futuros. Eventualmente, irá tudo ao chão e que este texto sirva, ao menos, para registar a magia da gare que já não reconhece a sua função e ali está, à espera da sua vez.

A seguir, Ourique. Os azulejos lá estão. Nota-se que o casario envolvente teve um responsável: o comboio. Sabemos também que a alma desta zona foi embora no último serviço regional e não voltou. Sentimos o vazio nas plataformas. Falta gente que vai e vem, faltam buzinadelas a assustar crianças. O edifício está em boas condições, oxalá não tenha o triste fim dos seus irmãos.

Acabamos em Casével, estação que ainda tem guarnição. A cegonha que está instalada na chaminé, as pombas que batem as asas que ecoam nas divisões vazias do edifício são, agora, a vida desta gare. Isso e a vegetação que já engoliu as plataformas, sugando aquilo que limita a sua existência. Afinal, a materialização do progresso do século XIX não vence a natureza.

Isso é tão verdade que ousamos unir-nos a ela, sentando-nos num local onde pudéssemos ver o sol desaparecer à nossa frente. Ondeava com o vento um mar de pétalas roxas e amarelas. O trilho ferroviário tornou-se imperceptível. Sabemos que amanhã será mais um dia para vulgar para a cegonha e as pombas, para nós significará a alma cheia. Voltamos para a aldeia.

Entramos no café e ouvimos: “Chega de futebol e guerra. Hoje é música”. Que contexto para a música tradicional alentejana que abafava as vozes dos outros. Ouvir isto foi logo um bom motivo para ignorarmos a sujidade do local. E sim, a aldeia alentejana é um mundo. Seguir o traçado encerrado da linha do Alentejo é a porta de entrada para um Portugal que não segue a espuma dos dias.

O sino toca, os cães ladram aos carros que passam. As minis saem do congelador e a noite impõe-se. Aqui, somos abraçados por um luar que nos faz a parar e mete-nos a fazer desenhos e formas imaginárias com a disposição das muitas estrelas que víamos. A magia destas terras perdura. Casével não tem filtros e faz-nos voltar a casa de sorriso no rosto. Seguiremos esta viagem...

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