Sei que vou por aí

Sou principiante em tudo e não sou especialista em nada. Ou talvez seja especialista em ser principiante.

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"Entro na primeira aula de qualquer coisa com uma dose destemperada de esperança. Levo o sonho de me tornar uma nova pessoa" DR/Filipp Nekhaev via Unsplash

Sei apenas o básico de uma série de actividades. Sei os primeiros passos do chachachá, sei fazer o take-off do surf, sei tocar o Come as you are dos Nirvana na guitarra eléctrica e o Hino da alegria no xilofone. Sei fazer a saudação ao sol do ioga, dar meia pirueta de patinagem artística e conjugar dois verbos em francês.

Consigo meditar cinco minutos, fazer um serviço no ténis, fazer um pliê e andar a cavalo a trote. Sei apenas o suficiente para perceber que nada sei. Ou melhor, que sei muito pouco de muitas coisas. Sou principiante em tudo e não sou especialista em nada. Ou talvez seja especialista em ser principiante. Fui a tantas primeiras aulas que, juntas, podem formar um curso intensivo.

Não sei por onde vou. Porque não ir por aí? Começo cada actividade com o entusiasmo de quem pode ter descoberto a sua vocação. Mas acabo por desistir passado pouco tempo.

Afinal, para quê fazer uma coisa bem-feita, se posso fazer várias malfeitas?

Em todas as primeiras aulas há uma pequena esperança de ter chegado, finalmente, ao meu elemento. Foi assim no baptismo de mergulho, na primeira vez que voei de parapente e na primeira vez que pintei a aguarela.

Esta inconstância pode dever-se a um medo do compromisso, a uma vontade de me integrar, a um êxtase infantil ou ao facto de o meu signo ser Sagitário, como aprendi na primeira aula de Astrologia.

Entro na primeira aula de qualquer coisa com uma dose destemperada de esperança. Levo o sonho de me tornar uma nova pessoa, a pessoa que consegue fazer a espargata ou tricotar as próprias camisolas. Esta aspiração vai sendo alimentada com a ajuda do equipamento, esse potenciador de sonhos em formato material. Seja um skate estiloso, um colchão ao ombro, uma prancha debaixo do braço ou uma máquina fotográfica, carrego o material com o orgulho de quem se reinventou. Sou uma nova pessoa a cada modalidade.

Nas primeiras aulas imagino-me logo na fase mais avançada. No ioga, as minhas mãos não passavam das canelas num alongamento, mas já me via em retiros na Índia a fazer a posição de gafanhoto.

Aos 16 anos, inscrevi-me no tango e obriguei o meu primeiro namorado, desolado por estar com aquele grupo de cinquentões em vez de estar a jogar PlayStation, a acompanhar-me às aulas. Eu passava horas a ver vídeos de milongas e já me imaginava algures na Argentina, de vestido de cetim preto e saltos altos, a rodopiar.

A seguir ao entusiasmo inicial vem normalmente a sabotagem. Os motivos para não querer prosseguir uma modalidade começam a atropelar-se na minha cabeça. O stand-up paddle não traz a adrenalina do surf. O surf no Inverno é muito frio, e é uma chatice ter de remar de volta, devia haver cadeirinhas como no esqui. No esqui o equipamento é muito pesado, é caro ir para a neve, e não tem a leveza do skate. O skate já não me parece adequado à minha idade, não é como o pilates. Para ir ao pilates tenho de acordar muito cedo, devia tentar cycling. No cycling a sala é escura e toca reggaeton, não há o silêncio do ioga. No ioga a professora acabou de dizer para conversarmos com os nossos genitais e ouvirmos o que eles têm a dizer e isso dá-me vontade de rir, devia experimentar cerâmica. Sou desajeitada para a cerâmica, devia ir aprender guitarra. Na guitarra doem-me os dedos, talvez seja melhor piano. A professora de piano tem hálito a café e tabaco, devia tentar dança do ventre.

A única coisa que comecei e não abandonei foi a leitura e a escrita. Talvez porque sejam formas de saltitar de mundos num só. Foi a maneira que encontrei de dançar em milongas na Argentina, de surfar grandes ondas no Havai e de ir a retiros na Índia.

Encontrei nos livros um abrigo para esta hiperactividade e um lugar onde posso buscar constantemente o novo. Eles não só abrigam a curiosidade incessante como vivem dela. E, de todos os objectos, são os que mais favorecem os sonhos. Se, nas outras actividades, sonhar acabava por me frustrar, nesta, sonhar é requisito. E imaginar cenários que parecem impossíveis é a regra. É a única área onde sinto que chegar lá é chegar aqui. E onde posso ser outra pessoa à vontade, porque no fundo serei sempre eu.

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