Fotografia

Índia: as crianças que trabalham no “inferno” de carvão de Jharia

©Supratim Bhattacharjee
Fotogaleria
©Supratim Bhattacharjee

Por entre o fumo tóxico, centenas de crianças – algumas com apenas quatro anos – transportam, à cabeça, cestos de pedras negras que pesam quase o mesmo que o seu próprio corpo. Colina acima, cobertas de fuligem, caminham em direcção ao local onde depositam o suado resultado do seu esforço. Uma tarefa monumental que remete para o castigo de Sísifo: diário, repetitivo, tortuoso.

"Inferno" foi a palavra que o fotógrafo indiano Supratim Bhattacharjee escolheu para descrever as minas de carvão de Jharia. E garante que não está a exagerar. Este não é um lugar comum; afinal, aqui lavra, há mais de um século, um dos incêndios mais antigos do mundo. E, em simultâneo, outros 69 que, apesar de mais jovens, são igualmente nocivos. As chamas, o calor infernal e o esforço escravo compõem o retrato do local.

É com as próprias mãos, com recurso a picaretas e a força bruta, que as crianças de Jharia recolhem as pedras. O trabalho será convertido em menos de dois euros por dia. "A população é tão pobre que as crianças são forçadas a trabalhar e, ainda assim, sofrem de malnutrição", explica o fotógrafo indiano. O dinheiro ganho por elas é trocado por arroz, a base da sua deficitária alimentação. "Colocar os filhos na escola é um sonho para os pais, nesta região." É a pobreza destes, também trabalhadores da mina, que obriga as crianças a abdicar da escola. E é a iliteracia que as mantém "escravas" do carvão enquanto adultas. O ciclo é vicioso. E, sem intervenção, refere Supratim, é parca a esperança de ver algo mudar.

O carvão alimenta, mas mata devagar. "Aqui, a morte está presente todos os dias", lamenta Supratim, em entrevista ao P3. Mortes por esmagamento, intoxicação e doença prolongada são as mais comuns. O fotógrafo indiano conhece a fundo esta realidade; a série de fotografias que criou, The Curse of Coal – "A Maldição do Carvão", em tradução livre –, resulta de seis anos de trabalho. Gases tóxicos que estão presentes em grande densidade no ar da mina, como dióxido e monóxido de carbono, ou óxido de nitrogénio, são a causa de problemas pulmonares, dermatológicos, oftalmológicos. 

Existe uma larga parcela de trabalhadores da mina que se encontram em situação ilegal, grupo no qual se incluem todas as crianças. "Existem máfias que subcontratam, à força, estas pessoas, e ficam com grande parte do seu lucro diário", explica o fotógrafo. Por esse motivo, a presença da polícia no local é frequente – e as crianças são o seu principal alvo. Não raramente são forçadas a fugir, deixando para trás o fruto da sua jorna. 

75% da electricidade que a Índia consome provém da combustão de carvão, o que torna o país num dos principais emissores de CO2 do planeta, a seguir à China e aos Estados Unidos. Apenas em Jharia são extraídas 32 milhões toneladas de carvão por ano e ainda existem, em reserva, cerca de 19,4 mil milhões de toneladas para extracção, pelo que não existe previsão de encerramento. "A situação piora de dia para dia", afirma o fotógrafo. "A exploração laboral aumenta, os salários diminuem. As condições de salubridade deterioram-se, a doença é cada vez mais frequente." É urgente uma intervenção externa. "Gostaria que o meu projecto chegasse a pessoas de todo o mundo e que alguém fizesse algo por estas pessoas."

Minas de Jharia, em Jharkhand, na zona leste da Índia. A mina pertence e é explorada pelo Estado indiano desde 1971.
Minas de Jharia, em Jharkhand, na zona leste da Índia. A mina pertence e é explorada pelo Estado indiano desde 1971. ©Supratim Bhattacharjee
Homens, mulheres e crianças trabalham, por vezes ilegalmente, nas minas, onde obtêm um rendimento diário de menos de dois euros por dia.
Homens, mulheres e crianças trabalham, por vezes ilegalmente, nas minas, onde obtêm um rendimento diário de menos de dois euros por dia. ©Supratim Bhattacharjee
Crianças dos quatro aos 15 anos trabalham na mina, acompanhadas pelos pais.
Crianças dos quatro aos 15 anos trabalham na mina, acompanhadas pelos pais. ©Supratim Bhattacharjee
Crianças dos quatro aos 15 anos trabalham na mina, acompanhadas pelos pais.
Crianças dos quatro aos 15 anos trabalham na mina, acompanhadas pelos pais. ©Supratim Bhattacharjee
"A população é tão pobre que as crianças são forçadas a trabalhar e, ainda assim, sofrem de malnutrição", explica o fotógrafo indiano.
"A população é tão pobre que as crianças são forçadas a trabalhar e, ainda assim, sofrem de malnutrição", explica o fotógrafo indiano. ©Supratim Bhattacharjee
"Colocar os filhos na escola é um sonho para os pais, nesta região", diz Supratim ao P3.
"Colocar os filhos na escola é um sonho para os pais, nesta região", diz Supratim ao P3. ©Supratim Bhattacharjee
É a pobreza das famílias que obriga as crianças a abdicar da escola. E é a iliteracia que as mantém "escravas" do carvão, enquanto adultas.
É a pobreza das famílias que obriga as crianças a abdicar da escola. E é a iliteracia que as mantém "escravas" do carvão, enquanto adultas. ©Supratim Bhattacharjee
Mortes por esmagamento, intoxicação e doença prolongada são as mais comuns.
Mortes por esmagamento, intoxicação e doença prolongada são as mais comuns. ©Supratim Bhattacharjee
Carregam, frequentemente, cestos e sacos cheios de pedras que têm peso pouco inferior ao do seu próprio corpo.
Carregam, frequentemente, cestos e sacos cheios de pedras que têm peso pouco inferior ao do seu próprio corpo. ©Supratim Bhattacharjee
Carregam, frequentemente, cestos e sacos cheios de pedras que têm peso pouco inferior ao do seu próprio corpo.
Carregam, frequentemente, cestos e sacos cheios de pedras que têm peso pouco inferior ao do seu próprio corpo. ©Supratim Bhattacharjee
O dinheiro ganho pelas crianças é trocado por arroz, a base da sua alimentação.
O dinheiro ganho pelas crianças é trocado por arroz, a base da sua alimentação. ©Supratim Bhattacharjee
Todos os dias, as crianças trabalham entre quatro a cinco horas.
Todos os dias, as crianças trabalham entre quatro a cinco horas. ©Supratim Bhattacharjee
Durante uma hora, das 10h às 11h, é permitido às crianças "roubar" carvão para vender no exterior.
Durante uma hora, das 10h às 11h, é permitido às crianças "roubar" carvão para vender no exterior. ©Supratim Bhattacharjee
Fazer dinheiro depende, por vezes, da promessa de um cliente em aparecer ao final do dia.
Fazer dinheiro depende, por vezes, da promessa de um cliente em aparecer ao final do dia. ©Supratim Bhattacharjee
A polícia é presença comum em Jharia. E as crianças são o seu principal alvo.
A polícia é presença comum em Jharia. E as crianças são o seu principal alvo. ©Supratim Bhattacharjee
A presença de crianças com idade inferior a quatro anos é comum.
A presença de crianças com idade inferior a quatro anos é comum. ©Supratim Bhattacharjee
Crianças com idades inferior a quatro anos não trabalham, mas permanecem na mina, aguardando os pais.
Crianças com idades inferior a quatro anos não trabalham, mas permanecem na mina, aguardando os pais. ©Supratim Bhattacharjee
É com as próprias mãos, por vezes com recurso a picaretas, que as crianças colectam as suas pedras de carvão.
É com as próprias mãos, por vezes com recurso a picaretas, que as crianças colectam as suas pedras de carvão. ©Supratim Bhattacharjee
Criança toma banho no exterior, após o trabalho.
Criança toma banho no exterior, após o trabalho. ©Supratim Bhattacharjee
Gases tóxicos que estão presentes em grande densidade no ar da mina são a causa de problemas pulmonares, dermatológicos, oftalmológicos.
Gases tóxicos que estão presentes em grande densidade no ar da mina são a causa de problemas pulmonares, dermatológicos, oftalmológicos. ©Supratim Bhattacharjee
Máfias subcontratam, ilegalmente, extorquindo aos trabalhadores parte do seu rendimento diário.
Máfias subcontratam, ilegalmente, extorquindo aos trabalhadores parte do seu rendimento diário. ©Supratim Bhattacharjee
O carvão alimenta, mas mata devagar.
O carvão alimenta, mas mata devagar. ©Supratim Bhattacharjee
Este não é um lugar comum; afinal, aqui lavra, há mais de um século, um dos incêndios mais antigos do mundo. E, em simultâneo, outros 69 que, apesar de mais jovens, são igualmente nocivos.
Este não é um lugar comum; afinal, aqui lavra, há mais de um século, um dos incêndios mais antigos do mundo. E, em simultâneo, outros 69 que, apesar de mais jovens, são igualmente nocivos. ©Supratim Bhattacharjee
Sugerir correcção