Personalidade do ano? Sem dúvida, o soldado desconhecido

Precisamos de absorver esta verdade com amor, e precisamos de amor por esta verdade. Precisamos de soldados desconhecidos.

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No início do mês, voluntários enterram pessoas que morreram em Bucha após a invasão russa Reuters/STRINGER

Quando na pandemia me interpelavam com chavões do género, “força aí, que estás na linha da frente!”, eu pensava para os meus botões: “E as centenas ou milhares, sei lá, que saíram à rua para ajudar a pobreza que se espalhou mais rápido que o vírus, em que linha estão essas pessoas?”

Desde há uns anos que a minha profissão e a minha paixão me levou por um caminho, que me fez ouvir tiros, bombas que faziam a casa ou o hospital estremecer, ataques suicidas a umas centenas de metros. Já vivi com o coração nas mãos por ter colegas raptados pelo Estado Islâmico na Síria, e perdi um amigo e um ídolo, assassinado na Somália. Acho que posso dizer que já vi a guerra e não é bonito, e agora muitos portugueses, talvez pela primeira vez nas suas vidas, sentiram de uma forma ou de outra a guerra a entrar para dentro dos seus corações, com a invasão criminosa de Putin.

É óbvio que a partir de 24 de Fevereiro, a linha da frente foi nos arredores de Kiev, Karkiv, Donbass, Mariupol, Kherson e tudo mais. E devemos a defesa das nossas vidas a esses valentes, inspirados pelo presidente Zelensky que “não quis boleia, mas sim munições” para se defenderem. Homens e mulheres que deixaram claro preferir morrer do que viver sem liberdade, e defenderam as linhas da democracia que tanto prezamos, esses são, para mim, os heróis de 2022. Os soldados desconhecidos que fizeram frente à tirania, sem ter medo de dar o seu sangue pelos milhões de seres humanos que não escolheram estar no sítio errado do planeta, na altura errada.

Mas ao mar de heróis ucranianos juntaram-se rapidamente ondas de solidariedade sem paralelo na minha memória, que reforçavam a “linha da frente”. Que engrossavam a “linha da frente”. Que se tornaram “linha da frente”. Homens e mulheres, soldados civis lutaram e lutam pela humanidade, o bem mais valioso que guardamos na nossa alma.

Não há nada mais destrutivo do que uma guerra. É muita gente a sofrer. Sofrem ucranianos, mas também sofrem russos, e mais ainda sofrem milhões no corno de África à fome por falta de cereais, e nós, mesmo na dimensão do conforto de quem só vê vítimas da guerra na televisão. Vemos também, em forma de percentagens, a inflação e as taxas de juro, que atiraram gente para a rua, e para a miséria. E também nesta luta, vemos cada vez mais gente que se esforça para salvar vidas, os tais, também dignos de ser chamados: soldados desconhecidos.

A minha homenagem para a personalidade do ano de 2022 é também na esperança adiantada que o soldado desconhecido seja ainda mais forte e ainda mais reconhecido em 2023, porque diz quem sabe que vamos precisar dos batalhões da bondade mais do que nunca.

Não sei bem como hei-de dizer isto em termos de proporção, porque para mim a vida de um iemenita vale tanto como a vida da minha mãe. A guerra continua, os refugiados também, os que morrem à fome são aos milhões, e ao nosso lado vamos ver cada vez mais gente a perder as casas e a pedir comida na rua. Precisamos de absorver esta verdade com amor, e precisamos de amor por esta verdade. Precisamos de soldados desconhecidos.

Só há duas coisas na vida: o certo e o errado. Este foi o ano em que a guerra nos bateu à porta, em que sentimos a importância de reforçar a “linha da frente”, e em que descobrimos que heróis são todos os homens e mulheres que pegaram nas armas para nos defender de uma invasão, e todos que arregaçaram as mangas para aliviar o sofrimento humano, sem olhar a raça, credo, estatuto ou cor, são esses os soldados desconhecidos, os que têm um coração tão grande que transborda a sua alma.

O ano de 2022 foi duro, mas para o ano vai ser pior, ou talvez não. Vai ser o que nós quisermos que seja.

Banco Alimentar, Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha, Unicef, Programa de Alimentação Mundial, e centenas de outras organizações grandes ou pequenas são feitas de soldados desconhecidos, inclusive os que dão alguns dos seus euros por acreditar que vale a pena lutar por um mundo melhor.

Quem lê estas palavras está do lado certo da sorte, lutemos todos para que mais soldados desconhecidos, protejam quem se encontra no outro lado.

Pelos soldados desconhecidos, e por um mundo que olhe para a nossa querida humanidade, com mais coração, entrego a minha homenagem, e de todos que se sentem representados nestas palavras.

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As crónicas de Gustavo Carona são patrocinadas pela Fundação Manuel da Mota a favor da Médicos Sem Fronteiras

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