Opinião

Será possível a erradicação do cancro do colo do útero?

A prevenção do cancro é um dos maiores desafios de saúde pública para o século XXI.

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Pormenor de uma exposição no Museu da Farmacia Nelson Garrido/Arquivo

Janeiro é o mês da campanha internacional que tem por objetivo alertar, sobretudo a população feminina, para a prevenção do cancro do colo do útero (cancro cervical).

A prevenção do cancro é um dos maiores desafios de saúde pública para o século XXI, estimando-se que cerca de 40% de todos os cancros poderiam ser prevenidos apenas pela redução da exposição aos fatores de risco, incluindo medidas tão simples como a dieta e nutrição adequadas e a atividade física.

Segundo dados da ​Global Cancer Statistics (Globocan), o cancro do colo do útero é a quarta neoplasia mais frequente na mulher, e foi responsável em todo o mundo por cerca de 570.000 novos casos e 310.000 mortes em 2018.

Estes dados são assustadores, tanto mais que de todos os tipos de cancro, o cancro do colo do útero é o que apresenta um dos mais altos potenciais de prevenção e cura, chegando perto dos 100% quando diagnosticado precocemente.

Em Portugal, segundo dados da Direcção Geral de Saúde, morre uma mulher por dia com cancro cervical.

O cancro cervical ocorre numa faixa etária baixa em comparação com a maioria dos outros tipos principais de cancros, gerando assim uma maior perda de anos de vida durante os quais estas mulheres jovens em idade produtiva e com filhos pequenos, teriam ainda uma enorme participação e responsabilidade na sociedade e na família.

O principal fator de risco para o desenvolvimento do cancro do colo do útero é a infeção persistente por alguns tipos do Papilomavírus Humano (HPV). Existem 12 tipos de HPV designados de alto risco ou oncogénicos, responsáveis por cerca de 90% dos casos de cancro do colo do útero, sendo o HPV16 e HPV18 responsáveis por 70% dos casos.

A infeção genital transmitida por este vírus é bastante frequente e na maioria das vezes não causa qualquer sintoma. É importante notar, contudo, que a maioria das infecções por HPV do colo do útero são eliminadas rapidamente pelo sistema imunológico e não progridem para cancro. Cerca de 90% das infeções por HPV resolvem espontaneamente em dois anos.

Outros fatores de risco, como o início precoce da atividade sexual, os múltiplos parceiros sexuais, a imunossupressão, algumas infeções sexualmente transmissíveis (HIV, Chlamydia), tabagismo e contraceção hormonal oral, também podem estar implicados na etiologia multifatorial do cancro cervical. Existem duas formas de prevenção do cancro do colo do útero: prevenção primária (vacinação contra o HPV) e prevenção secundária (rastreio).

Existem evidências consistentes de que as vacinas contra o HPV contendo antígenos HPV16 e HPV18 protegem com elevada eficácia contra infecções e lesões cervicais pré-cancerosas associadas a estes tipos de vírus. Recentemente foi introduzida uma vacina nonavalente, que protege contra nove tipos carcinogénicos de HPV os quais, em conjunto, causam aproximadamente 90% dos cancros cervicais.

Em Portugal a vacina contra o HPV foi introduzida no Plano Nacional de Vacinação (PNV) em 2008, e felizmente o nosso país é um exemplo de sucesso a nível mundial, com uma taxa de cobertura vacinal superior a 85%. Está em aprovação a inclusão dos rapazes no PNV. Importa destacar que as vacinas concedem proteção em cerca de 90% dos casos.

O objetivo do rastreio consiste na identificação e deteção das mulheres que têm alterações cervicais ou lesões pré-malignas. A identificação e o tratamento destas lesões tem sido o paradigma da prevenção secundária do cancro do colo do útero.

Podem ser utilizados como métodos de rastreio a citologia convencional, a citologia em meio líquido e o teste de HPV ou a associação dos dois últimos.

Tradicionalmente, o teste de rastreio do cancro do colo do útero tem sido a citologia convencional com esfregaço de Papanicolaou, contudo a citologia em meio líquido tem tido uma aceitação e utilização crescente. Um benefício acrescido desta última técnica está na possibilidade da realização, na mesma amostra, de testes complementares, nomeadamente a pesquisa de HPV. 

Estudos clínicos demonstraram que o rastreio com testes de HPV diagnosticam com maior segurança as lesões pré-cancerosas cervicais do que o rastreio por citologia e, portanto, os programas de rastreio por teste HPV estão a tornar-se cada vez mais utilizados por vários países, incluindo Portugal.

Além disso, o teste do HPV pode ser feito em amostras colhidas pela própria mulher (auto-colheita), oferecendo assim a possibilidade de alcançar mulheres que, de outra forma, não participariam nos rastreios.

A utilização destas potentes ferramentas de prevenção primária (vacinação contra o HPV) e prevenção secundária (rastreio com testes baseados na pesquisa do HPV – incluindo a auto-colheita) e a sua integração efetiva em programas bem estruturados nos vários países, poderá contribuir para a erradicação quase total do cancro do colo do útero durante o século XXI.