Avassalador

Quem tem acompanhado este tema já percebeu muitíssimo bem que o problema é sistémico e até, nalguns contextos, endémico.

Pressa e dificuldade de ordenar pensamentos após a avassaladora apresentação pública do relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, uma difícil conjugação.

Que brutal chapada de realidade, esta; mesmo que os conteúdos e números não sejam surpreendentes, é um choque imenso lidar com eles, agora que vêm organizados e com aquelas terríveis legendas que transcrevem em itálico testemunhos cheios de dor e fome de justiça. Logo lerei o documento mas a sua apresentação suscita de imediato algumas questões, a saber:

  • Tinham toda a razão os católicos que em Novembro de 2021 exigiram aos bispos portugueses uma investigação independente sobre os crimes de abuso sexual na Igreja; sem isso, teriam os bispos avançado?
  • A apresentação revelou uma abordagem irrepreensível, o que é bom para a compreensão da verdade histórica e releva para efeitos de blindagem às críticas que, mais tarde ou mais cedo, surgirão dos negacionistas.

Mas mais substantivamente:

  • A dimensão da catástrofe é imensa, mesmo que os números sejam imprecisos: para a Igreja (também ela vítima, afinal, de si mesma, um paradoxo quase irresolúvel) mas sobretudo para todos aqueles que, num quadro de natural fragilidade (a infância e juventude), sofreram repetidamente violência sexual com escassa possibilidade de se queixar, de ter ajuda e de obter justiça.
  • A Igreja, isto é, todos nós, católicos, precisa fazer uma profunda introspecção relativamente ao tema do desencobrimento dos abusos sexuais, ou outros; ninguém pode voltar a denegar a existência de crimes, nem encobri-los.
  • Precisamos também procurar as causas da tragédia para evitar que se prolongue ou repita. Quem tem acompanhado este tema já percebeu muitíssimo bem que o problema é sistémico e até, nalguns contextos, endémico: nasce, desenvolve-se e perdura numa Igreja contaminada e dominada pelo clericalismo. Na verdade, estes crimes não são meras perversões isoladas, mas sim um sinal e sintoma muito evidentes de uma organização humana que perdeu de vista Deus vivo, Jesus Cristo, os evangelhos, a mensagem de justiça, paz e fraternidade, trocando-os por tradições e uma cultura de exercício de poder e de formalismos. Temos que saber recusar uma religião procedimental e recriar a fé pela partilha de projectos inspirados pela novidade permanente que são os evangelhos. De outro modo: precisamos mudar o modelo de Igreja porque o actual é o que está na origem dos abusos; mantendo-o, mais tarde ou mais cedo novos problemas surgirão, na forma conhecida, ou noutras.
  • Olhar de frente para as vítimas: a Igreja tem de definir rapidamente modos consistentes e efectivos de ressarcir e apoiar as vítimas vivas. Deve começar por lhes pedir perdão, não de modo simbólico e generalista mas, sempre que possível, envolvendo-as concretamente. Precisamos também criar mecanismos urgentes de ajuda psicoterapêutica (no sector público ou privado) ajudando-as do modo que ainda for viável. Não deverá ser excluída a possibilidade de compensações económicas, se se revelar necessário e justo.
  • Os abusadores eventualmente ainda hoje a prestar serviço na Igreja devem ser inapelável e imediatamente afastados, pois as suas características psicopatológicas são impeditivas. Atrevo-me a dizer que bispos encobridores devem ter imediato e igual destino.

A realidade choca. Ignorá-la chocará ainda mais. Precisamos, agora, apoiar todos os que na igreja trabalham para a mudança.

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