As nossas raízes de vinho podem ter a resposta ao que nos vem faltando

Começamos a entender que a nossa identidade de produção, a que foi esquecida e parcialmente abandonada, pode ser a resposta para entregar identidade, diferenciação, carácter e património próprio.

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O produtor Nuno Ramilo e o enólogo Jorge Mata, do projecto Ramilo, que Hamilton Reis descata no seu primeiro texto na rubrica "O Vinho dos Outros" Direitos Reservados

Portugal, sabemos, tem um património vitivinícola muito próprio, que respira identidade e carácter único, ainda assim, a nossa herança de vinho foi em boa parte abandonada, esquecida.

Na verdade, foi convertida pela força do consumo moderno, pela globalização do paladar, pela modernização tecnológica do sector e pela alteração do tecido social do país, nos últimos 40 anos.

Por princípio, a ciência, o investimento e a modernização, são vectores de evolução e capacidade de criar mais e melhor, de acrescentar valor pela anulação de fragilidades, ao mesmo tempo que criam capacidade de dominar processos em todas as suas vertentes. Entregam a normalização de procedimentos e removem a componente aleatória dos mesmos.

Portugal vitivinícola, através das suas faculdades, empresas, técnicos, crítica e consumidor, soube (e bem) abraçar toda uma nova capacidade produtiva que nos chegou com identidades globais, identidades criadas em padrões de consumo diferentes, pouco dadas a entender o local. Temos de acrescentar a este processo e momento o êxodo da nossa população, tanto para as grandes cidades como para outras zonas do globo. Com estas saídas removeram-se tradições, conhecimento e cultura das zonas de origem.

Ficou assim criado o caldo perfeito para nos irmos esquecendo de nós! Das nossas identidades, das nossas especificidades e do nosso património de cultura de vinho Português.

Porventura, e de alguma forma, passámos por um processo que pareceu ser mais fácil, mais rápido e economicamente mais rentável, começar com uma página (praticamente) em branco do que interpretar esta nova pauta com os nossos próprios instrumentos, com o nosso próprio conhecimento (também válido), com as nossas próprias tradições e metodologias. Entregamos a Vitivinicultura Portuguesa ao gosto global, das novas técnicas, das novas castas e das novas regras de consumo.

Assistimos a um crescimento exponencial da indústria do vinho de mesa em Portugal e temos um sector energético, trabalhador, com imensa vontade de sucesso, em que tudo parecia correr bem. Portugal foi-se tornando (e adiando), como a próxima grande coisa, o panorama do vinho à escala global…

Diariamente, constatamos que continuamos em défice no mundo do vinho que desejamos e temos de atingir. É evidente que a volumetria na exportação, considerando a dimensão do que podemos fazer por comparação com outros, não será um ponto forte da nossa Vitivinicultura!

Começamos a entender que a nossa própria identidade de produção, a que foi esquecida e parcialmente abandonada, pode ter a resposta aos pontos que nos vêm faltando. Para entregar ao consumidor (internacional, mas também nacional) identidade, diferenciação, carácter e património próprio, com valor acrescentado.

Assistimos hoje a uma nova energia e vontade, que nasce com mais uma geração de produtores e técnicos, de sermos quem somos, de valorizar a nossa terra, as nossas castas, os nossos processos. Vamos finalmente abandonando o desejo e necessidade de copiar e (felizmente e finalmente) são menos e menos os que mencionam tecidos e formas produtivas de outras zonas do globo, para nos compararmos e justificarmos, e são cada vez mais os que marcam capacidade de redescobrir o nosso próprio património, as nossas próprias técnicas e as nossas raízes de vinho.

A enorme vantagem que devemos e temos de capitalizar agora é sabermos unir, com peso, conta e medida, a nova ciência e capacidade técnica, com esta nossa (re)descoberta, a do nosso próprio património.

As notícias são boas e parecem trazer respostas de largo espectro, de capacidade de afirmar Portugal (finalmente) como a próxima grande coisa, os exemplos estão aí e o trabalho está a ser feito.

Projecto Arribas Wine Company

Nas Arribas do Douro, Frederico Machado e Ricardo Alves dois jovens técnicos, mas já viajados, na procura de diversidade e autenticidade, regressaram a Bemposta, Mogadouro, terra dos avós de um dos fundadores. Nesse local encontraram vinhas muito antigas, algumas voltadas ao abandono devido à idade dos seus proprietários.

Tinta Gorda, Malvasia, Bastardo, Verdelho, Rufete, Bastardo Branco, Verdelho Vermelho, Tinta Serrana, entre outras castas por identificar, vinhas de altitude, grande variedade de solos e exposições, viticultura tradicional e sustentável e vinificação de intervenção mínima são os fios condutores do projecto que procura elevar todo o potencial das Arribas do Douro.

Trabalham vinhas em seis aldeias (Peredo de Bemposta, Bemposta, Travanca, Urrós, Sendim e Palaçoulo). Por norma, vinificam separadamente e acabam em 99 por cento dos casos a não misturar aldeias (o que contribui para terem 13-14 referências no mercado a partir de 2023).

Saroto Branco 2021, a cor cheia e o perfil aromático denunciam a maceração pelicular, com aroma de maçã e canela, muito franco e directo. Em boca com bom corpo, largo e sucroso, sem grande acidez, mas muito reactivo, pronto a fazer enorme companhia à mesa. Um perfil antigo, que não podia ser mais moderno. Tem um PVP de 9,90 euros.

Projecto Ramilo

Plantada pelo avô do Nuno Ramilo, há cerca de 50 anos, a vinha de Castelão que dá origem ao Ramilo Vinhas Velhas Tinto 2017 está situada no vale do Rio Lizandro a 5-6 Km do mar, metade da vinha está orientada a Sul e a outra metade com exposição atlântica a Oeste, o que permite diferentes estágios de maturação na altura da vindima, promovendo a heterogeneidade entres os cachos. Cada pé de vinha é um indivíduo diferente dos restantes, fugindo completamente do perfil do Castelão colonizado, esta casta é também conhecida, pelos antigos, como João de Santarém. A poda é à vara e empa em "chouriço" respeitando a tradição da região.

Na adega, é esmagado e desengaçado directamente para o lagar com fermentação espontânea. Faz estágio de dois Invernos antes do engarrafamento. É engarrafado sem qualquer filtração e com sulfuroso livre bastante baixo, entre os 20 e os 25 mg/L.

Aberto na cor, tem na elegância e frescura o seu carácter, e também identidade. De boca salina, nunca cansativo e sempre em busca de mais um golo, de mais uma descoberta, de mais uma camada de sabores, desafia os sentidos e dispõe à mesa. Tem um PVP recomendado de 18,50 euros.

Portugal tem toda uma história a (re)descobrir! Bem-vindos velhos, novos tempos.

Este artigo é publicado no âmbito de um desafio lançado pelo Terroir a vários enólogos para escreverem sobre O Vinho dos Outros

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