Há já centenas de pessoas de dois movimentos a apoiar alunos em protesto pelo clima

Circulam, pelo menos, dois documentos que já reúnem várias centenas de assinaturas para expressar o apoio aos protestos pacíficos dos alunos que estão a ocupar escolas numa acção pelo clima.

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No sábado, centenas de pessoas participaram numa marcha em Lisboa contra o "fracasso" climático Nuno Ferreira Santos

Os protestos dos alunos que ocuparam várias escolas em Lisboa desde segunda-feira foram ganhando força, dia após dia. Na sexta-feira à noite, pela primeira vez, numa das faculdades ocupadas foi solicitada a presença da polícia e quatro pessoas foram detidas. No sábado, centenas de alunos estiveram nas ruas de Lisboa numa marcha pelo clima e pelo fim da dependência dos combustíveis fósseis. Este domingo surgiram já, pelo menos, dois movimentos de apoio aos jovens activistas climáticos e aos seus protestos pacíficos.

Uma das iniciativas é uma declaração de apoio escrita e “partilhada de forma espontânea entre artistas e pessoas da cultura”. Ao início da tarde deste domingo juntava já mais de 350 nomes. É impossível citá-los a todos, mas no documento enviado ao PÚBLICO, que é assinado pela “comunidade cultural e artística”, contam-se os nomes de Rui Chafes, Teresa Villaverde, Alexandre Estrela, Ana Luiza Teixeira de Freitas, Pedro Penim ou João Salaviza.

“Saudamos os jovens activistas climáticos que se têm manifestado nas escolas portuguesas contra a inércia dos nossos governantes na resposta à emergência climática. Estas pessoas que lutam por um futuro ambientalmente sustentável sabem que é urgente e possível a mudança de paradigma, no respeito pelas leis da natureza e do universo e na defesa de um mundo novo”, refere o texto de introdução sobre esta iniciativa.

A mesma carta faz ainda referência à detenção na noite de sexta-feira de “quatro jovens, em protesto na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que já na próxima segunda-feira, dia 14, serão levados à justiça portuguesa por lutarem pela justiça climática”. E conclui: “Repudiamos qualquer tentativa de intimidação, de silenciamento e condenação do activismo climático”.

Por fim, refere ainda: “Não aceitaremos o uso da força ou qualquer tipo de punição, seja ela física ou institucional. Exigimos que jamais seja comprometido o direito à manifestação pacífica e que as nossas instituições públicas sejam garante dos direitos dos cidadãos. Exigimos ao Governo português que ouça com urgência os apelos destas jovens pessoas estudantes e que em diálogo com a comunidade científica ponha em marcha um plano de acção mais ambicioso e consequente contra o fracasso climático”.

Na carta de apoio aos jovens activistas climáticos, a autodesignada Comunidade Cultural e Artística apela ainda às escolas, faculdades, museus e instituições culturais do país “para que iniciem uma reflexão interna, e em diálogo com a comunidade, a respeito da emergência climática e assumam uma posição inequívoca e comprometimento sério na luta pelo clima”. Por fim, declaram: “Toda a solidariedade para com a jovem comunidade de estudantes activistas climáticos. Esta luta é de todos nós.”

Professores e investigadores também se juntam

Enquanto esta comunidade cultural se organizava, formava-se outra iniciativa de apoio aos jovens activistas climáticos do país. Através de documento partilhado na Internet e que possui um formulário que pode ser preenchido por qualquer pessoa, surgiu o “Apoio ao movimento pacífico de ocupação de escolas pela Greve Climática Estudantil”.

“Move-nos um imperativo de solidariedade. Somos um grupo independente de professoras e professores, de investigadoras e investigadores, que se constituiu para declarar apoio ao movimento pacífico de ocupação de escolas da Greve Climática Estudantil pelo ‘fim ao fóssil'”, explicam no início do documento.

Neste caso, os promotores desta iniciativa justificam que se aliam à causa estudantil “por um plano de governo concreto, exequível, para a neutralidade carbónica até 2030, salvaguardando a equidade de trabalho (e a transição justa para empregos para o clima), bens e garantias”. “Tencionamos continuar a fazer o nosso trabalho. Vamos estar com as/os estudantes o mais possível”, anunciam manifestando a disponibilidade para colaborar numa série de questões.

Alguns exemplos: “Fazer aulas que contem com elas e eles e tratem dos problemas do clima e da justiça ambiental"; “intervir com as nossas aptidões e conhecimentos a nível científico, crítico, criativo e pedagógico"; “discutir e (re)construir um desenho curricular que permita trabalhar sobre estas questões; nos organizarmos para debater as nossas insuficiências a nível ambiental e social em cada uma das nossas instituições"; “elencar e reivindicar as medidas específicas mais prementes para a mudança em cada escola”. E ainda: “Participar em acções, construtivas e não coercivas, de alerta, alegria, debate e protesto, aliando estudantes e trabalhadores, com vista à mudança que urge implementar em prol da justiça ambiental e social”.

Problemas com a polícia

No sábado, centenas de jovens e gente de todas as idades participaram numa marcha que percorreu algumas ruas de Lisboa para protestar contra o “fracasso” climático, para pedir o fim da dependência dos combustíveis fósseis e ainda a demissão do ministro da Economia, António Costa Silva. Este domingo, o ministro da Economia afirmou-se solidário com os movimentos climáticos e defendeu que nos últimos 20 anos não foi apologista de maior uso do petróleo, considerando que as manifestações são legítimas e mostrando disponibilidade para se reunir com os activistas.

Em declarações à agência Lusa e em reacção ao pedido da sua demissão pelos activistas, António Costa Silva argumentou: “Em todo o meu percurso ao longo de 20 anos não só fui um defensor das energias renováveis, como agora no Governo estamos a potenciar a aplicação dessas energias e a desenvolver tudo para que a transição energética funcione.”

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Ocupação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa DR

Depois de uma semana intensa de protestos pacíficos que pareciam ganhar força de dia para dia e que começaram na segunda-feira, a acção dos jovens estudantes “ocupas” complicou-se na passada sexta-feira à noite quando a direcção da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) fez um ultimato declarando que os alunos teriam de abandonar o edifício até às 19h00. De uma forma mais ou menos explícita, os professores e direcções das escolas ocupadas pelos activistas têm expressado o seu apoio à causa ambiental.

Na FLUL, o protesto complicou-se. Segundo informações dos alunos ao PÚBICO, os manifestantes ainda tentaram negociar com a direcção da faculdade mas não tiveram sucesso. “Estivemos várias horas a tentar negociar com a direcção [da FLUL], mas nem sequer foi o director [Miguel Tamen] que se apresentou, foi o director-executivo. As respostas que nos deu [às reivindicações] não foram suficientes, então achámos que não podíamos sair ainda da faculdade”, contou Ana Carvalho, de 23 anos, uma das organizadoras da ocupação da FLUL, que tinha passado a madrugada detida até às 5h.

Ana Carvalho explicou ainda que o núcleo de ocupação apresentou soluções à faculdade, como fazer uma carta de apoio ao movimento. “A faculdade recusa-se a ouvir, desresponsabilizou-se de qualquer acção. Acho que as instituições não estão a perceber a influência que podem ter”, aponta. “Falando do fim ao fóssil, o director disse que a faculdade não se podia posicionar porque uma faculdade não pode tomar uma posição política. Mas, ao recusarem-se a fazer, também estão a tomar uma posição política”, argumenta.

Já de noite, quatro estudantes foram levadas pela polícia, incluindo Ana Carvalho. “Deixa-me muito revoltada. Como é que um director de uma faculdade, sem sequer se dignar a aparecer, dá ordem para a polícia de choque entrar na faculdade e retirar os alunos que lá estão? Foram 12 polícias para tirar quatro pessoas”, indigna-se. Os outros três alunos estavam colados ao chão e foram arrancados de lá, contou a estudante, que tinha a missão de lhes dar apoio: “Eles ficaram com feridas nas mãos. Foi uma força excessiva para retirar alunos que estavam a lutar pelo futuro.”

Possivelmente com pouco descanso, Ana Carvalho lembrou a noite atribulada da madrugada de sábado durante a marcha que, no mesmo dia à tarde, ocupou as ruas de Lisboa. “É muito bom ver não só os estudantes, mas a sociedade em geral aqui unida para gritar pelo fim ao fóssil e para dizer que não podemos continuar a viver na normalidade.”

Na sexta-feira, não foi possível obter nenhuma informação da direcção da FLUL e, até agora, não houve nenhuma tomada de posição oficial em comunicado. O PÚBLICO tentou este domingo contactar o director da faculdade, Miguel Tamen, mas não conseguiu obter qualquer resposta.

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