HPV. O vírus que quase todos teremos, que poucos conhecem e que ainda é um “tabu”

É silencioso e transmite-se facilmente. Na grande parte dos casos desaparece sem tratamento, mas é o principal causador de cancro do colo do útero nas mulheres e várias doenças genitais em homens.

NEG - 23 fevereiro 2023 - TANIA PACIENTE COM HPV
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Tânia foi diagnosticada aos 27 anos com um HPV de alto risco Nelson Garrido
RG Rui Gaudêncio - 1 Março 2023 - Pedro, fotografado para trabalho sobre doentes com HPV. Lisboa. Público
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Pedro Pinto não chegou a ser abrangido pela vacinação contra o HPV Rui Gaudêncio

Tânia Barbosa tinha as mãos a tremer quando abriu a carta do centro de saúde. Já sabia que, algures entre todo aquele jargão médico, estavam as palavras e o número que a preocupavam há vários meses — vírus do papiloma humano (HPV), tipo 18, um dos mais perigosos — mas, no fundo, ainda tinha esperança que a doença se tivesse ido embora.

Meses antes, começou a notar que tinha sangramento vaginal fora da menstruação. “Marquei uma consulta num hospital privado porque não queria esperar meses para ser atendida no público. Gastei 150 euros naquele dia para fazer os exames todos e ter a certeza de que estava tudo bem, só queria ficar descansada. Fiz uma colposcopia, que me detectou uma lesão interna no colo do útero”, conta a jovem de 29 anos.

A citologia (exame ginecológico conhecido como teste de Papanicolau) que fez depois no centro de saúde, uma rotina que já tinha desde os 25 anos, confirmou a “presença de células malignas”. “O HPV tinha evoluído. Aí tive noção que o tema era sério. Não sabia muito sobre a doença, não fazia ideia das repercussões que podia ter na minha saúde. O médico tranquilizou-me, disse que não tinha que ficar preocupada. É uma doença que pode ser grave, mas, como sou muito nova, há a possibilidade de o vírus simplesmente desaparecer.”

Passou a ter de fazer uma vigilância apertada, de seis em seis meses, até que o vírus já não seja detectado. “Ou para sempre”, diz Tânia, que é acompanhada no Hospital de Braga desde 2021. A lesão interna acabou por desaparecer sem nenhum tipo de tratamento, mas ainda não se livrou do “vírus teimoso”.

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Tânia faz uma vigilância apertada do HPV. Vai a consultas de seis em seis meses NELSON GARRIDO

O HPV não é, na verdade, um único vírus, mas um conjunto deles. São conhecidos mais de 120 tipos de vírus do papiloma humano, que são identificados por números. É uma doença que não escolhe idades ou género e que tem uma prevalência muito significativa. Estima-se que 75 a 80% das pessoas sexualmente activas tenham contacto com o vírus em alguma altura das suas vidas.

“A maior parte dos tipos são inofensivos ou então provocam verrugas ou outras doenças benignas, mas há alguns que estão associados à génese do cancro, nomeadamente ao cancro do colo do útero”, explica a médica de família Nádia Sepúlveda, que escreveu recentemente um livro para responder a questões relacionadas com a saúde da mulher.

Na maioria das pessoas, a presença do HPV não tem qualquer consequência porque o organismo consegue eliminá-lo dentro de um ou dois anos.​ Muitas nem sequer sabem que estiveram ou estão infectadas. Na grande parte dos casos, esta doença não se manifesta através de nenhum sintoma. “Este vírus quer conviver connosco. A maior parte de nós terá um ou vários tipos de HPV ao longo da vida”, diz Nádia.

E mesmo quando alguém chega a desenvolver doença por causa do HPV, a gravidade vai depender (e muito) do “número diagnosticado”. “O 16 e o 18 são os principais responsáveis pelo cancro do colo do útero, mas o 31 e 33, o 45, 52 e 58 também são considerados de alto risco. Todos juntos são responsáveis por cerca de 90% dos diagnósticos de cancro do colo do útero.”

O HPV é transmitido, principalmente, por contacto sexual, seja genital-genital, oral-genital, anal-genital ou oral-anal — daí a sua enorme prevalência. O sexo com penetração é a principal via de transmissão, mas o contacto genital próximo sem penetração também permite o contágio.

Além do cancro do colo do útero — que é a segunda causa de morte por cancro em mulheres entre os 25 e os 45 anos — o HPV pode causar outras doenças, como o cancro da vagina, pénis, anal, da boca e garganta. Também pode provocar problemas que, apesar de desagradáveis, são menos graves. É o caso dos condilomas ou verrugas anogenitais, que muitas vezes não se manifestam através de qualquer sintoma ou sinal além da sua presença.

Foi precisamente o aparecimento de uma verruga no órgão genital que levou Pedro Pinto a descobrir que tinha HPV. “Nessa altura, estava numa relação com um homem e também lhe apareceu no ânus”, conta o jovem de 34 anos.

A verruga acabou por desaparecer sem nenhum tipo de tratamento, mas outras voltaram, anos depois. “Da segunda vez, bastou o contacto pele com pele para apanhar. Não esperei que desaparecesse e optei por fazer o tratamento com crioterapia, um método que permite congelar a verruga e esta acabar por cair, num hospital do SNS. É uma situação muito chata porque ficamos quase em quarentena, não tocamos em ninguém. Nunca ‘entrei em parafuso’ porque me fui informar e percebi que é muito comum. Mesmo assim, é mais uma DST [doença sexualmente transmissível], mais uma preocupação”, diz o estudante de mestrado que continua a ir a consultas para fazer uma vigilância apertada à doença.

No caso dos homens, não existe um exame de rastreio regular para diagnosticar o HPV, apesar de o vírus poder causar cancros e lesões pré-cancerosas como cancro do pénis, do ânus e da cabeça e do pescoço, além de verrugas ou condilomas genitais.​ O diagnóstico é realizado através de exames urológicos ou dermatológicos. Quando não há sinais da infecção, existem testes de biologia molecular (PCR) que detectam o ADN do HPV e permitem descobrir o tipo de vírus em causa.

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Pedro Pinto a descobrir que tinha HPV depois do aparecimento de uma verruga no órgão genital RUI GAUDÊNCIO

Vacinação muda “o jogo”

A médica Nádia Sepúlveda explica que o preservativo diminui a taxa de transmissão, mas apenas a vacina do HPV garante uma protecção contra este vírus. Qualquer pessoa portadora de HPV pode transmiti-lo, mesmo que não tenha qualquer sintoma. A vacina está incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV) para as raparigas de dez anos pelo menos desde 2009. Mas só desde Outubro de 2020 é que os rapazes passaram a poder fazer a vacina gratuitamente e nem todos têm acesso — apenas os que nasceram a partir de 2009 é que são incluídos no PNV.

“Vacinar os meninos foi uma decisão algo controversa porque a percentagem da doença provocada por HPV nos homens é muito inferior à das mulheres. Foi uma medida para os proteger, mas, sobretudo, para impedir que sejam portadores e transmitam às meninas”, explica a especialista.

Esta escolha acabou por deixar milhares de rapazes mais desprotegidos. Pedro Pinto, por exemplo, já não foi abrangido por esta medida e, se quiser ser vacinado, terá de arcar com os custos das três doses, um valor que ronda os 400 euros. “Muitas vezes questionei os médicos sobre a vacina, mas infelizmente não há a possibilidade de a vacinação ser alargada de forma gratuita a homens adultos. Ficaria muito mais descansado se estivesse vacinado.”

Em Portugal, país com uma adesão muito elevada à vacinação, os pré-adolescentes recebem a vacina nonavalente, que cobre nove tipos de HPV (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58) desde 2017. “Estamos a falar de uma vacina que tem uma taxa de eficácia muito elevada, a rondar os 90%. Ao não contrairmos esta infecção por termos a vacina, já vamos alterar muito a história de uma possível doença e diminuir imenso a probabilidade de termos cancro. É menos comum que os tipos que estão fora da vacina provoquem doenças graves”, sublinha Nádia Sepúlveda.

Anos à espera de uma consulta

Marta Almeida vive num estado constante de ansiedade há quase dois anos. Sabe que o resultado positivo para um ou mais tipos de alto risco pode “não significar nada, mas também pode significar tudo”. A assistente técnica numa escola secundária de Leiria foi a uma consulta de planeamento familiar de rotina depois de uma interrupção voluntária da gravidez. Apesar de “não se queixar de nada”, fez uma citologia, exame que não fazia há alguns anos.

“Fui encaminhada para um serviço de patologia cervical no hospital e disseram-me que aí faria uma biopsia para saber mais a fundo se a doença estava a evoluir ou não. Só que passaram quase dois anos desde que fui diagnosticada. É demasiado tempo para estar à espera de respostas. Pode não ser algo maligno, mas também pode ser...”

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Marta Almeida está há quase dois anos à espera de uma consulta DR

Apesar de o problema a deixar “muito ansiosa”, a jovem de 30 anos diz que analisou todas as hipóteses e concluiu que não lhe resta muito a fazer, a não ser esperar pela consulta no SNS. “Sendo funcionária pública, tenho ADSE, mas é uma coisa que acarreta custos, nunca é comparticipado a 100% e não consigo suportar esse peso financeiro neste momento. Mas estou muito nervosa e sinto-me na escuridão.”

Ainda que tenha sido vacinada na adolescência, Marta confessa que sabia pouco sobre o HPV antes de receber o diagnóstico. “Tive de explicar ao meu parceiro da altura e aos parceiros seguintes, foram conversas chatas. Dei por mim a pensar que não me podia envolver com alguém porque tenho esta doença.”

O 16 e o 18

A vacinação é a arma mais importante contra o HPV, mas o rastreio desempenha um papel crucial para detectar casos que necessitem de uma vigilância mais apertada. “Se, por exemplo, encontrarmos um tipo de alto risco, vamos vigiar e repetir o exame mais cedo, normalmente de seis em seis meses ou de ano a ano. No caso do 16 e 18, já vai haver um encaminhamento para uma consulta específica para fazermos um tratamento dirigido antes sequer de haver alteração celular”, refere Nádia Sepúlveda.

“Ter um tipo 16 ou 18 não é uma sentença de ter cancro do colo do útero. Na grande parte, às vezes isso não acontece. É preciso que se juntem alguns factores de risco, como fumar, ou genéticos, e um sistema imunológico que seja mais susceptível, que não detecte o vírus e que não consiga eliminá-lo. Se tudo isso acontecer, podem-se juntar os ingredientes certos para lentamente, ao longo dos anos, o vírus começar a alterar o nosso material genético das células. É um processo que normalmente dura cinco a 20 anos.”

A médica explica ainda que, muitas vezes, é proposto ao doente que se vacine (se nunca foi vacinado) ou que faça uma espécie de “update de vacinação”. “Há vantagens em fazermos a vacinação pelo menos até aos 25 anos e em alguns casos até aos 45 anos. O problema é que a vacina não é comparticipada e estamos a falar de doses que custam cerca de 130 euros cada uma, no total de três. Claro que as pessoas podem ponderar o que pode valer ou não a pena.”

Apesar de ter ficado “em pânico” com o diagnóstico inicial do tipo 18 do HPV, Tânia Barbosa acabou por se deixar tranquilizar pelas experiências de amigas e pelos conselhos do médico, mas como tem um dos tipos de maior risco, terá de continuar a fazer uma vigilância apertada para garantir que a presença do vírus não evolui para algo mais grave nos próximos anos.

“Vou casar-me em Setembro e quero muito ser mãe. Perguntei logo ao médico se poderia começar a tentar, quais os riscos, o que tinha de fazer, se esta doença ia interferir ou não. A doença não interfere na gravidez, mas optamos por confirmar primeiro que não tenho nenhuma lesão interna. Vamos fazer novamente exame este ano e perceber se posso começar a tentar engravidar no fim do ano. O meu médico pediu que o meu noivo fosse comigo à próxima consulta, para vermos se está tudo bem com ele”.

A jovem acabou por se tornar uma especialista em HPV, que deixou de ser “um bicho-de-sete-cabeças”, dentro do grupo de amigos e colegas. “É muito importante falarmos destes temas, não termos medo nem vergonha, e alertar os mais jovens para este tipo de doenças e como se devem proteger. Tem que deixar de ser tabu.”

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