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Combustíveis fósseis: uma “catástrofe contínua” em nome da energia de todos (e lucro de poucos)

Robin Hinsch visitou alguns dos maiores centros de extracção de matéria-prima de energia fóssil do mundo. Wahala retrata um mundo inóspito e centrado no lucro "que já existe para muitas pessoas que, para as restantes, irá existir muito em breve".

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"Wahala" significa "problema" ou "stress", em iorubá, língua de raiz ancestral falada na Nigéria (e noutros países a sul do deserto do Sara); é também a palavra que o fotógrafo alemão Robin Hinsch elegeu como título do projecto que desenvolveu em 2019 e 2020 em três continentes e que versa sobre "as repercussões ambientais e humanas da dependência global dos combustíveis fósseis".

Hinsch optou por debruçar-se sobre o retrato das regiões do delta do rio Níger, na Nigéria, de Jharkland, na Índia, de Manhein, na Alemanha, e da Silésia, na Polónia, por serem lugares onde a extracção de matéria-prima dos solos é realizada "em prol do lucro [de empresas privadas]" e em detrimento da saúde e bem-estar das populações e ecossistemas locais, pode ler-se no comunicado da editora Gost, que promete lançar o fotolivro Wahala já em Dezembro.

"Escolhi estes quatro locais porque têm características muito específicas", diz Robin Hinsch ao P3, em entrevista. "Desde o início da extracção de crude na Nigéria por parte do Império Britânico, as pessoas e o ecossistema do delta do rio Níger enfrentam pressões tremendas." O alemão apelida essa operação de "catástrofe contínua" e assegura que essa é responsável pela ruína de um ecossistema que foi, outrora, extremamente valioso. "O mesmo se passa em Jharkland, na Índia", onde existe a maior mina de exploração de carvão a céu aberto do mundo, onde a exploração do trabalho infantil ainda é um problema real. "A região sofre com a intensa poluição atmosférica", lamenta.

O mundo, tal como hoje o conhecemos, é dependente de energia. Toda a cadeia de produção e de distribuição alimentar, por exemplo, depende de energia, mas nem todos os países ou povos ou ecossistemas sofrem directamente as consequências que advêm do processo de extracção ou transformação da matéria-prima em electricidade — embora a esmagadora maioria dos países que estão afastados desse processo colham os frutos. Países como a Nigéria ou a Índia "estão no centro do capitalismo global de extracção e, simultaneamente, na sua periferia", discorre o fotógrafo. "No centro porque é a partir deles que são obtidos os combustíveis que alimentam a economia global e na periferia porque são áreas sacrificadas, áreas onde os danos a longo prazo causados ao ambiente e às pessoas são aceites porque a partir deles se gera lucro noutros lugares."

As visitas à Polónia e à Alemanha, países europeus onde existem grandes pólos de exploração do subsolo, "sublinham a dependência dos combustíveis fósseis" também a Ocidente. Os danos causados por esse tipo de indústria ao meio ambiente são também elevados, mas o custo e impacto para as populações destes países é menor graças à existência de leis de protecção laboral, de protecção ambiental e dos serviços de saúde prestados aos habitantes, de elevada qualidade (em comparação com o de outras regiões do mundo) e de acesso tendencialmente gratuito. 

Para o fotógrafo alemão, "os combustíveis fósseis são, por um lado, o motor da economia global e, por outro, o motor da catástrofe climática". Wahala é "uma forma de protesto e, ao mesmo tempo, um alerta", elucida. Para Hinsch não se trata de activismo; a argumentação é a chave. "O trabalho retrata um mundo que já existe para muitas pessoas que, para as restantes, irá existir muito em breve."

A ideia por detrás do projecto é, explica, "expor os mecanismos que estão por detrás da extracção de combustível fóssil e demonstrar que não existe, na base, qualquer diferença entre destruir o meio ambiente ou ser agente de violência contra pessoas". "As fotografias revelam as contradições da promessa do crescimento perpétuo e demonstram o quanto o sistema de capitalismo fóssil sofre debaixo do seu próprio peso." Não deseja que o espectador se sinta "culpado" diante das suas imagens. "Espero, sim, que o trabalho inspire no sentido da mudança."